Blog | Sobre o livro infantil de piadas misóginas

Estou eu aqui, no mundo maravilhoso do Festival Internacional de Quadrinhos de BH, quando postam algo que me parece meio estranho na comunidade do Pac Mãe. Pouco depois, o Twitter não fala em outra coisa. Nem a minha timeline do Facebook.

Estou falando do livro Piadas Sobre Meninas (Para Meninos Lerem), publicado em 2009 pela V&R Editora. O livro faz parte da série Risadinhas, que traz outros títulos como Piadas de EscolaPiadas Sobre Papai e Mamãe, e o suposto contraparte Piadas Sobre Meninos (Para Meninas Lerem).

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Eu vou começar o post informando que a editora se desculpou pela publicação do livro. Em uma nota publicada em sua fanpage, eles informaram que o livro parou de ser publicado em 2010 e se desculparam pelos livros terem sido publicados no passado.

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É um excelente pedido de desculpas. Ao contrário da maioria deles, a editora não tentou se eximir de sua culpa alegando ser “só um livro de piadas” ou dizendo que as pessoas não haviam entendido o humor da publicação – até porque ele é inexistente. Com isso reconhecido, eu digo: não é o suficiente.

Jessie_(Toy_Story)Vamos começar sobre o primeiro problema do livro, que é a genderização. Livros – e piadas, principalmente as infantis – são universais. (E elas precisam geralmente de um elemento apenas: peidos) Quando você separa o mundo literalmente entre cor-de-rosa e azul, você informa que as crianças possuem alguma diferença inerente ao gênero e que define meninas como bobinhas fúteis que gostam de bonecas e meninos como imaturos que brincam de cowboy, como se meninos não pudessem brincar de bonecas e meninas não pudessem brincar de cowboy (gente, em 2009 a Jessie já exisitia). A gente já falou aqui sobre essa tremenda bobagem que é segregar produtos infantis por gênero (ou qualquer produto, diga-se de passagem), tanto que muitas marcas nacionais e internacionais estão parando de fazê-lo.

Mas a capa azul é o menor dos problemas do livro. As piadas é que são de doer.

As piadas são basicamente aquelas velhas piadas de loira repaginadas para abranger todas as mulheres, olha que inclusivas! O tema super original é repetido página após página, reforçando para os meninos que as lêem e reproduzem que meninas são burras e fúteis. O conteúdo é tão fraco que eu sequer vou mencionar o autor, ou melhor, curador desse conteúdo que também poderia ser intitulado “Misoginia para crianças”.

Por que não é só uma piada?

Pesquisas comprovam que o número de mulheres nas carreiras de ciência e tecnologia é consideravalmente menor do que o de homens. Essas carreiras, por serem consideradas mais difíceis e exigirem inteligência e esforço maior, tendem a oferecer salários mais elevados, o que também acaba por contribuir com o abismo salarial entre homens e mulheres. Além de lidarem com a falta de estímulo das próprias escolas para seguirem essas carreiras, as meninas e mulheres ainda têm que lidar com colegas homens que foram formados à base dessas piadinhas, o que acaba fazendo com que muitas delas desistam no meio do caminho.

Esse fenômeno se repete nos jogos online e nos e-sports, por exemplo, e em várias outras facetas do dia-a-dia de uma mulher. Desde o mito de que mulheres dirigem pior do que homens até o machismo disfarçado de gentileza chamado de cavalheirismo, as capacidades das mulheres são continuamente questionadas e colocadas à prova (olá, carteirinha nerd).

Mas eles já pediram desculpas!

Sim, mas o livro ainda está à venda em diversos sites e lojas físicas. Não houve nenhum movimento da editora no sentido de retirá-lo das prateleiras. E tem mais: a V&R é dententora dos direitos da mina de ouro que é a série Diário de Um Banana, cujo conteúdo com carinha de inofensivo também perpetua esses estereótipos de gênero e outros valores não tão legais, mas além de não pensar em interferir na autonomia de publicações, Diário de um Banana é indicado para crianças mais velhas e eu acredito que cada família é responsável por conhecer e discutir o conteúdo das mídias apresentadas para os pequenos.

Mas enquanto os meninos têm Diário de um Banana marketado para eles, as meninas têm isso:

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Se o personagem-palito da série Diário é neutro e faz com que a maior parte das crianças se identifiquem – justamente por ele ser um perdedor – as meninas, para serem vencedoras, têm que ser loiras, lindas, alegres e vestir cor-de-rosa.

Nada diz explicitamente que um é para meninas e o outro para meninos, exceto a tipografia, paleta de cores e o fato de um deles só ter meninas e o outro só ter personagens masculinos na capa.

Eu… nem sei lidar. O personagem tudo bem, mas a cor azul pra menina já é avacalhação?

Enfim, mesmo tendo acertado no pedido de desculpas, fica claro que a V&R tem um longo caminho a percorrer, tanto no marketing quanto na linha editorial. Mas antes de mais nada: por favor, tirem esse livro de piadas de circulação.

Nanda Café

Nanda Café

Feminista que faz ballet e adora cor-de-rosa. Gosta de RPG, fantasia medieval, anime água-com-açúcar e é #teammarvel apesar de Sandman ser da Vertigo. Começou a estudar Quenya, mas como não dava pra fazer isso enquanto comia, desistiu de ser elfa e admitiu para si sua natureza hobitesca.
Nanda Café

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  • Axel Gaita de Foley

    Que vacilo.

  • Waleska de Lemos

    Excelente post! Só não entendi o diário de um banana é para mais velhos? Acho que a média de leitura é entre 8 e 9 anos de idade. Pelo menos na turma da minha filha foi.

  • Vitor Urubatan

    Difícil de imaginar que deixaram publicar esse troço.
    Mesmo em 2009…