Cinema | Mogli: O Menino Lobo não é para os tão pequenos

Hoje (14) estreia nos cinemas o filme Mogli – O Menino Lobo. Mantendo o título da animação de 1967, o live action remete bastante ao livro de Rudyard Kipling, mais do que o desenho original. Seguindo aquela que parece ter se tornado uma tradição para os lives da Disney, o filme de 2016 tem um ar muito mais sombrio e real do que seus contrapartes animados, a exemplo de Malévola (2014) que como Mogli, recebeu a Classificação Indicativa de 10 anos.

O filme acompanha Mogli (Neel Sethi), uma criança feral criada por lobos na selva indiana. Encontramos um Mogli, orientado pelo amigo Bagheera a se tornar mais lobo e menos humano, e extremamente frustrado por não conseguir acompanhar a alcateia sem usar de seus truques. Durante um período de estiagem, o tigre Shere-Khan descobre a presença de Mogli entre os animais e exige que ele lhe seja entregue, e então começa a aventura de Mogli, Bagheera e o urso Baloo para devolver o menino à Vila dos Humanos e livrá-lo da ira de Shere-Khan.

Eu preciso começar a crítica elogiando a atuação do iniciante Neel Sethi, que tem 13 anos e estreou nos cinemas com um tremendo desafio: apesar de todos os animais terem sido interpretados através de motion capture pelos atores que os dublam, o próprio Neel interagiu apenas com elementos de computação gráfica. Apesar da excelente qualidade da animação da Disney, que faz com que os animais pareçam reais, interagir com elementos de CG é um desafio que complica até a vida de atores veteranos como Ian McKellen, que quase desistiu de atuar depois de O Hobbit por causa da dificuldade de lidar apenas com a tela verde.

Em Mogli esse desafio toma proporções enormes: A equipe da Moving Picture Company (MPC) ficou responsável pela animação de mais de 70 espécies, elaboração de 100 milhões de folhas e a simulação de terra, fogo e água. Uma equipe com mais de 800 artistas de computação gráfica passou mais de um ano no projeto. Os artistas criaram digitalmente a maior parte do ambiente da selva que aparece no filme, criando musgo, casca de árvores, rochas, água, grama, árvores e folhas, tudo com inspiração em suas contrapartidas na vida real na Índia. O ambiente virtual constitui 80 por cento do quadro do filme 100 por cento do tempo. (Fatos cedidos pela Disney)

A atuação original , que é complementada pela dublagem dos atores que emprestaram a vida aosanimais através da captura de imagem, se perde um pouquinho na versão dublada. Não consigo deixar de reclamar da insistência dos estúdios em colocar atores famosos nas dublagens nacionais, principalmente quando temos tantos dubladores incríveis no Brasil. Se no original temos Idris Elba como Shere-Khan, Bill Murray como Balloo, Ben Kingsley como Bagheera, Scarlet Johanson como Kaa e Lupia Nyong’o como Raksha, a versão brasileira tem Thiago Lacerda, Marcos Palmeira, Dan Stulbach, Alinne Moraes e Julia Lemmertz, respectivamente. Não é nada contra o trabalho desses atores como atores, mas sim, como dubladores. Também é importante notar que a diversidade do elenco original não se manteve em sua versão brasileira.

Essa se torna uma questão importante porque, por ter atores famosos na dublagem e o fato de ser baseado em um filme infantil, faz com que Mogli seja oferecido muito mais amplamente em sua versão dublada – alguns cinemas sequer têm horários com a versão legendada. Esse é um problema pois além de confundir as famílias fazendo com que pareça um filme para crianças, impede que as pessoas que prefiram a versão legendada tenham acesso a ela.

E Mogli, apesar de ser sobre uma criança, não é um filme para elas. A história tem uma jornada do herói clássica que acompanha o amadurecimento de Mogli e a construção de sua identidade através de sua família e lugar no mundo. Mas para isso, ele passa por situações assustadoras e até violentas, que são muito mais gritantes em um live action do que em um desenho musical. É um filme lindo com uma história linda, mas com cenas que certamente podem traumatizar uma criança menor de 8 anos, como o assassinato de Akela, líder da alcateia de Mogli e sua figura paterna. Akela é agarrado pelo pescoço com os dentes de Shere-Khan e jogado por um penhasco na frente de seus filhotes.

Ao contrário da animação, o filme envolve muito mais conflitos familiares. Um destaque é dado à Raksha, a loba mãe da ninhada de Akela e que acolhe Mogli como seu filhote. Eu poderia escrever um texto inteiro sobre Raksha e a figura materna que ela representa, se colocando em risco e enfrentando Shere-Khan com a frase “O filhote é meu! É meu para a vida inteira!” que me pôs em lágrimas. É Raksha que lidera a batalha final dos animais contra Shere-Khan e é através da força dessa mãe loba que Mogli encontra seu lugar. Não por acaso, o significado do nome Raksha é protetora em hindi.

Esses conflitos familiares e de amizade são discutidos ao longo de todo o filme, tornando-o muito mais denso do que a série animada ou o desenho original. Claro, o filme também tem canções (não seria Mogli da Disney sem “Necessário, somente o necessário”, que foi indicada ao Oscar em 1968) e o alívio cômico cedido por Balloo e o pequeninho Grey (lobinho irmão de Mogli) nos dão um momento de respiro em meio à tanta tensão. Mas para crianças menores, esses poucos momentos não serão suficientes.

Mogli é um filme excelente, com um roteiro cuidadoso de Justin Marks e uma direção primorosa de Jon Favreau. Ele respeita as duas obras nas quais se baseia (o livro e o filme de 1967), e vai além: cria uma história para os adultos que cresceram assistindo o menino-lobo se encantarem novamente. Mas dessa vez, sem as crianças menores.

Mogli – O Menino Lobo (Disney – 2016)
Classificação Indicativa: 10 anos
Classificação Pac Mãe8 anos com muito colo e conversa.
Opinião Pac Mãe: Filme excelente que prova, mais uma vez, a qualidade da Disney em efeitos digitais. Cenas violentas e um pouco assustadoras o tornam inadequado para os pequenos. Procure assistir legendado.

Nanda Café

Nanda Café

Feminista que faz ballet e adora cor-de-rosa. Gosta de RPG, fantasia medieval, anime água-com-açúcar e é #teammarvel apesar de Sandman ser da Vertigo. Começou a estudar Quenya, mas como não dava pra fazer isso enquanto comia, desistiu de ser elfa e admitiu para si sua natureza hobitesca.
Nanda Café

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  • Pingback: Cinema | Mogli: O Menino Lobo não é para os tão pequenos - Peguei do()

  • Junior Dias

    Ah para vai. Dizer que esse filme não é para menor de 8 anos a não ser com muito colo e conversa e querer criar crianças em uma bolha.
    Gostaria muito de saber a opinião de vcs com relação ao Rei Leão (a morte de Mustafa)? (Se já tem me desculpa, mas fiquei com preguiça de procurar).

  • Forex FX500

    ainda bem que li a “critica” depois do filme. spoiler alert!