Blog | A festa de futebol e a segregação de gêneros

Na semana passada, postamos em nossa página do Facebook uma foto enviada por uma leitora. Na foto, a separação dos corredores de ovos de páscoa por gênero: o lado das meninas, com ovos da Moranguinho, Monster High e Hello Kitty, e o lado dos meninos, com ovos do Max Steel, Homem Aranha e Ben 10. Criticamos essa segregação, afinal, os desenhos já são marketados para meninos ou meninas, é inteiramente desnecessário reforçar essa separação em um produto tão consumista como um ovo de páscoa.

O que não esperávamos era a repercussão. Boa parte dos comentários dizia que estávamos exagerando. Que éramos chatas. Que a plaquinha no supermercado não impediria ninguém de comprar o ovo que bem entendesse. Eu passei a semana tentando responder os comentários um a um e traduzi um artigo para o Movimento Infância Livre de Consumismo que explica bem didaticamente como, exatamente, a separação por gênero prejudica as crianças.

“Depois dessa segmentação por gênero, meninos e meninas param de brincar juntos numa idade muito mais precoce do que era considerado típico para o desenvolvimento etário. Os estereótipos rígidos de papéis de gênero não são saudáveis para meninos ou meninas, que têm muito mais semelhanças do que diferenças.”

Em exemplos práticos, isso aqui:


O caso acima aconteceu no novo programa do canal GNT, Fazendo a Festa. A proposta do programa é fazer festas “como antigamente, com muita criatividade, boas ideias e dicas infalíveis”. Sim, as ideias são lindas, mas passam longe de ser como antigamente. O programa tem um time de designers para fazer as festas acontecerem! Ninguém tem isso em casa.

O programa de estreia mostrou a festa de Pedro, um menino de 5 anos que “sonha em ser jogador de futebol” e é torcedor fanático do Fluminense. Pedro, aos 5 anos, não queria que as meninas pudessem jogar na partida, então elas receberam pompons para torcer pelos meninos.

festafutebol

Apesar de no vídeo promocional do programa Pedro aparecer batendo uma bolinha com a apresentadora Fernanda Rodrigues, o mesmo não aconteceu na festa. Claro que, após a partida de futebol, as crianças puderam brincar todas juntas como crianças que são, mas a separação de gênero ficou bem clara. Para crianças de 5 anos.

Entendemos que era o aniversário dele e que isso significa que suas vontades sejam respeitadas. Mas será essa uma vontade justa?

Enquanto nos comentários sobre os ovos de páscoa as pessoas insistiam no papel dos pais de educar as crianças a ignorar papéis de gênero e estereótipos definidos, sabemos que o ambiente não atrapalha o papel dos pais. Quando o marketing consegue segmentar o nicho do mercado infantil entre meninosmeninas para vender o dobro de brinquedos e tudo – das propagandas de TV à loja de brinquedos ao corredor de ovos de páscoa – diz que existem diferenças intrínsecas entre meninosmeninas, fica muito difícil para os pais desconstruírem essas crenças.

Estamos criando nossos filhos em uma cultura que promove a segregação de gênero, que insiste em colocar a mulher em um papel inferior ao do homem, uma cultura que exalta o consumismo e individualismo. No entanto, se meu filho crescer egoísta, consumista e machista, a culpa será inteiramente minha, que não o eduquei direito. Colocar a responsabilidade da formação sociológica das crianças inteiramente nos pais, é como torná-los responsáveis caso a criança tenha algum problema respiratório devido à poluição do ar.

No caso da festa de Pedro, não cabia ao programa desconstruir essa ideia de que futebol não era coisa de menina. Esse papel era dos pais. Mas cabia ao programa não incentivar isso e agir conforme sua proposta de criatividade, inventando uma nova atividade que integrasse os meninos e as meninas.

Não queremos julgar como cada família educa suas crianças.  Sabemos que algumas pessoas realmente acreditam nas diferenças inatas de gênero, apesar de que a neurocientista Cordelia Fine já falou: “Falar sobre a diferença entre o cérebro feminino e masculino é como falar sobre a diferença entre o pâncreas masculino e feminino.” Ou seja: não há. Lutar contra a genderização é como batalhar com uma Hidra de Lerna: cada vez que você convence sua criança de que um brinquedo ou programa não é para o gênero oposto, surgem dois novos programas dizendo que meninos e meninas são intrinsecamente diferentes.

Enquanto isso, seguimos aqui falando sobre como a genderização prejudica as crianças: quando elas tentam suicídio por gostarem de um desenho designado para o sexo oposto, quando as roupas de meninas dizem que elas só servem para ser esposas de super-heróis. Até o dia em que todo mundo perceba que meninos e meninas são crianças e não faz sentido separá-las.

Nanda Café

Nanda Café

Feminista que faz ballet e adora cor-de-rosa. Gosta de RPG, fantasia medieval, anime água-com-açúcar e é #teammarvel apesar de Sandman ser da Vertigo. Começou a estudar Quenya, mas como não dava pra fazer isso enquanto comia, desistiu de ser elfa e admitiu para si sua natureza hobitesca.
Nanda Café

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