Leonard Nimoy | Uma história de combate ao bullying e ao racismo, aceitação e apoio ao feminismo

Ainda estamos tristes com a morte de Leonard Nimoy e descobrimos um fato (UPDATE: vários fatos!) que não podem passar batido.

Leonora Epstein do BuzzFeed, descobriu um post do blog “My Star Trek Scrapbook”, que mostra uma carta publicada em uma edição da extinta revista Teen Fave, em 1968.

Na carta, (dirigida ao Sr. Spock) uma jovem birracial lamenta por não se sentir encaixada nem entre os brancos nem entre os negros. Lembrando que é 1968 e o Jim Crow – as leis de segregação racial que separavam “espaços de brancos” e “espaços de negros” nos EUA – haviam sido suspensas somente 3 anos antes.

Leonard Nimoy ficou tão comovido com a carta, que na edição seguinte da revista respondeu para a menina. A resposta é uma lição de auto-aceitação, auto-estima e um manifesto anti-bullying que deve ser replicado em todos os lugares possíveis.

O conteúdo completo da carta está aqui (realmente ele não era desse mundo):

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Querido Sr. Spock,

Eu não sou muito boa em escrever cartas então serei breve. Eu sei que você é meio humano e meio Vulcan e que sofreu por causa disso. Minha mãe é negra e meu pai é branco e me contaram que isso faz de mim uma mestiça (half-breed). Em algumas maneiras, eu sou mais perseguida do que os negros. Os negros não gostam de mim porque eu não me pareço com eles. As crianças brancas não gostam de mim porque eu também não me pareço exatamente com elas. Acho que eu nunca terei amigos.
F.C.
Los Angeles, Calif.

A resposta:

Como você sabe, só a mãe de Spock era humana. Spock cresceu entre crianças Vulcanas e como era diferente, ele teve que enfrentar o problema de não ser aceito. Isso aconteceu porque pessoas – especialmente jovens – tendem a formar grupos, quase como alcatéias de lobos. Eles costumam demandar que você seja exatamente como eles ou você não será aceito. E os Vulcanos não eram diferentes dos humanos em se tratando de preconceito.

A maior parte das crianças Vulcanas não gostava de Spock por que ele era meio humano. Então eles não o incluiam em todas as coisas que faziam. Ele era muito solitário e ninguém o entendia. Então Spock era muito triste por não ser popular. Mas era somente a necessidade de popularidade que estava prejudicando a sua felicidade. A questão era: o que era mais importante, ser popular com o grupo que poderia se voltar contra ele a qualquer momento, ou se manter fiel a si mesmo?

É preciso muita coragem para abrir mão da popularidade e seguir seu próprio caminho. Mesmo que por dentro você não seja igual aos membros do grupo, ainda é aterrorizante a decisão de deixá-los, porque enquanto você for popular, ao menos haverá alguém para lhe fazer companhia. Mas se você deixá-los, você pode acabar sozinho.

Existe uma vozinha dentro de cada um de nós que nos diz quando não estamos sendo verdadeiros com nós mesmos. Nós devemos ouvir essa vozinha. Muitas vezes tentamos nos convencer que ‘Não tem problema implicarmos com aquela pessoa’, nós dizemos isso porque essa ação vai nos tornar populares por um tempo com o grupo.

Mas não há motivos para implicarmos com ninguém. Essa pessoa só será implicada ou excluída por causa de sua história, por causa de como ela se parece, ou fala, ou pensa. É só por que ela é diferente – não porque vale menos do que qualquer outra pessoa.

Spock aprendeu que poderia salvar a si mesmo de permitir que o preconceito o deixasse para baixo. Ele poderia fazer isso através de conhecer a si mesmo realmente e sabendo o seu verdadeiro valor como uma pessoa. Ele aprendeu que ele era igual a qualquer um que tentasse diminuí-lo – igual na sua própria e única maneira.

Você também pode fazer isso, se você perceber a diferença entre popularidade e a verdadeira grandeza. Já foi dito que a ‘popularidade’ são apenas as migalhas da grandeza.

 Quando você pensa em pessoas que foram realmente grandiosas e melhoraram o mundo, você percebe que são pessoas que perceberam que não precisavam de popularidade porque tinham algo especial a oferecer ao mundo, não importa o quão pequena fosse essa oferta. E eles ofereceram, e essa oferta foi aceita com amor e paz. Tudo se resume a ter a paciência para descobrir o que você mesma tem a oferecer ao mundo que seja unicamente seu.

Então – a resposta para todo o problema, a resposta que Spock encontrou quando precisou superar a vontade de ser popular. Está em encontrar seu objetivo pessoal, persegui-lo e esquecer tudo o que as pessoas estão dizendo. Se você fizer isso, aquelas pessoas que aceitam as outras pelos motivos certos – o seu valor próprio – irão te encontrar e gostar de você.

Então Spock disse a si mesmo: ‘Ok, eu não sou Vulcano, então os Vulcanos não me querem. Meu sangue também não é vermelho como o dos terráqueos – é verde. E as minhas orelhas, bem. É óbvio que eu não sou humano. Então eles também não me querem. Eu vou me virar sozinho e não vou me preocupar com o que aqueles que não me conhecem de verdade pensam de mim.’

Spock decidiu que ele iria alcançar seus valores pessoais e únicos. Ele faria aquilo que o fizesse sentir melhor sobre si mesmo. Ele decidiu ouvir a vozinha dentro de si em vez das pessoas ao seu redor.

Ele trocou a necessidade de ser aceito pela necessidade de ser realizadoEm vez de se preocupar em ser popular, ele se preocupou em ser inteligente. E em vez de querer ser poderoso, ele se interessou em ser útil.

Ele disse a si mesmo ‘Nem todos irão gostar de mim. Mas haverão aqueles que me aceitarão exatamente como eu sou. Eu vou me tornar tão excelente, inteligente e brilhante que conseguirei enxergar através de qualquer problema e superar qualquer crise. Eu irei ser um mestre das minhas próprias habilidades e carreira e haverá um lugar para mim. Pessoas de todas as raças irão precisar de mim e não conseguirão se virar sem mim.’

E foi isso que ele fez. E quando eu o vejo parado, na ponte da Enterprise, enfrentando o perigo e situações de vida-ou-morte tão calmamente e com tanta inteligência, eu tenho certeza de que ele tomou a decisão correta.”

Leonard Nimoy falava por experiência própria. Filho de imigrantes judeus ortodoxos da Ucrânia, ele dizia que essa identidade formou boa parte do personagem:

Spock é um alienígena, onde quer que ele esteja. Porque ele não é humano. Ele não é Vulcano. Ele é meio a meio – o que nós costumávamos chamar de mestiço. […] Ele não é totalmente aceito na cultura Vulcana porque ele não é inteiramente Vulcano. Ele certamente não é inteiramente aceito na cultura humana porque ele é parte Vulcano. E essa alienação foi algo que eu aprendi em Boston. Eu sei o que significava ser membro de uma minoria – e algumas vezes, uma minoria excluída. Então eu entendi esse aspecto do personagem, e acho que foi de grande ajuda para interpretá-lo.

Sua herança judaica também transpareceu na criação da icônica saudação Vulcânica, acompanhada dos dizeres “Vida Longa e Próspera”. Segundo ele explica no vídeo abaixo (em inglês), é uma versão de uma antiga benção judaica:

Sua paixão pelas raízes era tamanha que em 2005, Nimoy publicou Shekhina, um livro de fotografias que representavam a feminilidade dentro do judaísmo.

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Unindo a experiência com bullying e exclusão social, em 2010 ele publicou o livro de fotografias Full-Body ProjectLevando a lição de aceitação e amor-próprio para além das palavras e do personagem, a intenção de Nimoy era mostrar a estadunidense média. A Polly, do Lugar de Mulher, fez um post excelente sobre o projeto.

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Não foi à toa que ele escolheu corpos femininos para representar através da arte. Leonard Nimoy era um apoiador aberto do feminismo e lutou para que suas colegas de elenco ganhassem o mesmo salário do que os homens – isso nos anos 1960! Em entrevista ao Las Vegas Sun, Walter Koenig (Chekov) revelou que ao descobrir que Nichelle Nichols (Uhura) não recebia o mesmo salário que seus colegas, ele levou a questão aos produtores.

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Leonard Nimoy foi muito mais do que o Spock. Mas foi Spock que permitiu que tenhamos conhecidos todos os lados de Nimoy, e somos eternamente gratas por isso.

Kris

Publicitária, trabalho em ong, 33 com cara de menos. Mãe do Marco de 8 anos. Amo música, livros, show de rock e desenho animado. Desculpas aos novos games, mas ainda prefiro um Super Nintendo.

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