Blog | Crianças, mães e eventos nerds

Existe uma chance muito grande de que você tenha chegado até o Pac Mãe através de um mini cosplayer, já que nossa fanpage foi praticamente construída com a ajuda de fotos do tipo, que fazem todo mundo suspirar. Então entendemos melhor do que ninguém aquilo que chamamos de efeito crianças fofinhas: elas geram engajamento, têm apelo emocional e são uma peça publicitária praticamente pronta, e achamos mais do que natural que os grandes eventos nerds (convenções, encontros e feiras) se utilizem das crianças fofinhas para interagir com seu público e, ao mesmo tempo, mostrar como são um evento para toda a família.

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Mas será que são mesmo?

Depois do post sobre amamentação, onde falei por alto sobre esse assunto, chegaram até mim relatos bem tristes de mães que foram coagidas por seguranças ao amamentarem na “área pública” dos eventos, famílias que deixaram de frequentar ou diminuíram a quantidade de eventos depois das crianças, mães que trocaram a fralda de bebês em pé, pela ausência de um fraldário ou até mesmo uma bancada no banheiro para realizar tal atividade.

Se você está pensando que evento nerd não é lugar de criança mesmo, eu tenho um segredo pra contar: mulheres não perdem suas identidades depois de terem filhos. Elas continuam gostando das mesmas coisas e dos mesmos lugares. Então se uma mãe costumava fazer cosplay antes da gravidez, as chances são de que ela vai continuar a fazer cosplay durante e depois (gerando as fotos das crianças fofinhas). E eventos nerds são um programa familiar perfeito: eles geralmente acontecem 1) durante o dia, 2) em locais próximos a transporte público e 3) têm atividades espalhadas. Então como raios eles estão tão pouco preparados para receber famílias – mesmo quando se vendem como tal?

Eu moro em uma cidade pequena que recebe poucos eventos nerds – a maioria relacionada a anime. O maior deles (com expectativa de público de 3.000 pessoas por fim de semana) acontece em uma escola, ou seja: nada de fraldário ou banheiros familiares.  Crianças a partir de 5 anos pagam – mesmo que não fiquem durante o dia inteiro – pois além de não aguentarem a jornada, a oferta de comida e água é sofrível. Os lanches são pouco saudáveis, os preços são altos e as mochilas são revistadas na entrada para garantir que o lucro com a venda de comidas e bebidas não escape nas brechas da comida caseira – o que é perfeitamente aceitável. Mesmo com a distribuição de pulseirinhas que garantem a ida e vinda durante o dia todo, o evento perde a novidade nas primeiras horas e dificilmente uma criança menor de 10 anos irá passar mais de 3h no evento – e ela está pagando o mesmo preço de um adulto que irá passar o dia inteiro por lá. Até porque não existem atividades voltadas para crianças.

 

Embora não seja o ideal, isso é até aceitável para um evento pequeno em uma cidade pequena. Certamente em outros locais é difente, pensei. Resolvi perguntar a várias mães em várias comunidades nerds e descobri que esses defeitos são encontrados em todo o país: mesmo em São Paulo, a meca geek brasileira. Feiras de quadrinhos, de games e até a tão amada Comic Con Experience se mostraram totalmente ineficazes em receber mães e crianças pequenas por apresentarem quase todas as falhas mencionadas acima.

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Se nem no maior evento nerd do Brasil as mães são bem-vindas, imagina nos pequenos.

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Uma mãe costumava ser da organização de um dos maiores eventos de cultura pop de Brasília e revelou algo que essas falhas já deixam transparecer:

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O bem-estar das mães e crianças não está na pauta dos organizadores. Sim, a maior parte desses eventos ocorre em lugares grandes e estruturados e alguns desses lugares já oferecem fraldários (nos banheiros femininos apenas), como é o caso da CCXP e da Brasil Game Show. Na CCXP haviam alguns estandes com programação infantil que estavam próximas umas das outras e longe das áreas mais agitadas, como os da Turma da Mônica e do Cartoon Network, mas vejam bem:

CCXP

5 anos parece ser a idade média que os eventos começam a cobrar. O que pode parecer justo: a maior parte dos eventos internacionais cobra de crianças a partir de 6 anos. Mas nós nos perguntamos por que? Uma criança de 5 anos não vai ter a mesma experiência de um adulto. Ela não irá aos painéis, às premieres, não engrossará filas para autógrafos ou ocupará a cadeira de uma batalha de games. Sem contar que, como já foi dito, elas não aguentam um dia inteiro de evento – e em SP eles tendem a acontecer em locais afastados, não dá pra dar um pulinho em casa (ou no hotel) e voltar. Será que existe uma maneira de tornar esse ingresso algo realmente justo de se pagar?

A San Diego Comic-Con, que é a maior convenção de quadrinhos do mundo, por exemplo, oferece o serviço de creche para crianças de 0 a 12 anos. Apesar do serviço ser pago ($10,00 por hora), crianças até 12 anos não pagam ingresso.

SDCC

Traga as Crianças! A creche da Comic-Con segura sua barra Todos sabemos que os pequenos simplesmente não conseguem sentar por um dia inteiro em uma sessão no Hall H ou passar horas garimpando aquelas longas caixas no Hall de Exposição. Se você tem filhos, não se preocupe: uma Creche Profissional está disponível! KiddieCorp, em seu 29º ano na Comic-Con, está comprometida a providenciar uma experiência confortável, segura e feliz para suas crianças. Eles oferecem atividades apropriadas para cada idade que incluem: artes e artesanatos, jogos em grupo, música e movimento, jogos de tabuleiro, contação de histórias, interpretação e muito mais. KiddieCorp providencia lanches e bebidas, mas pais devem providenciar todas as refeições bem como fraldas, fórmula e uma troca de roupas.

Dá pra argumentar que, apesar de oferecer o serviço há 29 anos, a SDCC existe há 45. Foram necessários 16 anos – o tempo do público cativo começar a se reproduzir e levar suas crianças para a convenção – para pensarem nesse serviço. Mas isso foi na década de 1980, quando a SDCC atraía 300 pessoas. Hoje, ao oferecer um evento nerd de grande porte, o suporte à famílias precisa estar no planejamento. Seja em San Diego, em NY ou no Brasil.

Aqui no Pac Mãe sempre batemos na tecla da importância de compartilhar o amor pela cultura pop com as crianças, e uma das maneiras mais bacanas de se fazer isso é levar as crianças a eventos. Mas como fazer isso, se os eventos parecem não nos querer por lá? Essa discussão é urgente, é importante e, a partir de agora, vai fazer parte de todas as coberturas que fizermos aqui no blog. Não adianta falar de empoderamento feminino, girl power e afastar mães e famílias ao não oferecer meios delas frequentarem os espaços onde isso está sendo discutido. Vamos trabalhar para mudar essa realidade juntos?

Nanda Café

Nanda Café

Feminista que faz ballet e adora cor-de-rosa. Gosta de RPG, fantasia medieval, anime água-com-açúcar e é #teammarvel apesar de Sandman ser da Vertigo. Começou a estudar Quenya, mas como não dava pra fazer isso enquanto comia, desistiu de ser elfa e admitiu para si sua natureza hobitesca.
Nanda Café
  • Thiago Oliveira

    Concordo totalmente! Como vc cobra um ingresso integral e não oferece NADA para um determinado público?? É só pq eles “ocupam muito espaço”??

  • Luciana Fogo

    Já não e fácil em algumas famílias a pressão que a mãe nerd sofre… Eu sei bem, pq no início, as pessoas já não aceitavam muito os “meus gostos esquisitos” e eram contra eu levar minha filha pequena pra eventos. As perguntas por parte dos avós e do pai de se ia ser bom pra ela eram frequentes… ” Vai levar a menina nesses lugares só pra ela ficar sofrendo”? Eu não passei por fase de fraldas nesses eventos, pra mim eram muito longe ainda nessa época, não havia nada local, eu não dirigia e ir de ônibus ficava complicado. Mas sempre senti falta de muitas coisas, como bebedouros, áreas de descanso, alguma atividade voltada pra idade mais jovem. Eu, sinceramente, pagaria pra usar um banheiro limpo (aqueles que tem alguém limpando constante e vc paga de 1 a 2 reais pra entrar), pq com criança, é complicado vc gerir segurar a bolsa, evitar o piso que tem algum liquido suspeito e ajudar a criança a usar o sanitário.
    Minha sugestão (apenas uma delas) para os grandes eventos? Pequenos quiosques espalhados pelo espaço, com algumas cadeiras confortáveis, lixo, um microondas para aquecer alguma mamadeira ou papinha, e uma bancada para trocar fraldas. Diminuiria filas nos banheiros, haveria um lugar “mais privado” para as mães que amamentam, se eles não desejam que elas o façam no meio do público (isso sem falar no conforto, pq no chão é uma tristeza meu povo!) e assim as famílias iriam aos banheiros apenas nos momentos de real necessidade do local. (sério, já vi amigas entrarem no banheiro só pra improvisar um trocador na tampa do vaso, pq consideraram melhor que no chão! Um bebê que não fica em pé, não dá pra trocar de pé, né?)

    • Setsuna Alave

      Se eles querem que a mãe amamente de forma discreta, não devemos dar nosso dinheiro para eles.
      Não controlo quando minha filha pede o tete e não vou sujeitá-la a uma crise de fome por conta dos outros. Vou me sentar no chão em lótus e lembrar para esse povo que se eles não curtem discriminação com o gosto deles, eu não curto discriminação contra a comida da minha filha.
      Aqui em casa, nós somos um pacote. Eu, filha e papai da filha. Tanto que nosso grupo de RPG inclusive entende que sempre vai ter ela junto e é sempre bom cuidar as carteiras (por que o nível de ladinagem do nenê de 2 anos é extremamente alto).

  • Kadu

    Oi,

    Achei o blog por causa da “polêmica” do mrg, mas não é esse o assunto que queria comentar.

    Não sou leitor frequente de blogs, principalmente sobre “feminismo”, mas as vezes “esbarro” acidentalmente em algum texto que passa o ponto de vista das mulheres sobre algum tema que eu aprecio.

    A questão que quero levantar é que sempre vejo as mulheres falando da amamentação, do quanto é vital para o bebê, de que as mulheres são seres superiores por fabricar o liquido mas nutritivo do mundo e essas coisas, não quero confrontar esses argumentos (até porquê são todos comprovados), MAS e as que não conseguiram amamentar? São menores? Não tem super poderes?
    Acho que as vezes a militância do leite materno esquece das outras mães, que por diversos motivos, alimenta os seus filhos com leite em pó (fórmula).

    Gostei de algumas opiniões do blog e gostaria de ver algo neste tema.

    PS1: vi poucos textos, se já tiver algo sobre é só me indicar que eu leio.
    PS2: sou a favor do aleitamento materno.

    • Oi Kadu! Obrigada pelo comentário educado e interessado! Bom saber que dessa “polêmica” veio algo legal. Só queria começar te corrigindo, nosso blog não é sobre feminismo, é um blog feminista! O blog é sobre maternidade e nerdices, empoderamento feminino e infantil através da cultura pop, mas não temos a intenção de ser referência em feminismo, tá? Hehehe

      Sobre essa questão da amamentação, é realmente complicado, porque um discurso parece diminuir o outro, né? A questão é que amamentar é uma luta. Física e mental. Tem todo um sistema que dificulta a amamentação: os hospitais que dão fórmula para os bebês recém-nascido, os peitos que ficam extremamente machucados, o pediatra que receita leite em pó para o bebê que “não está ganhando peso suficiente”… Vencer todo esse sistema não torna ninguém melhor do que ninguém, mas certamente é empoderador para quem consegue. Veja, eu me sentir bem com algo não significa que você tenha que se sentir pior por não ser igual a mim, concorda?

      Aqui falamos um pouquinho sobre as dificuldades da amamentação e por que conseguir amamentar nos empodera: http://pacmae.com.br/blog-da-serie-sou-nerd-alternativa-e-super-a-favor-da-amamentacao/

      Essa é uma discussão bem frequente em grupos de maternidade – que foi onde surgiu este blog – o discurso de “eu não sou menos mãe por que…”. Ele geralmente não parte de um ataque, mas surge como uma defesa e foi realmente interessante ver você colocando este ponto aqui porque foi uma curiosidade e não uma justificativa!

      Aqui no blog nós acreditamos que a maior parte das mães que nos lê faz o melhor que pode. Se não fosse assim, ela não estaria em um blog sobre maternidade, né? Enfim, nós aqui somos adeptas da maternagem radical no meio-termo, como falamos aqui: http://pacmae.com.br/meu-estilo-de-maternar-radicalmente-no-meio-termo/

      Vamos procurar uma mãe que não pôde amamentar pra escrever um texto sobre o assunto, porque nunca havíamos parado pra pensar que o nosso empoderamento podia acabar diminuindo outra pessoa! (:

      • Kadu

        Muito bom ver a resposta de vocês, ainda bem que me fiz entender da maneira que eu pretendia (essas internets são complicadas, as vezes escrevo uma coisa e parece que falei outra),
        Me desculpe, eu realmente não soube me expressar corretamente, mas já aprendi. 🙂
        Vou ficar de olho no twitter de vcs. Fico feliz em ver que o meu comentário poe gerar algum conteúdo interessante. Vou ficar de olho no blog.

  • Sabe uma coisa que me lembrei? Meu filho tinha alergia a leite de vaca. Eu amamentava e não podia comer nada que tivesse leite na composição. Mas muitos eventos proibiam entrar com comida, e não tinham nenhuma opção livre de leite e nenhum interesse em entender a situação. Eu acabava não indo para não ter que ficar o dia todo sem comer.

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