Dia Mundial de Conscientização sobre o Autismo | Por que não comigo?

Por Kelly Cristina Nascimento

Praticamente todas as vezes que estou conversando sobre autismo com um estranho, ou alguém que não faz parte do meu ciclo mais íntimo, a mesma pergunta (ou variações dela) sempre surge: “Você não gostaria que seu filho fosse normal?”

Confesso que por muito tempo me perguntei “Por que comigo?” Eu fiz todos os exames na gravidez, tomei todas as vitaminas, me alimentei bem, dormi direitinho. Perdi noites e noites tentando achar uma explicação racional. Como muitas mães, a primeira explicação que encontrei foi a teoria psicogênica do autismo, a coisa mais cruel que já li na minha vida, onde a culpa do autismo recai sobre a mãe por não amar seu filho devidamente. Apesar de carecer completamente de qualquer base científica, muitas pessoas ainda insistem em defendê-la (oi psicanálise!) e culpabilizar a mãe por todas as mazelas do mundo.

Conversando há algum tempo atrás com um casal de amigos, também pais de um garotinho lindo e autista, surgiu uma nova pergunta: “Por que não comigo?” Analisando friamente, a gravidez é uma roleta russa dentro de um quarto escuro!!! A gestação pode ou não chegar ao final. Podemos esperar uma menina ou um menino. Uma criança neurotípica ou neuroatípica. Uma criança que pode escolher ser do time do Homem de Ferro e não do Capitão América. Talvez se desde o resultado positivo do Beta HCG nos perguntássemos “por que não comigo?” a dor e o luto seriam infinitamente menores, ao termos que enterrar o “bebê perfeito”, gerado no plano das ideias e que carregava todos nossos sonhos e planos, como quais viagens faríamos juntos, qual livro de Júlio Verne ele iria ler primeiro, ou se ele gostaria mais de Marvel ou de DC e no lugar recebermos o “bebê real” uma caixa surpresa com infinitas possibilidades (e infelizmente no primeiro momento nenhuma dessas possibilidades são felizes), que precisa um milhão de vezes mais do nosso amor e dedicação.

O autismo é distúrbio neurológico incurável, com diferentes níveis de comprometimentos, e por isso recebe o nome de espectro autista. não existem dois autistas iguais, mas todos apresentam em maior ou menor grau, comprometimento em três áreas especifícas: interação social, dificuldade na comunicação e comportamental. Uma estimativa feita nos EUA em 2010 mostrou que 1 em cada 68 crianças são diagnosticadas como autistas. Qualquer alteração ou suspeita deve ser avaliada imediatamente, por uma equipe multidisciplinar e com experiência em autismo, infelizmente a grande maioria dos pediatras no Brasil não está apta a fazer um diagnóstico precoce e com isso 90% dos pacientes não recebem uma intervenção precoce (antes dos 3 anos) que otimizaria muito o prognóstico.

O Dudu se desenvolveu normalmente até por volta de 1 ano e 8 meses, quando do nada regrediu e perdeu algumas habilidades adquiridas. O autismo dele é de um tipo mais raro chamado reversivo, não existe uma explicação para isso, alguns médicos dizem que na faixa etária entre 1-2 anos o cérebro passa por um processo de auto-limpeza, chamado Poda Neuronal, e crianças com propensão genética ao autismo podem manifestá-lo (lembrando/informando que quando falo propensão genética não estamos falando de genética básica que aprendemos na escola, de hereditariedade, heterozigóticos, homozigóticos mas sim de epigenética e crossing over, um lance muito mais complexo).

Então respondendo a pergunta que sempre me é feita: Não, eu não gostaria que meu filho fosse ‘normal’, ‘neurotípico’. Nunca conheci um Eduardo ‘normal’, ‘neurotípico’. Talvez o Edu neurotípico não fosse o melhor irmão do mundo, que divide tudo com a Valentina, que dança toda a parte da Anna em Let It Go no Just Dance, que adora o Batman, além do garoto mais simpático do nosso prédio e região adjacente. O Eduardo autista me fez uma pessoa infinitamente melhor em todos os aspectos.

12279123_1069984219723718_4325739069870174581_n Do Sonhar. Nerd desde que se entende por gente. Virginiana. Mãe do
Eduardo e da Valentina. Leitora voraz. RPGista há 18 anos. Ex-viciada
em Pinball. Temperamental. Coleciona Hq. Escreve no MinasNerds. Adora
Neil Gaiman.

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