Cinema | Peter Pan: Faltou roteiro e sobrou problema nesse filme de ação para crianças

Não é a primeira e talvez não seja a última vez que eu vá fazer essa pergunta aqui, mas: de quantas maneiras se pode contar uma história? Parece que Hollywood está determinada a descobrir. Depois da nova versão de O Pequeno Príncipe, é a vez d’O Menino que não Queria Crescer voltas às telonas em um filme que desde o trailer promete uma versão diferente das várias que já existem.

A proposta é explorar as origens de Peter Pan: como ele chegou à Terra do Nunca? Como conheceu os nativos e se tornou amigo deles? Qual é sua história com o Capitão Gancho? São tantas questões ainda não exploradas na obra de J.M. Barrie que a gente até consegue perdoar a falta de originalidade do cenário, esperando a compensação no roteiro. Só que ela não vem.

É importante ressaltar que Peter Pan é um filme de ação acima de tudo. Embora ambientado em um universo fantástico, o ritmo é frenético do começo ao fim, com explosões, perseguições e cenas de luta que impressionam as crianças e os adultos. O 3D foi muito bem utilizado – coisa difícil de se ver – e eu me vi desviando da tela o tempo todo e a fotografia e cenários do filme são de deixar qualquer um boquiaberto. Mas Peter Pan parece se sustentar no cenário e sofre do mal que muitos filmes de ação acabam sofrendo: seu roteiro é fraco e cheio de falhas – mas será que isso é o suficiente para estragá-lo?

Eu sempre bato na tecla de que um bom filme infantil é aquele que diverte adultos e crianças ao mesmo tempo, e Peter Pan falha um pouco nisso. O filme reúne polêmicas desde o anúncio de seu elenco, quando se confirmou Rooney Mara para o papel de Tiger Lily (me recuso a chamá-la de Tigrinha): Tiger Lily é uma adolescente nativa da Terra do Nunca e uma das poucas personagens indígenas com destaque na literatura, por isso vê-la representada por uma mulher branca pareceu um retrocesso em toda a discussão sobre representatividade e diversidade.

O argumento dos responsáveis pelo filme é o de que ser uma nativa da Terra do Nunca não significa que ela tenha, necessariamente, traços nativo-americanos (mesmo que isso seja dito de forma clara no livro). De fato, a tribo dos nativos passa bem longe de ser representada como uma tribo indígena: ela tem elementos circenses, indianos, tailandeses e é uma deliciosa mistura colorida que só destacam o fato de que Tiger Lily é a única branca no local. Eu não quero reduzir a personagem à cor de sua pele porque ela é a melhor lutadora e a personagem mais incrível desse filme, mas ela é também a única personagem feminina, sofrendo eternamente da Síndrome de Trinity. Para encerrar a discussão sobre ela, só deixo aqui a pergunta: por que é que puderam alterar a etnia de Tiger Lily mas não fizeram  um Hook negro ou um Peter asiático? A representatividade nesse filme é praticamente inexistente e, infelizmente, isso me incomoda ao ponto de deixar o filme menos interessante.

Mas pior do que o branqueamento sofrido por ela é a confusão que o roteiro faz para forçar seu romance com… o Capitão Gancho. Calma que eu vou explicar.

O filme começa mostrando Peter no “nosso” mundo: ele é um órfão em meio à Segunda Guerra Mundial (o que já é confuso por si, porque a história original de Peter Pan se passa no começo do Séc. XX) e seu sequestro por piratas da Terra do Nunca. Comandados por Barba Negra (quanta originalidade), as crianças raptadas trabalham em regime de escravidão em minas, buscando o lendário Pixum, ou Pó de Fada, que ninguém sabe exatamente para que serve. Há uma breve explicação para essa anomalia temporal dada por Barba Negra, mas a cena é tão confusa, em meio à músicas do Nirvana e Ramones, que isso se perde.

Sim, tem Nirvana e Ramones não apenas na trilha sonora, mas embutidos em cenas do filme. Há quem goste, eu senti apenas uma vergonha alheia: as duas músicas acontecem muito próximas umas das outras e não há mais nenhuma referência ao longo do filme. A sensação é de que o filme tenta inserir muitas coisas legais e não consegue fazer nenhuma funcionar por tempo o suficiente. Mas isso só é percebido, eu ressalto, por adultos. As crianças são menos chatas.

E você sabe que o filme é pensado para crianças quando até as cenas mais violentas se tornam uma maravilha visual. Durante a invasão dos Piratas à Tribo, eles acabam matando vários Nativos com tiros, mas não há sangue, nem corpos: eles explodem em uma nuvem de fumaça colorida – e o pó, representando o sangue, fica no rosto de Peter quando ele precisa tomar uma decisão, tornando-se uma das cenas mais bacanas do filme. Esse detalhe mostra que no final das contas, pro mais que eu problematize, o filme não é para mim. E as crianças adoraram.

Na verdade, eu também adorei. Me incomodaram os vários furos do roteiro (como Tiger Lily confia um segredo tão bem guardado ao Gancho, que ela acabou de conhecer? Como assim o mapa super secreto está no meio da casa mais importante da tribo? Como assim a porta pode ser aberta por outra pessoa que não o Príncipe com a chave? Como assim NÃO TEM FADAS?), a falta de motivação do Barba Negra e, principalmente, o suspense óbvio deixado no ar para uma continuação que vai contar como é que Pan e Hook se tornaram inimigos mortais. Honestamente, eu detesto filmes sem final. Mas no final das contas, Peter Pan é um filme divertido que vale a ida ao cinema – e o ingresso 3D.

Peter Pan (2015 – Warner Bros)
Classificação Indicativa: 10 anos
Classificação Pac Mãe: 8 anos
Indicação Pac Mãe: É um filme de ação mais violento do que o esperado de um Peter Pan. Mas é empolgante, bonito, e não vai assustar nenhuma criança. ASSISTA EM 3D.

Nanda Café

Nanda Café

Feminista que faz ballet e adora cor-de-rosa. Gosta de RPG, fantasia medieval, anime água-com-açúcar e é #teammarvel apesar de Sandman ser da Vertigo. Começou a estudar Quenya, mas como não dava pra fazer isso enquanto comia, desistiu de ser elfa e admitiu para si sua natureza hobitesca.
Nanda Café

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  • Caio Borrillo

    Aquele é o Sam Flynn, de TRON, O Legado, não é??

    Poxa, que pena que o filme ficou raso desse jeito.