Cinema | Hotel Transilvânia 2: Diversão que supera a problematização

Nessa quinta-feira (24), estreou no Brasil a animação da Sony, Hotel Transilvânia 2. Como tem roteiro, produção executiva e dublagem de Adam Sandler, eu já cheguei no cinema com ressalvas. Confesso que eu ainda não havia assistido o primeiro filme, apesar do sucesso tremendo (é o recordista de bilheteria no mês de setembro nos EUA) e só conhecia a versão do Hotel Transilmônica, contei com a ajuda do filhote para tirar minhas dúvidas, me enchi da empolgação dele e lá fomos nós para o cinema.

Hotel Transilvânia 2 começa com a cena do casamento de Mavis e Johnny e já enche os olhinhos de lágrimas nas primeiras cenas, quando Drac vê Mavis como uma garotinha caminhando pelo altar. Mas não se engane: a cena é muito engraçada, cheia de piadas que fazem rir crianças e adultos. Os feels continuam a jorrar nas cenas seguintes quando Mavis descobre que está grávida e dá a notícia para seu pai, bem como no nascimento de Dennis, a quem Drac jura proteger para sempre. Depois de um lapso de tempo (o filme se passa 7 anos depois do final do primeiro), vemos Dennis se aproximar de seu aniversário de 5 anos, idade limite para ele demonstrar sinais de vampirismo, e Drac se desesperar com a possibilidade de ter um neto… humano!

Dennis (Asher Blinkoff) and Dracula (Adam Sandler) in Columbia Pictures and Sony Pictures Animation's HOTEL TRANSYLVANIA 2.

Para quem não se lembra, Drac odiava humanos no primeiro filme e é obrigado a lidar com isso por causa do amor que surge entre Mavis e Johnny. Com Johnny morando no castelo, o Hotel Transilvânia se tornou bem mais amigável para humanos, recebendo-os como hóspedes e tudo o mais. Mesmo asssim, Drac ainda tem aquele preconceito residual que se torna cada vez mais aparente com sua insistência para revelar a natureza vampira do neto. Certa de que seu filho não é um vampiro, Mavis pensa em se mudar do Hotel para a cidade natal de Johnny, fazendo com que Drac tome medidas drácsticas para mantê-los por perto.

Eu problematizei o filme do começo ao fim. Desde o primeiro filme, Mavis é a única personagem feminina com algum destaque, e ela sofre fortemente da Síndrome de Trinity, ou seja: ela é muito forte, legal, “empoderada”, mas ainda é coadjuvante. Hotel Transilvânia é um daqueles filmes com apelo universal, com personagens tão distanciados da realidade que poderiam ser de qualquer gênero, mas isso não aconteceu no primeiro e continua não acontecendo no segundo. As personagens femininas que aparecem são todas esposas dos protagonistas (exceto por Winnie, amiguinha de Dennis) e, como esperado, o filme não passa no Teste de Bechdel.

Dracula (Adam Sandler), Griffin the Invisible Man (David Spade), Murray the Mummy, Frank (Kevin James), Mavis (Selena Gomez), Wayne (Steve Buscemi) and Johnny (Andy Samberg) in Columbia Pictures' HOTEL TRANSYLVANIA 2.

Bendita sois vós entre tantos homens.

Mas esse não é o principal problema do filme. Todo o empoderamento e independência da Mavis adolescente do primeiro filme é substituído por uma versão muito problemática do exercício de sua maternidade. Claro que o exagero é humorístico, mas Drácula é intrometido e ultrapassa quaisquer barreiras do respeito, como avós geralmente o fazem. O problema não é bem esse, o problema é que sobra pra Mavis o papel de mãe helicóptero louca superprotetora (isso é falado com clareza em uma das cenas). Mavis coloca travas e protetores de quina pelo castelo, tem um cardápio e um itinerário de atividades, controla os horários de sono do filho e se mostra incomodada com o desrespeito de Drac à rotina da família. Johnny é um banana (taí uma coisa que não mudou desde o primeiro filme) e toda vez que Drac pede que ele confronte Mavis, ele dá de ombros. Toda a responsabilidade cabe à ela, e logo, todo o papel de chata. Talvez isso tenha me incomodado porque eu tenho um quê de mãe helicóptero, mas em momento algum houve uma crítica quanto à intromissão de Drac.

Mavis (Selena Gomez) and Dennis (Asher Blinkoff) in Columbia Pictures and Sony Pictures Animation's HOTEL TRANSYLVANIA 2.

Claro que no desenrolar da história há um meio-termo, e é aí que reside a principal mensagem do filme. Esse meio-termo entre humanos e monstros, entre uma forma de educar mais livre ou mais ativa, a aceitação das diferenças, isso é trabalhado de maneira tão bacana que a gente até torce para que o final do filme seja diferente do que realmente é. É uma mensagem sutil, diferente do product placement agressivo que ocorre durante todo o filme (como eu já disse lá em cima, é um filme do Adam Sandler, afinal). Um dos alívios cômicos mais utilizados do filme é a incapacidade de Drac em usar um smartphone para mandar mensagens, por causa de suas unhas. Dessa forma, o aparelho da Sony é mostrado com tanta frequência que até Samuel (9) comentou ao final do filme. Benjamin (6) notou um computador da Sony Vaio que ocupou metade da tela por vários segundos em outra cena casual. Quando até crianças conseguem perceber o merchandising rolando, ou elas são muito bem educadas, ou tem algo de errado no filme.

(L to R) Blobby, Griffin the Invisible Man (Davis Spade), Wayne (Steve Buscemi), Dracula (Adam Sandler), Frank (Kevin James) and Murray (Keegan-Micheal Key) in Columbia Pictures and Sony Pictures Animation's HOTEL TRANSYLVANIA 2.

But first, let me make a product placement.

“Mas Nanda, você só reclamou do filme!” É o meu #jeitinho gente. Uma das coisas mais maravilhosas de escrever sobre cultura pop é que você pode problematizar a obra e ainda assim se divertir com ela. E é o caso com Hotel Transilvânia. Filhote e eu demos muitas risadas juntos e isso, pra mim, é o que faz um bom filme infantil: divertir crianças e adultos.

Hotel Transilvania 2 (2015 – Columbia/Sony)
Classificação Indicativa: Livre
Classificação Pac Mãe: a partir dos 5 anos (tem monstros, tem cenas assustadoras, tem piadas que precisam de algum repertório)
Avaliação Pac Mãe: divertidíssimo! Mas não é necessário assistir em 3D.

 

Nanda Café

Nanda Café

Feminista que faz ballet e adora cor-de-rosa. Gosta de RPG, fantasia medieval, anime água-com-açúcar e é #teammarvel apesar de Sandman ser da Vertigo. Começou a estudar Quenya, mas como não dava pra fazer isso enquanto comia, desistiu de ser elfa e admitiu para si sua natureza hobitesca.
Nanda Café

Talvez você goste de: