Blog | Tudo bem não ser genial

Por Gabi Franco

Na semana passada vivi uma experiência interessante com minha filha de 7 anos, Valentina. Experiência dolorida, enriquecedora, seminal. Mas bem interessante.

Fomos convidadas para um aniversário em um karaokê. Até aí, Valentina não fazia a mínima ideia do que era um karaokê e ficou toda curiosa e elétrica. Expliquei que era um lugar bem legal, onde a gente ia poder cantar nossas músicas preferidas em um palco e fingir que éramos estrelas do rock.

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Ela soltou um grito de entusiasmo: – “Ai! Que legal! Vou cantar Kate Perry! E Frozen! E “Seu cabelo eletrizado!” (minha filha gosta de Blitz, gente, e ela estava falando de “Weekend com Você”, famosa música da banda) – Fiquei tão feliz com sua excitação! Valentina é uma menina ligada nos 220v e é MUITO musical. Canta o dia inteiro, inventa suas próprias músicas, faz musicais estilo Disney a cada sessão de brincadeiras. Achei perfeito ela visitar um karaokê. Iria ser super divertido e bom pra ela que, apesar de ser super esperta e falante, é bem tímida no palco e com quem não conhece.

Chegou o grande dia e fomos à tão esperada festa. Ela entrou, ressabiada, observou e sentou-se à mesa, comigo. Pediu um guaraná para tirar a secura da garganta. Seus grandes olhos redondos e azuis captavam o mínimo movimento ao redor e registravam todos os detalhes do local: a decoração de gosto suspeito, as luzes coloridas, as fotos de animais que serviam de background para as letras das músicas no telão, as roupas e gestos das pessoas, tudo. Tudo era novo e mágico. Suas perninhas balançavam para frente e para trás, nervosas sob a mesa. Seria um passo importante para ela. Eu podia sentir.

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Não demorou muito e as crianças começaram a querer cantar. Uma e outra foram, cantaram com os pais. Incrível, sabiam letras inteiras de sertanejos e músicas pop, achei um fenômeno interessante.

Valentina, entusiasmada, pediu para que eu reservasse “Let it go” (Deus, lá vamos nós de novo, não sei meu CPF de cor até hoje, mas sei a letra INTEIRA de Let it go, por simples OSMOSE) para cantarmos e eu comecei a reparar na apresentação das crianças no palco e vi que, em um dado momento a coisa tinha começado a ficar realmente bizarra.

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As crianças se apresentavam como se estivessem em um programa de auditório. Com danças coreografadas, algumas bastante sexualizadas, sem falar na escolha das músicas: funks e forrós dúbios, com letras nada infantis.

Comecei a ficar desconfortável e reparei que Valentina também. Começou a franzir o cenho e a murchar na cadeira, esperando sua vez de cantar Frozen, mas sem a empolgação de antes.

As coreografias e o gestual eram realmente sincronizados e caricatos. Cheguei a perguntar a uma das mães se seu filho havia ensaiado especialmente para a ocasião:

-Não, eu ensaio com ele em casa, menina! Ele quer ser cantor sertanejo quando crescer! Tomara que dê certo!

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Esbocei um sorriso, tentei achar aquilo algo natural, mas não consegui. Havia algo estranho ali. Não tenho objeção alguma, não me entendam mal, por favor, muito pelo contrário, sou totalmente a favor de pais investirem e desenvolverem os talentos dos filhos. Ao menor sinal de vontade da criança em realmente trabalhar um talento-nato, seja ele qual for: dançar, cantar, desenhar, esportes, tocar instrumentos, escrever. Apoio completamente o investimento.

Mas vejam bem: é importante que a criança mostre interesse e se DIVIRTA com o aprendizado. Eu fui uma dessas crianças que aprendeu a tocar um instrumento muito cedo. Aos 4 anos meus dedinhos já estavam sobre as teclas de marfim de um piano. E eu não fazia a mínima ideia do porquê. Era muito nova. Naquele tempo não havia musicalização infantil, profissionais especializados para ensinar a música de forma lúdica à crianças na idade maternal e, deu-se que eu larguei o piano, obviamente, e achei o instrumento UM PORRE, por muito tempo em minha vida.

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Mais tarde me encontrei em outro aspecto na música, mas foi somente na adolescência, quando soube exatamente o que queria. Isso deve ser levado em conta ao incentivar uma criança no mundo das artes. E não me parecia que era o que estava acontecendo naquele exato momento. O que eu via ali eram crianças emulando artistas populares da grande mídia, não de um modo descontraído e divertido, mas sério, fanático, semi-profissional, como se participassem de um concurso. Me senti no programa do Raul Gil.

Uma menina da idade da Valentina foi se apresentar. Subiu no palco com a empáfia de uma Madonna mirim. Agarrava o microfone com força, fazia caras e bocas e tinha cacoetes hilários. Performava e arriscava uma coreografia sensual, serpenteando o corpo e jogando o cabelo, a lá Joelma da Banda Calypso e cantava um funk da Anita, de cor e salteado.

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Ao final da apresentação, todos no local aplaudiram de pé, urrando e gritando, em uníssono, o nome da menina. O técnico que controlava as músicas rasgou-lhe altos elogios. Foi um frisson. Ela havia cativado o público. Desceu do palco confiante e correu para os braços da mãe que a abraçou como em um filme de Hollywood. Todos foram elogiá-la e bem, acho que ela havia fechado o karaokê por ora.

Olhei para minha filha sorrindo para ver se ela também havia gostado do show e percebi que havia algo errado. Ela começou a chorar e eu tive que levá-la ao banheiro. Estava muito nervosa e disse que queria ir embora daquele lugar. Disse que não estava mais achando legal o aniversário e que não queria mais cantar.

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Na hora eu entendi o que havia acontecido: Ela estava insegura. Havia se comparado com aquelas crianças e viu que não iria conseguir chegar ao nível de apresentação delas.

Começou a soluçar, dizendo que só sabia cantar Frozen, e Palavra-Cantada e Toquinho e Vinícius, e Blitz (ela sabe outras músicas, mas enfim, achou que seu conhecimento era restrito para o local e ocasião) e que lá não tinha as músicas que ela sabia, ninguém iria gostar da apresentação dela porque ela não sabia nenhuma música que todo mundo gostava! E ela tinha a voz feia, todo mundo iria rir dela. “Eu tenho voz de criança!” – Chorava.

Meu coração ficou bem miúdo por minha filha. Pela primeira vez ela se sentiu deslocada. Menor. Incapaz. Teve medo do ridículo. Sentiu-se um peixe fora d’água e forçada a ser alguém que não era, a fazer algo que não estava acostumada a fazer, a não ser natural. Só para agradar a maioria.

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Pela primeira vez ela sentiu o fascínio que é ter dezenas de pessoas te aplaudindo de pé, aprovando o que você faz, te admirando, te amando, te dizendo que você merece glória e reconhecimento, oferecendo a você PODER.

Uma criança de 7 anos não tem repertório emocional para lidar com esse tipo de poder. Nem adultos tem, quanto mais crianças. Me senti mal por ela. E ela precisava enfrentar isso: não somos bons em tudo. E mais, NÃO PRECISAMOS ser bons em tudo.

Uma tarde que era para ser divertida, descompromissada, leve, brincalhona, virou um pesadelo, um episódio que cobrou de uma criança de 7 anos um comportamento que não era comum à sua idade, onde ela está mais preocupadas em brincar do que em ser admirada pelo público.

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Vejam bem, Valentina não tem problemas de auto-estima, ao menos não aparentes. E muito menos faz escândalos em público. Conheço minha filha. Outras crianças que também não eram do “showbizz” já haviam se dispersado, ido embora, ido brincar em outro local, não sei. Mas aquele foi um assunto sério para minha menina. Porque ela realmente adora cantar e estava empolgada com a ideia de poder brincar de ser cantora naquela tarde. Acontece que ninguém estava brincando ali. Infelizmente.

Talvez a menininha que se apresentou venha a ser uma grande performer um dia e tomara que seja e tenha muito sucesso, novamente o problema não estava nela. O que me incomodou foi justamente que não se tratava de um caso isolado. A grande maioria das crianças ali estava com um espírito de “competição de talento-mirim” e isso me fez pensar.

Me fez pensar em valores e desejos dos pais projetados nos filhos. Me fez pensar em noções de “fama” e “prestigio” e até mesmo de talento e sucesso que passamos para nossos filhos. Me fez pensar em padrões, parâmetros e convenções.

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O que é talento? Um dó de peito, trêmulo, capaz de estourar as veias do pescoço de um cantor sertanejo é considerado talento, mas uma voz sussurrante e profunda mas sem tanta potência, capaz de despertar sensações diferentes nos ouvintes, não?

O que é sucesso? Você ser famoso e milionário é considerado ter sucesso, mas ser um profissional comum que ajuda milhares de pessoas todos os dias, paga impostos, faz a máquina do mercado girar e vive em paz consigo mesmo, não? Será que transmitimos esses nuances para nossos filhos? Será que notamos essas diferenças em nossas próprias vidas?

E me fez pensar também que talvez eu estivesse bem errada em criá-la em uma bolha de referências musicais que não eram populares ou que destoavam do que os amiguinhos ouviam, enfim.

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Talvez eu devesse introduzir algumas músicas tomando certo cuidado com o conteúdo delas… ou não. Fui criada nos anos 80/90 vendo a Xuxa apresentar programa infantil de mini-saia mostrando as calcinhas e ensinando as crianças a cantar “Don’t Wanna a Short Dick Man” e não virei uma pervertida desequilibrada Ao menos não patologicamente rs… Não sei, de verdade.

O que eu sei é que nessa ânsia de competição e de sermos perfeitos e incríveis em tudo podemos estar colocando em nossas crianças uma carga maior do que elas estão preparadas para carregar. E isso é muito triste.

Acho belo, e não vergonhoso, conhecermos nossas limitações. Mas não sem antes testá-las. Mas sim, reconhecermos que não temos certos talentos, mas possuímos outros tantos que não aqueles que nos exigem e muitos que ainda serão descobertos e desenvolvidos longo da vida, faz parte de nossa identidade como indivíduos. E seu filho precisa entender isso.

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Meu desejo é que nossos filhos reconheçam e descubram INÚMEROS talentos, mas que tudo isso aconteça sem cobrança. A cobrança deixa tudo pesado, a cobrança tira toda a poesia, a cobrança sufoca, mata e tira nossa liberdade e restringe nossas possibilidades. E, particularmente, acho que isso não deve acontecer com ser humano algum. Quanto mais a uma criança.

A vida já vai cobrar muito de seu filho, não dobre esse peso com atribuições fora de hora. Ser talentoso é bom, mas com grandes poderes vem grandes responsabilidades já dizia o Tio Ben e todo esse pacote deve ser progressivo à maturidade da criança. Agradar a si deve ser sempre o objetivo maior.

Esse episódio me lembrou um trecho de meu livro preferido:

“Procuramos sempre o peso das responsabilidades, quando o que na verdade almejamos é a leveza da liberdade.” – Milan Kundera (A Insustentável Leveza do Ser)

Leveza, sempre.

11948162_10153045044212314_1453074058_nGabi Franco é jornalista especializada em cultura pop, colaboradora das revistas Mundo dos Super-Heróis, Mundo Nerd, e dos sites: Judão e Popground. Criadora do Minas Nerds e mãe da Valentina, 7 anos.

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