Blog | As galochas do Menino Maravilha ou uma lição de empoderamento infantil

Benjamin precisou de roupas e calçados novos para a escola,  já que não precisa ir – e não recebeu – uniformes. Na loja de sapatos, o pai dele me manda uma foto de um par de galochas azul estrelado, lindo de viver. “Vão olhar se tem ‘de menino'”. Mostro a foto para a criança, que diz “São minhas galochas novas? Gostei!”, e volta a assistir desenho. Talvez não tenha percebido que há uma pequena Mulher Maravilha desenhada na bota, então aponto isso pra ele. “Eu vi, que é que tem?”. O pai comprou.

Eu escrevo sobre empoderamento infantil. Falo sobre uma criação livre de estereótipos de gênero. É uma das principais pautas aqui no blog por ser um reflexo da educação diária que tento dar para meu filho. Em teoria, ele não se importar com a bota da Mulher Maravilha deveria ser a comprovação de que estou conseguindo educá-lo da maneira que considero correta. Na prática, me apavorou.

Meu filho completa 7 anos daqui a 1 mês. Ele começou o ensino fundamental esse ano, em uma escola totalmente nova para ele e para mim. Muito diferente da educação infantil, onde as crianças mais velhas têm 5 ou 6 anos, ele agora divide o intervalo com adolescentes maiores do que eu, do alto de seus 15 anos. Se para mim é intimidador, imagina para ele. Tudo o que eu conseguia pensar era que iriam rir dele por causa das botas, ou pior: que poderiam agredi-lo por usar algo de menina.

Mesmo vivendo e discutindo equidade de gênero todos os dias em casa, meu filho ainda absorve e reproduz o machismo que aprende em todos os outros lugares. Por exemplo, quando lançamos a linha de camisetinhas Fight Like a Girl e eu pedi para que ele escolhesse uma, ele questionou “Mas por que só tem meninas?” Abri sua gaveta e apontei quantas camisetas de super-herói ele tinha, e como era fácil encontrar roupas de super-heróis meninos. Outro dia ele apontou o fato de que a primeira cena de Leia em Star Wars já é ela sendo capturada. Mas na escola, ele ainda brinca apenas com outros meninos e algumas brincadeiras só podem ser feitas com o pai.

Apesar de conversas infindáveis, ele se importa um bocado com a opinião dos outros. Não gosta que riam dele e ficaria muito aborrecido se alguém fizesse um comentário maldoso sobre as botas. Eu estava entre a cruz e a espada: por um lado eu devia alertá-lo que era uma possibilidade, por outro, se ele não havia visto como um problema, eu não deveria fazer com que fosse. Aproveitei o longo caminho para a escola para tentar abordar o assunto.

–  Olha, filho! Sua bota combina com a bolsa da mamãe!
– Eu sei. Também combina com o seu chinelo.
– Você sabia que a Mulher Maravilha é uma das minhas heroínas favoritas?
– Sei, né. Você tem um monte de coisa dela.
– Mas você sabe por que ela é uma das minhas heroínas favoritas?
– Porque ela é menina?
– …também. Mas também porque ela é diferente dos outros heróis. E ela é tão poderosa que já derrotou até o Batman.
– Ela derrotou o Batman?

Hiketeia

Aí eu contei pra ele, por alto, a história da Hiketeia, deixando claro que eles não eram inimigos e que super-heróis não brigavam entre si. Ele mesmo lembrou do trailer de Batman vs. Superman, quando a Mulher Maravilha deixa os dois heróis boquiabertos e os ajuda a parar de brigar um com o outro (porque foi isso que ele entendeu). Eu perguntei se ele achava que a Mulher Maravilha era coisa de menina, e ele, depois de pensar um pouco, disse que não.

Porque da mesma forma que somos entusiastas do empoderamento feminino ao incentivar que meninas se apropriem de heróis masculinos, entendemos que é uma parte importantíssima da criação de meninos a relação e admiração das figuras femininas. Esse texto (em inglês) explica alguns dos motivos: as meninas sempre se apoderaram dos personagens masculinos, mas os meninos têm poucas figuras heroicas femininas para admirarem.

“As personagens femininas no entretenimento mainstream tendem a ser coadjuvantes ou interesses românticos (sem contar que para cada 3 personagens masculinos existe uma feminina). […] É isso que é tão legal sobre a Rey, Katniss e a Supergirl: é impossível ignorá-las. Elas são protagonistas femininas em obras que meninos são encorajados – e até espera-se – que assistam. Pela primeira vez, meninos precisam empatizar com protagonistas femininas da mesma forma com que empatizam com os masculinos.”

Num mercado onde a Mulher Maravilha muitas vezes some do merchandising da Liga da Justiça, era muito difícil fazer com que ela se tornasse interessante para meu filho. As botas de R$20,00 me deram essa oportunidade.

Então eu o mandei para a escola, com o coração apertado, e nada aconteceu. Não sei se o mundo está menos sexista, se são as crianças da escola dele, ou se ele simplesmente não se importa, porque sabe que a Mulher Maravilha é uma heroína incrível, independente do gênero. Ele continua indo para a escola com as galochas em dias de chuva, aproveitando para pular em todas as poças que encontra.

Nanda Café

Nanda Café

Feminista que faz ballet e adora cor-de-rosa. Gosta de RPG, fantasia medieval, anime água-com-açúcar e é #teammarvel apesar de Sandman ser da Vertigo. Começou a estudar Quenya, mas como não dava pra fazer isso enquanto comia, desistiu de ser elfa e admitiu para si sua natureza hobitesca.
Nanda Café

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  • Fabiana Fernandes

    É uma luta, não é mesmo, Fernanda?! Todos os dias ensinamos em casa e ficamos torcendo pra não desensinarem na escola e nas ruas. Luta infindável!

  • Passei por uma situação chata também. Meu filho queria um docinho da Hello Kitty e a moça do caixa chegou e falou que aquele doce não era para ele. É realmente complicado educar nossos filhos neste quesito. Busco sempre minimizar ao máximo essa coisa de azul para menino e rosa para menina.
    É uma luta a cada dia.

    Parabéns pelo texto =D