Cinema | Cinderella: Não dá pra acertar todas, né Disney

Confesso que fui assistir a Cinderella por motivos estritamente profissionais. Nunca gostei da história dela, nem do desenho de 1950 e muito menos de tudo que a Cinderella representa: a apatia, subserviência e o felizes para sempre. Mas como a esperança é a última que morre e Malévola foi aquele arraso de filme, não custava nada dar uma chance para uma das princesas mais detestáveis da Disney (a disputa com a Aurora e a Branca de Neve é acirrada).

Era melhor ter ido ver o filme do Pelé.

Quero começar pela escolha da atriz: quem assiste Downton Abbey já tem uma certa birrinha com Lily James, que interpreta a intragável Rose na série. Talvez por não conseguir separar muito bem a personagem da atriz, eu acho a interpretação de James extremamente forçada, o que poderia até necessário para dar algum tempero na insossa Cinderella.

Seguindo a linha dos live-actions, a Disney conta a infância de Ella, filha única de um mercador rico e sua esposa, que adoece e morre antes da adolescência de Ella, deixando uma única mensagem: seja gentil e corajosa. O pai de Ella volta a se casar com a magnífica Galadriel Lady Tremaine que leva suas duas filhas mimadas para morar com eles. Ele também morre e Ella começa a ser maltratada pela família que lhe resta, aguentando tudo com um sorriso no rosto porque ela obviamente não entendeu o que significa ser corajosa.

Não tem como fazer um review do filme sem problematizar toda a história de Cinderella. No artigo “Em Cinderella, o vitimismo é uma virtude“, Joanna Weiss aponta que apesar da aposta corajosa ao recontar a história da Bela Adormecida através de Malévola, não seria possível fazer o mesmo com Cinderella, cujo único atestado de qualidade é seu sucesso duradouro. Ela encanta gerações há 65 anos e é uma das principais referências de princesas sem manejar um arco ou devorar bibliotecas, sem pegar em armas para salvar seu pai ou construir fortalezas de gelo. Não seria possível vender Cinderella se o roteiro escapasse muito do conto tradicional.

Sim, em várias cenas é possível ver uma diversidade racial até então inexistente nas animações mais antigas da Disney (as princesas africanas, asiáticas, latinas! puro amor), e seguindo a cartilha de Elsa de que não é possível se casar com alguém que acabou de conhecer, Cinderella e o príncipe se conhecem antes do baile e têm um diálogo completo, no qual a descabelada e desarrumada Ella o encanta com sua sagacidade e humor. Mas as inovações não vão muito além disso e o que poderia ser um filme empoderador para as crianças que vêem a Cinderella como modelo, acaba se tornando extremamente confuso para elas. Nas palavras de Weiss:

É difícil escapar da ideia que Cinderella escolhe ser infeliz. No mínimo, ela aceita a crueldade de sua família postiça – mandando-a dormir em um sótão gélido, dando a ela um apelido depreciativo – não com um espírito desafiador, mas com um biquinho choroso e uma música ocasional. Se não fosse a intervenção da Fada Madrinha, nós imaginaríamos que ela passaria sua vida inteira no sótão na companhia dos ratos.

Entendam: ao contrário de Malévola, o filme tem classificação indicativa livre. Ele não foi feito apenas para adultos encantados há anos com Cinderella, mas para crianças também. Crianças que vêm de modelos como Merida e Elsa e que absolutamente não entendem o motivo para que Ella se deixe abusar com tanta frequência. A Disney tenta – e falha em – nos convencer que o poder de Cinderella está em sua bondade e doçura, e repete isso sem parar: no trailer, no filme, nos pôsteres. O que não é ruim, vejam bem. Nem toda princesa precisa ser desafiadora. Eu entenderia se “a magia está na bondade” fosse usado como uma metáfora, mas no caso de Ella, a magia é literal. Ela precisa da magia para ser resgatada. E isso não é bacana.

E pra completar meu atestado de chatice, eu vou problematizar inclusive o que tem sido louvado no filme: a direção e o figurino. Eu não sei quem está errado, se Kenneth Branagh ou eu. Estou confusa se Cinderella era para ser um filme infantil, ou um filme de época com temática infantil, ou apenas um filme de fantasia. A diferença entre essas duas é crucial e o ponto central da minha crítica: o ritmo do filme. Para um filme infantil, o desenvolvimento da história se dá de forma lenta e arrastada, são 40 minutos para contar o que 2 minutos de trailer fizeram de forma magistral. Para um filme de época, falta contextualização e pesquisa. Para um filme de fantasia, falta… fantasia.

E o figurino, apesar de arrebatador, me incomoda. Especialmente no vestido de baile de Ella, cujo corselete era tão apertado que a atriz só podia ingerir líquidos quando vestida com ele. Sua cintura desumanamente desproporcional me incomoda ao ponto de precisar ser citada e, para mim, ofuscou o brilho daquilo que seria um vestido encantador. Minha crítica para por aí: o restante do figurino está impecável, assim como a atuação de Cate Banchet.

Talvez alguém com um pouco mais de carinho pela personagem possa ter uma visão diferente do filme. Minha experiência foi absolutamente negativa: meu filho ficou inquieto e disperso o filme inteiro e quando a energia do cinema acabou no terço final do filme, eu agradeci pelo fim precoce da tortura. E sim, estou resenhando um filme que sequer assisti até o final. Não é como se fosse haver alguma reviravolta na história, não é mesmo? (;

TL/DR:
Classificação Indicativa: Livre
Classificação Pac Mãe: 6 anos
Opinião Pac Mãe: ZzZZzZZzzzzzzzZZ esperem sair em DVD ou, melhor ainda: se poupem dessa experiência.

Nanda Café

Nanda Café

Feminista que faz ballet e adora cor-de-rosa. Gosta de RPG, fantasia medieval, anime água-com-açúcar e é #teammarvel apesar de Sandman ser da Vertigo. Começou a estudar Quenya, mas como não dava pra fazer isso enquanto comia, desistiu de ser elfa e admitiu para si sua natureza hobitesca.
Nanda Café

Talvez você goste de: