Cinema | Deixa Ela Entrar: quando o bullying é mais assustador do que os vampiros

Hoje a dica não é para os pequenos, mas para as Pac Mães e os Pac Pais. Não só porque  “Deixa ela entrar” (Låt den Rätte Komma In, 2008) é incrível e trata de um tema super nerd (vampiros), mas também porque ele fala sobre adolescência e sobre a crueldade infantil em forma de bullying.
Esse é um dos melhores longas de vampiro que já vi na minha vida e, com certeza, a melhor vampira que já vi no cinema até hoje. Explico:

 

Eli (Lina Leandersson), a garotinha vampira que protagoniza Deixa Ela Entrar ao lado do adorável menino Oskar, não é uma super heroína indestrutível como a Selene (Underworld), não é má e cruel como a também garotinha Claudia (Entrevista com o Vampiro), nem é sádica como Elisabeth Battory ou Akasha (Rainha dos Condenados).
A pequena Eli também não é um monstro que só pensa em sangue e vingança como as esposas de Drácula, ou Victoria (Crepúsculo). O filme não abusa de efeitos especiais e lutas intermináveis como na insuportável série Blade, nem sua protagonista é sexy, fatal e clichê como a filha do Drácula, ou uma mocinha conquistada pelo irresistível vampiro como Bella Swan (mais uma vez, da série Crepúsculo),  ou ainda como Mina/Elisabetta (Drácula).
Eli é quase uma menina comum e real. Podia ser a minha vizinha, por exemplo. Falando aqui como jogadora de RPG, essa é a parte que mais me motiva ao construir e criar personagens vampiras. Eu realmente desejo que elas sejam convincentes, quero que elas sejam quase tão “humanas” quanto eu. A humanidade, aliás, é característica quase primordial. É o que nos diferencia e aproxima, afinal. E Eli, sem dúvida, consegue ser bastante humana.
****O filme é de 2008, mas, se você pretende assistí-lo pela primeira vez hoje a noite, já aviso que o texto está COM SPOILERS A PARTIR DAQUI****
Me encantei por Eli porque pela primeira vez no cinema encontrei uma vampira que demonstra claramente os contrastes entre a força e fragilidade da maldição de uma forma real. Claro que muitos filmes abordam o lado ruim e trágico de ser um vampiro, mas acho que acompanhar o dia-a-dia de Eli e seus problemas mais cotidianos, dificuldades menos existenciais e mais práticas dão um charme todo especial à vampirinha.
Como lidar com os erros do seu assistente (aos RPGistas, sim, ele é um ghoul! Que incrível ver isso retratado num filme :)) que está ficando velho e meio “sem prática”? Será hora de conseguir um mais “espertinho”, afinal?
Oskar (Kåre Hedebrant) é um capítulo a parte. Tenho vontade de abraçá-lo, de protegê-lo. Ele sofre muito com o bullying durante o filme, sente muita raiva, e vive ensaiando sozinho um revide aos seus agressores. Seus pais tentam estar presentes, apesar de não estarem mais juntos. Demonstram o afeto que sentem por ele, mas o garoto não consegue pedir ajuda. Não consegue se defender. Seu apoio, quem diria, vem logo do lado mais assustador da história: é com a vampira que ele se conecta.
Apesar de alguns momentos violentos, quase chocantes, o que dá o clima mesmo para a história é o suspense. Aliás, para mim, as cenas de bullying são ainda mais doloridas e apavorantes do que os takes mais sangrentos. A cena do afogamento de Oskar na piscina, por exemplo, é quase desesperadora. O clima frio da Suécia, a neve e as diversas tomadas externas, fortalecem ainda mais a sensação de solidão do garoto, além de deixarem a estética do filme lindíssima.

****FIM DOS SPOILERS****

Deixa Ela Entrar teve uma refilmagem americana/inglesa, que no Brasil atende pelo nome de “Deixe-me Entrar” (Let Me In, 2010), A princípio olhei meio torto para a refilmagem, mas depois achei que ela explica algumas coisas que o filme original não aprofunda, o que acaba sendo um complemento até que interessante. Recomendo, também! Mas assista a versão sueca primeiro, combinado?

  “Deixa ela entrar” (Låt den Rätte Komma In, 2008) 
 Ranking Pac Mãe
 Classificação Indicativa: 16 anos
Classificação Pac Mãe:  Concordo com a classificação 16 anos (o filme tem cenas de violência e nudez, a história tem cenas fortes de suspense, não recomendado para crianças)
Nossa opinião sobre o filme: Excelente
Kathy

Kathy

Jornalista, sonserina, lannister, malkaviana, dobradora do reino da Terra, distrito 3. Transmito o legado nerd ao meu rebento, Samuel, que, pobrezinho, já reclama que ninguém da escola sabe quem é Sauron e nem fazem ideia do que significa conjurar um patrono.
Kathy

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  • Camila

    Mirna não. Mina. Fora isso, sei lá…acho que o Louis é um belo exemplar de vampiro “humano”, chega a ser lindo o sofrimento dele, parafraseando o adorável Lestat.

  • kathy

    Verdade, Camila! Já corrigi lá! Sim, gosto bastante de Louis, mas estava mesmo fazendo uma comparação somente com as personagens femininas. Obrigada, abração!

  • Anônimo

    Qual e a classificacao? Da pra ver com meu filho de 10 anos ou e’ muito violenta?

    • kathy

      Não dá pra ver com uma criança de 10 anos! Tem cenas fortes. A classificação é 16 anos. Vou acrescentar no texto, obrigada!

  • Assisti o filme ”Deixe-me Entrar” (Let Me In, 2010) que estava disponível no netflix depois de ter lido o post de vocês (sempre acompanho o pac mãe apesar de ainda não ser mãe, hehe). Fiquei um pouco intrigada com o filme, não sei se é diferente na versão original, mas o “romance” é #SPOILERS meio trágico do meu ponto de vista.. pois afinal Owen terá o mesmo destino do homem que se passa pelo pai de Abby, que já está cansado no final de buscar o alimento para ela, mas continua pois a ama.. ou será que este amor é construído pelo poder de sedução dos vampiros? oO viajando já, hhuashuah.

    Mas concordo com vocês que o filme é bem diferente e mostra um pouco do que seria a “realidade” de ser um vampiro.

    • kathy

      Carol, sim, é isso mesmo! Na versão americana do filme isso fica mais claro: é mostrado por meio de fotos antigas que na verdade aquele não é o pai da Eli/Abby, mas sim alguém que está com ela desde criança, assim como o Oskar/Owen está prestes a fazer. Afinal, ela tem a aparência de garotinha, mas vampiros são seres eternos, certo? Não é bem um romance, né? Acho que eles se conectam, se identificam, e de certa forma um ajuda o outro com o que precisa.

      Nos vampiros do RPG esses humanos que auxiliam os vampiros e que muitas vezes vivem com eles, acobertando possíveis assassinatos, auxiliando na locomoção durante o dia, cuidando da segurança, são os chamados carniçais ou ghouls. Em geral essas pessoas até consomem sangue dos vampiros, ganham alguns poderes (como força e maior vitalidade, por exemplo), mas em contrapartida se viciam naquele sangue e acabam por depender dos vampiros. Não vi nos filmes referências a esse tipo de ligação entre os personagens, acredito que o “pai” a acompanha por amor, assim como fez o Oskar.

      Que bom que gostou do filme, quero continuar a dar dicas de filmes nerds aqui também para os adultos! Abração!

  • Vitor Urubatan

    Vou procurar saber sobre esse filme.