Cinema | Zootopia: um roteiro politicamente adulto feito para crianças, e deu certo

Apesar de ser a rainha da problematização, eu adoro os filmes da Disney. Mas sabia pouquíssima coisa de Zootopia, que estreou nos cinemas brasileiros hoje (17). A única informação que eu tinha vinha de um trailer assistindo antes de outro filme: era uma cena hilária onde uma policial coelha ia ao Departamento de Trânsito de Zootopia resolver algo com urgência e tinha que lidar unicamente com bichos-preguiça. Pra mim essa cena, que é longa quase ao ponto de desconforto, configurava um curta, similar aos curtas de Olaf e Sven que povoavam os cinemas antes do lançamento de Frozen e acabaria tendo nada a ver com o filme em si. Sim… e não.

Zootopia é uma metrópole onde vivem todos os tipos de animais e onde se passa a aventura de Judy Hopps, uma coelhinha do campo que desde criança sonhava em ser policial na cidade. Acompanhamos sua jornada de superação – que dura bem pouco tempo – para se tornar o primeiro animal pequeno a conseguir passar pelo duro treinamento na Academia de Polícia e apesar de ter sido a melhor de sua turma, é delegada ao serviço de guarda de trânsito. Ela conhece a raposa malandra Nick Wild e, juntos, eles têm 48 horas para descobrir um dos maiores mistérios que vem assolando Zootopia.

O filme é uma mistura de ação policial com mistério e tem um roteiro surpreendentemente sólido e divertido. Ok, talvez não tão surpreendentemente assim: o filme é dos mesmos criadores de Frozen e Operação Big Hero (ou seja, a Disney), que vem mantendo a qualidade nesses últimos lançamentos. Assim como em Operação Big Hero, a trama gira em torno das aventuras dos protagonistas e as relações interpessoais são baseadas na construção da amizade, confiança e companheirismo. Não tem nada de romance, porque o romance é desnecessário.

Talvez por isso o filme tenha me lembrado um pouco o controverso Detona, Ralph que eu, particularmente, adoro. Talvez seja o fato de compartilharem um diretor e um produtor, Zootopia poderia escorregar onde Detona, Ralph escorrega: roteiro e piadas complexas acabam deixando o filme mais atrativo para adultos do que para crianças. Mas isso não acontece. Por exemplo, a tal cena do Departamento de Trânsito com as preguiças se repete na íntegra no filme. Eu, que já tinha dado risadas quando achei que fosse um trailer, ri tudo de novo. Um adulto sentado à minha frente dava gargalhadas altíssimas e enxugava as lágrimas, enquanto meu fiho de seis anos fazia o mesmo, também de novo. Eu achei engraçado porque, bem… que me desculpem os servidores dos Departamentos de Trânsito, mas a representação através das preguiças é acuradíssima. E meu filho riu simplesmente porque a cena é hilária. E ela não é a única. O filme encontrou o equilíbrio entre humor inteligente e humor escrachado e todos os outros elementos que fazem um bom filme.

Um desses elementos, aliás, são as reviravoltas na trama, que é absurdamente política. A história passa pela disputa invisível entre predadores e herbívoros – que são muito maiores em números e, no entando, menos representados no poder. A cidade de Zootopia tem esse nome por passar a ilusão de um local onde todos os animais convivem pacificamente, mas o conflito latente entre os dois lados dessa equação estoura quando os predadores perdem sua civilidade e começam a se comportar a partir de seus instintos. Com os herbívoros correndo risco, o prefeito da cidade – que é um leão – é obrigado a renunciar, guerrilhas estouram e há desconfiança entre conhecidos e amigos. Se isso parece com o clima nos EUA em relação a imigrantes – principalmente muçulmanos após o 11 de setembro – é porque é.

É importante lembrar que estamos em ano de eleição nos EUA e um dos candidatos do Partido Republicano é ninguém menos que Donald Trump, aquele que divertia as massas no reality show O Aprendiz. O problema é que Trump, antes e durante a campanha, já fez declarações absurdas em relação a imigrantes, como dizer que iria construir um muro ao redor dos EUA ou que a melhor maneira de contra-atacar terroristas era atacando suas famílias. Essas declarações, embora pareçam absurdas, têm encontrado eco em boa parte do eleitorado republicano estadunidense e espalhado ideias de preconceito e animosidade.

Judy, a coelha do filme, carrega consigo um spray anti-raposas. Raposas são animais dos quais todos desconfiam: predadores e herbívoros. Elas têm a fama de malandras e a própria Judy carrega um histórico pessoal negativo com uma raposa. O filme começa com a lição de que nenhum animal deve se conformar com o que é esperado dele: a própria Judy vira a primeira oficial coelha da história de Zootopia. Então não podemos esperar que Nick corresponda ao arquétipo construído sobre raposas, né?

Estou tentando escrever sem dar spoilers, mas adianto que o filme é recheado de easter eggs (de Frozen à Poderoso Chefão à Breaking Bad) para o deleite dos adultos e muitas piadas pastelão, para o deleite das crianças. Como eu disse, é um roteiro de filme de ação policial, então algumas cenas têm um tom mais escuro e misterioso, podendo assustar às crianças mais novas. Mas também tem um show da Shakira (que interpreta a pop star Gazelle) então eu diria que é muitíssimo bem equilibrado.

Zootopia (Disney) 2016
Classificação Indicativa:
Livre
Classificação Pac Mãe: 4 anos
Avaliação Pac Mãe: um filme incrivelmente divertido que consegue abordar uma temática séria sem parecer agenda política. Mais um ponto na série de sucessos da Disney. Algumas cenas mais escuras podem assustar crianças muito pequenas. Pode ser assistido em 2D.

Nanda Café

Nanda Café

Feminista que faz ballet e adora cor-de-rosa. Gosta de RPG, fantasia medieval, anime água-com-açúcar e é #teammarvel apesar de Sandman ser da Vertigo. Começou a estudar Quenya, mas como não dava pra fazer isso enquanto comia, desistiu de ser elfa e admitiu para si sua natureza hobitesca.
Nanda Café

Talvez você goste de: