Carrossel| Por menos bullying e por mais filmes brasileiros de acampamento

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Nos últimos dias aconteceram uma série de eventos que me fizeram revisitar minha infância, mais especificamente o ano de 1991, época em que cursei a minha terceira série do ensino fundamental.

Voltei a trabalhar, e me foi atribuída uma sala em que os alunos têm a mesma idade que eu tinha na terceira série. Na mesma hora me lembrei da minha professora da época, que se chamava Karen. Ela era ótima, engraçada e moderninha, com seus cabelos curtinhos e vermelhos. Fiquei pensando no quanto eu gostava daquela professora e em que tipo de memórias eu deixaria para as crianças dessa sala que me espera.

Na mesma semana fui adicionada a um grupo da minha antiga escola em uma rede social e alguém postou uma foto da turminha da 3a série. Fiquei bastante saudosista! A terceira coincidência foi o “Pac Chamado” para conferir uma pré-estreia para convidados de “Carrossel – O Filme”. Novamente me lembrei daquela época e dos meus motivos para assistir a novelinha mexicana na qual o filme foi baseado.

A menina Joyce que assistia a novela mexicana Carrossel

Confesso que eu não gostava muito de Carrossel. Quando criança eu assistia para ter o que conversar com as colegas de classe. Sim, teve uma época da minha vida que eu tentei ser igual, tentei gostar e vestir as mesmas coisas para ser aceita. A verdade é que por mais que eu me esforçasse sempre fui do time dos “esquisitões”.

Minha mãe sempre tentou boicotar o “Chaves”, “Chapolim” e “Trapalhões” em casa, falava que eram “frita cérebros”, mas como ela trabalhava o dia todo eu e minha irmã assistíamos “escondido”. Ela também sempre falou muito mal de toda e qualquer novela, mas falava mais mal ainda das mexicanas, das quais minha avó sempre foi fã.

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Elenco original da novela mexicana Carrossel, transmitida no Brasil pelo SBT entre 20 de maio de 1991 e 21 de abril de 1992.

Acontece que a escola em que eu estudava não era nada acessível, por isso uma colega de classe que usava cadeira de rodas não podia sair da sala nos recreios. Ela era uma menina muito legal, divertida e inteligente e por isso eu e outros colegas de classe sempre passávamos o recreio com ela na sala. Certamente, aqueles foram os melhores recreios do meu ensino fundamental, mas adivinha sobre o que todo mundo gostava de conversar? Exatamente, a novela Carrossel.

Apesar de ser a favorita de meus colegas, a novela me incomodava porque eu sempre odiei injustiças e ficava muito chateada quando via o que acontecia com o personagem Cirilo, frequentemente humilhado por ter uma origem humilde e ser apaixonado pela “ricaça” Maria Joaquina. Morria de ódio dela e chegava a chorar!

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Maria Joaquina (Ludwika Paleta) e Cirilo (Pedro Javier Viveros) na versão original de Carrossel, gravada em 1989.

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Maria Joaquina (Larissa Manoela) e Cirilo (Jean Paulo Campos) na versão brasileira de Carrossel, produzida a partir de 2012.

Basicamente foi por isso que eu não assisti nenhuma das reprises e nem me empolguei para ver a nova versão brasileira da novela, feita pelo SBT. Fui à pré-estréia de Carrossel – o filme, portanto, sem saber muito o que esperar.

A primeira coisa que gostei dessa história toda foi o evento em si, todo preparado para receber mães e filhos, além do carinho e simpatia das pessoas. Achei genial a ideia de se fazer filmes nacionais familiares que fogem da marca Globo. A produção de filmes infantis nacionais é bem pequena, e começar nesse segmento com uma franquia consolidada é sucesso certeiro e me dá a esperança de ver mais filmes infantis produzidos por aqui.

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Pré-estreia para convidados na salinha fofa da Paris Filmes – Foto Sam Shiraishi

Não sou especialista nem cineasta mas posso dizer como espectadora que fiquei bem encantada com as cores, as locações, com a fotografia e com os efeitos especiais. O filme foi feito com muito capricho. Gostei muito também dos vilões, que apesar de caricatos, foram bem engraçados! Mas sou bem suspeita, pois adoro o Paulo Miklos como ator e me surpreendi também com o Oscar Filho, ele ficou ótimo de Gonzalito. A trilha sonora também ganhou meu coração e saí de lá cantando “Panapaná, Panapaná, Panapaná, Panapaná, Hey! Hey! Hey!”

O filme conta a aventura de férias da turma da Escola Mundial no acampamento Panapaná, que pertence ao avô da personagem Alicia (Fernanda Concon). Bem legal ver um filme nacional de acampamento, aliás! Lá eles participam de uma gincana organizada pelo senhor Campos (Orival Pessini), que faz o possível para que as crianças se divirtam.

Entretanto, a chegada de González (Paulo Miklos) agita o local, já que ele representa uma incorporadora que pretende comprar o terreno do acampamento para transformá-lo em uma fábrica poluidora. Para atingir seu objetivo, González e seu fiel parceiro Gonzalito (Oscar Filho) usam de todos os artifícios possíveis, inclusive sabotar o acampamento e difamar seu Campos.

Gostei mesmo da história do meio para o fim do filme, quando todo mundo se uniu para resolver o problemão que os vilões causaram (o começo da história é meio solto e as piadas apelativas são difíceis de engolir). Não sei se é falta de apego aos novos personagens ou se eu que esperava uma repaginada nessa questão de piadas subentendidas contra gordinhos, japoneses e ao amor incondicional do Cirilo a Maria Joaquina (que continua insuportável ao quadrado tirando mil e um selfies). Podem falar que eu sou chata e que esse negócio de politicamente correto também, mas gosto de pensar que existe o politicamente saudável, como disse Washington Olivetto

“Você tem de um lado o cara politicamente correto, que é cerceador e educadinho. Do outro, o incorreto, que é mal educado e pseudo-divertido. Temos que buscar o que é politicamente saudável, que respeita a inteligência, mas com irreverência e bom humor”. (Washington Olivetto)

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Para muitos pode ter passado batido, mas eu achei frases como “Abre o olho, japonês!”, piadas com personagens gordos, entre outras coisas, bem desnecessárias. O próprio filme no final mostrou que pode ser legal sem ter que apelar a esse tipo de humor. Talvez esse tipo de “zoeira” fizesse parte da novela e da própria construção das personagens, mas como eu já disse, nem quando eu era criança eu curtia esse tipo de coisa.

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Eu também não gosto muito desse clichê de diretora de Escola quase general e da faxineira da escola falar errado e com sotaque nordestino, acho que esse tipo de coisa reforça estereótipos. Outra coisa que me deixou frustrada  também foi a falta da Professora Helena, que segundo explicaram estava em licença maternidade.  Carrossel é professora Helena, professora Helena é Carrossel! (A atriz que interpretou a professora Helena na versão brasileira, Rosanne Mulholland, não participou do filme por conta do contrato com a Rede Globo)

Ranking Pac Mãe:

Classificação Indicativa: Livre
Classificação Pac Mãe: A Alice (aos 2) se divertiu, mas é que ela ama filmes. Acho que crianças fãs de Carrossel irão amar e as que não conhecem nada podem curtir também.
Opinião: Me empolguei mais com a ideia de ver uma produção nacional do que com o filme em si, ver a dedicação do pessoal da equipe me deu esperança de ver mais trabalhos brasileiros feitos com tanto capricho.  O filme possui muitos clichês de filmes infantis, como na parte em que prendem o vilão, no melhor estilo “Esqueceram de Mim”, o que foi inusitado foi o próprio filme fazer piada sobre isso, achei genial essa parte. Dá para se divertir, mas acho importante problematizar algumas questões referentes a bullying  e estereótipos  com as crianças maiores.

“Será que tudo isso é na verdade
Uma fábrica de saudades?
Vou lembrar pra sempre dessa turma
Dessas mais de mil aventuras!

Panapaná, Panapaná
Panapaná, Panapaná
Panapaná, Panapaná
Hey! Hey! Hey!”

Parceira: Amazon

Joyce Recco

Sou uma professora feliz da Rede Pública, mãe da Alice (3) e do Arthur (3 meses). Adoro fazer listas, organizar e criar coisas. Sou apaixonada por literatura infantil, culinária, DIY e fotografia. Curto ficção Científica, gosto que aprendi com a minha Pac Mãe. Adoro Star Wars, Star Trek e fico muito chateada com a competição que o pessoal faz entre as duas franquias, coração de mãe é grande e tem espaço para todo mundo!

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