Blog | Psicoterapeuta questiona decisão da Target de acabar com setores divididos por gênero

No início do mês, a rede de supermercado Target anunciou que está abolindo a utilização de setores divididos por gênero em suas lojas. Em junho desse ano, uma mãe ganhou atenção ao demonstrar o quão prejudicial essa divisão que era feita pela Target poderia ser. A notícia poderia terminar aqui, com um final feliz, porém, essa semana o psicoterapeuta Tom Kersting falou na Fox News que está preocupado com as crianças, que não saberão mais qual seu gênero sem essas divisões de setores em lojas. Veja o video aqui (em inglês)

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printscreen do vídeo, via RawStory

Muitas pessoas estão reagindo à favor do que Tom falou e se manifestando contra essa mudança na sinalização das lojas da Target. Um outro argumento contra que estão usando é a “sensação” de facilidade dada pela divisão de gêneros nos setores de brinquedo, por exemplo. As pessoas não gostam de mudanças e temem não saber se estão comprando o brinquedo “correto” para o gênero das suas crianças. As pessoas querem economizar tempo, não querem precisar nem raciocinar sobre o que estão comprando para as suas crianças.

Suzanne Venker, que escreve para uma coluna do site da Fox News, também criticou a decisão da Target. Em seu texto, ela disse:

A diferença entre meninos e meninas é tão dolorosamente evidente para qualquer pai que se imagina se os gestores da Target tem seus próprios filhos. Se eles tem, ignoram o que eles podem ver por eles mesmos – sem mencionar a montanha de evidências que provam que a biologia possui um papel importante nas preferência de meninos e meninas.

 

Ao longo do texto ela defende alguns desses argumentos que citei. Mas será tão problemático assim não separar brinquedos entre “de menino” e “de menina”? As crianças realmente não vão saber mais a que gênero pertencem porque as lojas não usam placas com essa sinalização? Será prejudicial se uma menina quiser ganhar um kit de cientista, ou um lego de nave espacial, que estaria à princípio na sessão “para meninos”? Ou um menino que queira ganhar um brinquedo de cozinhar? E o papel da biologia que essa autora se refere, é tão exato assim? Sei que experiências pessoais são o nível mais baixo de evidências científicas mas, considerando o que ela afirma, não consigo compreender minhas preferências da infância, onde brincava de bola, carrinho, videogame, tão cheia de preferências “de meninos”.

Aqui no Pac Mãe já foi discutido esse assunto várias vezes, como quando falamos de produtos desnecessariamente estereotipados, quando houve o fim da divisão de gênero da loja Disney Store UK à pedido de uma menina, a menina que explicou estereótipos de gênero para a Lego, o fim parcial da divisão de gêneros da loja Amazon.com, a reflexão sobre o comportamento esperado pela sociedade para meninos e meninas, mas é sempre válido voltar a discutir e desconstruir a visão que a sociedade tem sobre os nossos futuros homens e mulheres. Afinal, uma mulher cientista e um homem que saiba cozinhar não trazem absolutamente nada de negativo para a sociedade, muito pelo contrário! Então por que limitar as brincadeiras das crianças? Por que limitar, determinando os papéis que eles podem e que não podem representar? A sociedade é quem mais perde com isso, suprimindo potenciais talentos em campos diversos por preconceitos que já poderiam não existir mais.

Outra reação à decisão da Target são de pessoas, que como nós, consideram que dividir produtos por gênero é desnecessário. Dois casos que viralizaram foram o de Brandem Lane Mann, que montou um album no facebook  demonstrando as “confusões” da sua família quanto aos produtos sem sinalização de gênero no supermercado e o de Mike Melgaard que, antecipando a chuva de críticas que a Target receberia pela sua decisão, decidiu criar um perfil falso e a responder os clientes da Target, também através do facebook. Algumas respostas dadas pelo perfil falso são até legais, outras nem tanto, mas as postagens servem para mostrar como a sociedade ainda está presa a conceitos ultrapassados. “Se fosse no Brasil” seria igualzinho está sendo por lá.

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“Vocês realmente não vão mais separar os brinquedos de meninos e meninas?” “Nikki, nós te convidamos para vir separar os brinquedos você mesma. Nós apenas não podemos mais continuar fazendo isso pessoalmente. É muito trabalho.” Via Mike Melgaard

É um assunto que está em alta nos Estados Unidos, como o próprio psicoterapeuta do vídeo comentou. Várias mídias que tem sempre discutido a questão de gênero na indústria também comentaram o caso e apoiaram a decisão da Target, como o Mommyish, o Heroic Girls e o A Might Girl, que criou um texto bem fundamentado sobre o porquê apoiar essa causa.

Via Heroic Girl

“Se você não sabe dizer se um brinquedo é para menino ou para menina sem olhar para uma placa, talvez não tenha uma diferença, para começar” (via Heroic Girls)

A Target está de parabéns e espero que mais empresas revejam sua postura com esse bom exemplo!

Daniela Bandeira

Daniela Bandeira

Mãe do Lucas (5), amante da cultura japonesa, literatura, cinema, animações, séries, games, música e tudo que envolve Disney. Formada em Língua e Literatura Japonesa, porém não atuante na área. Tem a fotografia, a culinária e a costura como hobbies e sonha dar a volta ao mundo.
Daniela Bandeira

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