Maternidade Real | 5 HQs feitas por mães – e pais – que falam a verdade sobre ter filhos

Tente nomear de cabeça cinco heroínas ou personagens protagonistas femininas que sejam mães. Conseguiu? Agora tente lembrar o nome e o destino dessas crianças. Se você não for um profundo conhecedor de quadrinhos, é possível que não consiga. A tendência dos roteiros é sumir com os bebês (Canário Negro, Arlequina, Feiticeira Escarlate), ou com as personagens (Jessica Jones). A Sue Storm é uma exceção muito esquisita que passa longe de representar a maternidade real. Ela rende muito pano pra manga, e, mesmo assim, dificilmente alguém grita GAROTA MULHER INVISÍVEL! quando perguntam qual é sua heroína favorita.

Parece que os roteiristas só conseguem pensar que:

  1.  a mulher (heroína) deixa de existir a partir do momento em que se torna mãe;
  2. o bebê é um obstáculo para a vida ativa da heroína;
  3. quem vai cuidar da criança?

Esses questionamentos vêm desde o final da Era de Prata, nos anos 1960. Dúvidas relacionadas ao equilíbrio entre trabalho e vida doméstica das mulheres que tomavam o mercado de trabalho de assalto eram transmitidos para os quadrinhos na figura da supermãe acidental, conceito criado e descrito por Laura Mattoon D’Amore neste artigo maravilhoso.

Enquanto isso, a principal preocupação quando heróis homens se tornam pais parece ser que isso os torne velhos demais para seu demográfico (Peter Parker). Ninguém se pergunta como o bebê vai atrapalhar a vida ativa desse herói, porque, obviamente, há uma mulher para cuidar do bebê. Dessa maneira, a única responsabilidade do homem fica sendo a de proteger sua família.

Era de se esperar que quase 40 anos depois do período analisado por D’Amore, já tivéssemos avançado nessas questões. Só que ainda estamos engatinhando, muito lentamente, ao menos nos quadrinhos mainstream americanos.

Mães leem quadrinhos e, mais importante, também produzem. Nos exemplos que separamos de HQs protagonizadas por mães de verdade, é notório que a maioria deles seja independente ou publicada por editoras menores. A Marvel e a Image Comics aparecem com exemplos pontuais, mas ainda é pouco.

Não é que a gente queira que todo mundo saia procriando a esmo, até porque o mundo já está superlotado e ser mãe é uma tremenda responsa. O que queremos é ver mãe solo, mãe casada, mães que vazam leite, mães que comem besteira escondido, mães que confundem as datas das festas na escola, mães que saem pra balada, que fazem sexo, enfim. Mães que, com superpoderes ou não, tentam fazer o seu melhor. Mães de verdade, não idealizadas.

Tipo essas:

Mãe Solo (Thaiz Leão)

Maternidade real da Mãe Solo - Thaiz Leão

Thaiz Leão começou o Mãe Solo no puerpério porque estava entediada e precisava de uma distração. Quer mais maternidade real que isso? A designer e ilustradora paulista publicava as tirinhas em seu perfil pessoal para lidar com a solidão dos primeiros meses, mas teve tanta repercussão virou página, que, por sua vez, acabou virando livro. Com um traço bem característico, Thaiz discute feminismo e questões de gênero que permeiam a maternidade solo, como, sei lá: lavar o cabelo.

Eu entrevistei a Thaiz no FIQ 2015 e perguntei se ela achava que tinha conseguido encontrar um elo entre o mundo da maternidade e dos quadrinhos. A resposta dela? “Eu não procurei essa identificação do público. Eu só queria falar. Que eu tava sozinha, que tava difícil, que eu queria ir ao banheiro, que eu queria dormir, e ninguém via”. Parece pesado? Pois ela faz não parecer. Os quadrinhos são hilários (e lindos). Usando pronomes neutros para se referir à criança (é sempre “cria”, em vez de “filho” ou “filha”), e um retrato fidedigno da maternidade real, ela conseguiu encontrar identificação até com quem não é mãe solo.

Talvez por isso, ela tenha angariado quase 70 mil curtidas no Facebook. Seu livro Chora, Lombar, uma coletânea das tirinhas publicadas na página, foi financiado coletivamente e Thaiz é a responsável pelo projeto gráfico do Mãe Sem Manual, da jornalista Rita Lisauskas (outra mãe maravilhosa).

O Pintinho (Alexandra Moraes)

Maternidade Real de O Pintinho - Alexandra Moraes

Eu tenho um apreço especial pelas tirinhas d’O Pintinho por um motivo bem particular: a fonte Fixedsys. Quando a internet era só mato e a gente jogava bola ali naquele campo onde é o Facebook, existia o mIRC. Eu não sei se essa é a inspiração da Alexandra para a escolha de fonte das tirinhas, mas a escolha estética é claramente o Paint, que, aliás, é onde ela edita o  material (o que deixa o conteúdo ainda mais engraçado).

Apesar de algumas tirinhas serem largamente baseadas em diálogos que tem com seu filho mais velho (ela tem dois), elas não são, nem essencialmente nem superficialmente, sobre maternidade. Alexandra esteve no FIQ 2015 em uma mesa sobre Quadrinhos e Política, mas também não gosta de dizer que seus quadrinhos são políticos: ela faz humor. E não é preciso ter filhos para se identificar e rir das tirinhas, mas é imprescindível ter bom humor.

O Pintinho e Dona Pinta são publicados no blog, no Facebook e são protagonistas de três livros – um deles de atividades – e todos publicados pela Lote 42.

Placas Tectônicas (Margaux Motin)

Maternidade real de Placas Tectônicas - Margaux Motin

Vocês já leram um livro e se identificaram de tal maneira com a protagonista que acabam divididas entre querer ser melhor amiga dela e achar que ela é você? Foi exatamente assim que me senti quando li Placas Tectônicas. O livro autobiográfico de Margaux Motin é, antes de mais nada, lindo. O traço delicioso com cores maravilhosas são perfeitos para a personalidade e histórias contadas ali.

Margaux é uma mulher de trinta e poucos anos, recém-separada e mãe de uma menininha. A história acompanha seu processo de recuperação de identidade após a separação, incluindo voltar a vestir roupas que o ex considerava ridículas, a falta de paciência com a carga de ser mãe solo, a culpa advinda dessa falta de paciência, a construção de um novo relacionamento, amizades, a sua relação com a própria mãe… Está tudo lá, maternidade real e pessoa real, com palavrões e o que mais puder.

A narrativa tem um quê de Sob o Sol da Toscana featuring Bridget Jones, com uma grande diferença: ela é mãe. Mas não pensem que isso limita a personagem. O livro é essencialmente sua jornada de autodescoberta e tem muitas cenas que não envolvem a criança – assim como na vida de qualquer mãe. Ela enche a cara de vinho quando a cria está dormindo, ela passa dias na cama com o novo namorado, ela trabalha em regime de home office (sem ser interrompida), e em momento algum perguntamos “ué, cadê a filha dela?” porque… Ta-da! Mães existem fora da maternidade!

Placas Tectônicas foi lançado no Brasil pela Nemo.

Saga (Brian K. Vaughaun)

Maternidade real na capa de Saga - Brian K Vaughan e Fiona Staples

Já falamos sobre esse quadrinho aqui, mas eu não me canso dele. Saga conta a história de um casal improvável: Marco e Alana são inimigos de guerra, mas se apaixonam quando Marco é feito prisioneiro e Alana fica como sua guarda. Eles fogem juntos, Alana engravida em meio a uma guerra intergaláctica onde ambos são procurados e a história é contada pelo ponto de vista de Hazel, a filha dos dois.

Tem muita – muita – coisa envolvida na história, que se passa em um universo criado por Brian K. Vaughan desde sua infância. Em um painel do Nerdist na SDCC, ele conta que, após o nascimento de seu segundo filho, tudo o que ele queria era contar uma história sobre os assuntos que ele estava vivendo, incluindo amamentação, parto, divisão de cuidados… Mas que ninguém estaria interessado em ler sobre isso, porque é chato pra caramba a não ser que seja com você.

Ele colocou chifres, asas, lasers, robôs, fantasmas com as tripas penduradas pra fora, monstros em forma de testículo e… 5 anos, 42 edições, 3 Eisner e Saga continua um sucesso de crítica e de vendas. As experiências de Brian contribuíram para as cenas de parto (em que a muito literal Alana diz que sente como se estivesse cagando, para logo depois ter um parto orgásmico), de amamentação (que acontecem porque, bem… eles são fugitivos de guerra com um bebê, não existe outra opção além da amamentação), troca de fraldas, sling, tá tudo lá… Alana vive uma maternidade real mesmo em um universo absurdamente tecnológico e fictício.

Saga foi lançada no Brasil pela Devir e está em seu quarto volume por aqui.

Spider Woman (Dennis Hopeless)

A maternidade real de Jessica Drew, a mulher aranha, no primeiro volume de Spider Woman

Jessica Drew é filha de espiões da Hydra e, por ser muito doente na infância, foi submetida a experimentos que a deixaram com poderes de aranha. Ela é uma espiã que atua com o codinome de Mulher Aranha, mas, ao contrário da maioria dos super-heróis, ela nunca teve uma vida normal sem super poderes. Por isso, ao final da Guerra Infinita na Marvel, Dennis Hopeless, que havia acabado de ser pai de gêmeos, resolveu sugerir em uma reunião de criação: que tal se ela ficasse grávida?

A ideia era tão inesperada que deu certo. Afinal, qual é a situação mais comum – e ao mesmo tempo mais maluca – pela qual alguém pode passar? Uma gravidez! Inspirado em sua própria experiência e na de sua esposa (que também se chama Jessica) como novos pais, Dennis nos mostra o final da gravidez de Jessica e o incômodo causado por aquele barrigão, complicações no parto, a amamentação e o desespero solitário do puerpério.

Acompanhamos Jessica discutindo com sua melhor amiga, que é ninguém menos que Carol Danvers, a Capitã Marvel,  sobre dar à luz em uma  maternidade interestelar com o apoio de uma doula – sim, eles falam sobre doulas na HQ! – alienígena. A vemos sendo submetida a uma cesariana de emergência e levantando da mesa de cirurgia imediatamente para dar cabo de uns Skrulls que invadiram o hospital (não sem desmaiar depois).

A escolha pela cesariana se deu porque a esposa de Dennis também passou por uma cirurgia de emergência após 30 e tantas horas de trabalho de parto (que nem eu!) e ele disse que não poderia escrever sobre a experiência de um parto normal já que nunca passou por uma. Ele contou que o hospital alienígena no qual Jessica dá à luz não é muito diferente do que ele vivenciou, porque o centro cirúrgico com suas luzes frias e equipamentos metálicos, máquinas que sugam sangue e médicos disformes sob paramentação foram mais assustadores do que uma abdução.

No podcast The Longest Shortest Time, Denis contou que uma das coisas que ele fez questão que aparecesse na HQ era a amamentação. Ele não queria levantar uma bandeira nem tornar isso maior do que deveria: sua ideia era normalizar o ato, que apareceu naturalmente na história e passou incólume pelo público americano que tende a ser conservador.

O mais bacana dessa HQ é acompanhar Jessica tentando se encontrar no mundo novamente após ser mãe. Ela quer voltar a trabalhar, mas se sente mal por querer isso. Ela quer sair com adultos e ir, aos poucos, vendo que quem ela era antes do bebê não desapareceu. As HQs são repletas de cenas de ação, muito humor e até romance, depois que o mistério sobre a paternidade do bebê é desvendado.

Eu escolhi a cena em que as amigas de Jessica resolvem visitá-la em casa no período do puerpério para ilustrar o post porque acho que é uma das que mais representa a maternidade real na HQ. Vejam bem: Jessica é uma super-heroína essencialmente sensual. Um dos seus poderes é exalar feromônios que fazem com que todos os seres do gênero masculino se sintam sexualmente atraídos por ela, e ela não consegue controlar esse poder, isso simplesmente acontece. Na cena do hospital que mencionei ali em cima, mesmo recém-parida, a roupa do hospital cola-se às suas curvas sinuosas, o que foi um pouco decepcionante. Vê-la com olheiras, manchas de sabe-se lá o que na roupa, peitos vazando e a honestíssima declaração de que o bebê arruinou sua vida é… alentador e muito, muito real.

Esse arco de Spider Woman ainda não foi lançado no Brasil, mas é possível ler no Comixology, no aplicativo da Marvel ou importar pela Amazon.


E vocês, conhecem mais HQs que abordam a maternidade real e são escritas por mães e/ou pais? Já leram algumas das que falamos aqui? Contem pra gente! (:

Nanda Café

Nanda Café

Feminista que faz ballet e adora cor-de-rosa. Gosta de RPG, fantasia medieval, anime água-com-açúcar e é #teammarvel apesar de Sandman ser da Vertigo. Começou a estudar Quenya, mas como não dava pra fazer isso enquanto comia, desistiu de ser elfa e admitiu para si sua natureza hobitesca.
Nanda Café

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