Cinema | Divertida Mente me ajudou a falar sobre depressão com meu filho

Uma série de problemas têm me deixado uma mãe pior do que eu costumo ser. Sei que todas as mães têm dessas coisas de achar que não estão sendo boas mães, mas aqui o negócio está sério. Meu filho tem pedido “por favor, por favor, por favor não fica triste” e faz de tudo para não me ver chorar – o que tem acontecido com frequência. Então hoje, quando o levei ao cinema, ele já foi avisado de que isso provavelmente aconteceria.

ATENÇÃO: PEQUENOS SPOILERS ABAIXO

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Porque eu sou aquela pessoa que chora com praticamente todos os curtas da Disney, então não seria diferente em um filme onde sentimentos têm… sentimentos. Divertida Mente é um filme complicado de se explicar pois nenhuma sinopse faz jus à sua trama. Foi um filme tão complicado que demorou 6 anos para ser lançado e veio para os cinemas como uma solução da Pixar às críticas de que sua fonte criativa já havia se esgotado.

O resultado em Cannes e nas bilheterias tem mostrado que não. Com um roteiro inteiramente original que garantiu o lucro de mais de $150 milhões de dólares até o momento (é o segundo maior lucro de estreia da Pixar, perdendo apenas para Toy Story 3), o lançamento de verão tem agradado a adultos e crianças, apesar de abordar um tema absolutamente profundo quanto os sentimentos, ou as vozinhas de dentro da nossa mente.

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Alegria é o primeiro sentimento de Riley, uma menina de 11 anos, seguida por Tristeza. Complementados por Raiva, Medo e Nojinho, os 5 sentimentos coordenam as ações e memórias da garota, criando as bases de sua personalidade, até que uma grande mudança na vida exterior de Riley causa grandes mudanças na vida interior.

Um acidente faz com que Alegria, que parecia comandar a vida infantil da menina até o momento, se perca no complexo mundo da mente de Riley com Tristeza, e a mente dela se torna algo bem parecido com o que chamamos de pré-adolescência, com Raiva, Nojinho e Medo no comando. O filme retrata a jornada de Alegria para retomar as rédeas da memória enquanto acompanhamos Riley se adaptando à sua nova realidade.

Com elementos infantis suficientes para prender a atenção das crianças, o filme é uma sessão de terapia para os adultos – ou ao menos foi para mim. Alegria percebe ao longo de seu trajeto que a Tristeza, aquela que ela considerava desastrada, atrapalhada e desnecessária, é, na verdade, complementar a si mesma. Sem a Tristeza, a Alegria teria muito menos momentos.

Quero ressaltar a importância das três protagonistas do filme serem mulheres. Riley, Alegria e Tristeza são personagens complexas que fazem o filme passar com louvor no teste de Bechdel e o melhor: não te fazem lembrar do teste nem por um minuto. Enquanto eu assisti a Frozen vibrando pelas reviravoltas de empoderamento feminino, isso nem passou pela minha cabeça assistindo a Divertida Mente.

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O filme passa longe de estereótipos e tem personagens para todos os gostos: o favorito do meu filho foi Bing Bong, o amigo imaginário de Riley, perdido nos labirintos da mente da menina. Enquanto temos cenas de comédia pastelão, que agradam os pequenos, a maior parte das risadas ouvidas no cinema foi de adultos, porque as piadas são boas o suficiente para não estragar o roteiro infantil, mas inteligentes o suficiente para cativarem os adultos.

Enquanto meu filho agarrava minha mão desesperado com o esquecimento de Bing Bong (“Mãe, ele vai voltar, né?”), eu agarrava a dele ao ver minha mente representada ali naquele desenho. Em uma sequência de cenas, Raiva resolve colocar na mente de Riley uma ideia. Movida por essa ideia, a menina toma uma série de atitudes que não se parecem nem um pouco com ela e aos poucos, os sentimentos perdem o controle de sua mente. O painel de botões, que coordena suas atitudes, fica cinza e inoperante, e nenhum sentimento parece conseguir se expressar em Riley.

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Essa cena dura pouco tempo, mas o suficiente para entendermos o que ela representa: a depressão. Quem já lutou contra esse problema ou conhece alguém que tenha passado por isso sabe que a depressão não é uma tristeza profunda, é muito além disso. É como se a mente não se lembrasse mais de sentir. Nem alegria, nem tristeza. É um estágio de apatia onde a pessoa, em um nível racional, sabe que tem que ter determinadas reações a certos estímulos mas apenas não consegue. É como se Alegria, Tristeza, Nojinho, Medo e Raiva tivessem saído da Sala de Controle. Ou como se o Painel tivesse se quebrado e a equipe de manutenção não conseguisse entrar na sala para trocá-lo.

Depois do filme, conversamos longamente sobre isso. Sobre como algumas lembranças alegres podem se tornar tristes com o tempo ou com a distância. Sobre como podemos ficar tristes mesmo quando lembramos de coisas que outrora foram boas. E sobre como tudo bem deixar a Tristeza assumir o Painel por um tempo: era melhor com ela à frente do que um painel sem funcionar. Expliquei que era isso que estava acontecendo comigo ultimamente, e que não era culpa dele. Afinal, está tudo dentro da minha mente!

Divertida Mente (Disney/Pixar 2015)
Classificação Indicativa: Livre
Classificação Pac Mãe: A partir dos 4 anos
Avaliação Pac Mãe: Dificilmente haverá filme infantil melhor em 2015. Corram para assistir!

 

Nanda Café

Nanda Café

Feminista que faz ballet e adora cor-de-rosa. Gosta de RPG, fantasia medieval, anime água-com-açúcar e é #teammarvel apesar de Sandman ser da Vertigo. Começou a estudar Quenya, mas como não dava pra fazer isso enquanto comia, desistiu de ser elfa e admitiu para si sua natureza hobitesca.
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