Dia Mundial de Conscientização sobre o Autismo |”Capacitismo não dá xp, viu?”

Por Daniela Razia

Provavelmente a maioria das pessoas, quando têm filhos pensam : vou passar tudo o que sei para ele.

No meu caso não foi diferente.Nerd de carteirinha e gamer óbvio que pensei “Meu , vou ter um companheiro de games! Alguém para debater aquela HQ comigo, jogar aquele joguinho comigo, ler aquele livro comigo, etc.”

Acho que é o sonho de todo nerd é repassar e pôr a cria no mundinho gamer. E nesse mundo, que convenhamos não é nada amigável com o gênero feminino, ter mais um apoio seria uma injeção de ânimo novos. As coisas não aconteceram do modo que planejei. Meu filho nasceu com autismo e por alguns anos simplesmente julguei que ele não seria capaz de apreciar a nerdice gamer do mesmo modo que a minha pessoa.

Outro fator que fazia minha exclusão: além de mãe solteira e especial, era nerd e considerada velha para esse tipo de coisa. Juntando o fato do autismo do Pedro ser moderado a grave isso me tolheu as esperanças de continuar frequentando as rodinhas de nerds. E aos poucos as pessoas realmente fizeram o trabalho de me excluir.

Comecei a me dedicar a tradução de jogos : não poderia trabalhar fora, e meu tempo assim seria exclusivo do Pedro, até conseguir vaga em uma APAE. Isso durou praticamente sete anos, até que consegui uma vaga na APAE da minha cidade.

Do diagnóstico aos 2 anos e meio de idade até seis/sete anos realmente nos enclausuramos.Meu tempo era dividido entre pc e filho e lá , depois de largar o video game, conheci outros infindáveis jogos. E no período que Pedro começou a estudar, sua evolução me assustou de tal forma, que um dia quase caí da cadeira quando ficou exatamente 50 minutos me assistindo jogar League of Legends ( grande parte sabe que autistas tem dificuldades de concentração).

Mas enquanto ele evoluía o preconceito das pessoas também ia no mesmo ritmo. Me empolguei com o LoL e decidi fazer streams (transmissão ao vivo de games) e arrecadar grana para as fraldas geriátricas do Pedro. Lembro que na estréia alguém ouviu os barulhos que ele faz com a boca e o comparou a um porco. Desliguei tudo, tive uma crise de choro, agradeci por ele não ter capacidade de entender ainda aquele tipo de frase. E passei mais um ano escondida, sequelas daquela noite.

Isso tudo: Pedro realmente é uma criatura maravilhosa, não joga mas ama me ver jogando, também ama ver o tio jogando e lendo. Ele realmente fica atento, pede para que joguemos pra ele ver. É esperto até demais. Vibra junto e fica triste junto também.

Queria fazer um pedido: apenas parem de comparar pessoas que não estão jogando bem a alunos de APAE. Parem de chamar as pessoas de retardado, doente mental, não usem esse tipo de coisa como ofensa. A luta que pais de autistas e pessoas portadoras de alguma síndrome enfrentam não é fácil. E digo mais: não é qualquer um que aguenta o tranco. Minimizar isso, além de ser um baita de preconceito , invisibliza e é chacota com essas pessoas. Capacitismo, minha gente, não dá exp, viu?

Dia 02/04 é o Dia Mundial da Concientização do Autismo. Não é comemoração como muitos pensam – não tem sentindo comemorar algo que pode limitar a vida de pessoas de forma permanente e até cruel. Esse dia serve para reforçar e trazer à luz novas pautas sobre o Autismo, levar e oferecer conhecimento para quem quer conhecer a síndrome. E apertar ainda mais os laços entre as pessoas que estão juntas nessa luta. Que não estão sozinhas, que nossos filhos serão visíveis e aceitos como qualquer outra pessoa. Isso também inclui no mundo nerd.

Tenho que agradecer as minhas amigas feministas – todas elas – que me ajudaram desde a fraldas, dinheiro quando passei aperto, em conselhos, apoio e olhos para meus desabafos. Elas me deram forças também para continuar e seguir lutando . E também a levar essa luta para o mundo gamer: meu filho, sua filha, seu filho, todos tem direito a nerdar!

“Mesmo que eu tivesse vivido mil vidas ou comandado um exército de centenas de homens, nada disso se compara a incrível experiência de ensinar apenas um único garotinho autista.”

12939543_605234849632577_1280476154_n  Daniela Razia é mãe do PH, tradutora, 38 anos ( socorro, aeueae) , viciada em café, ler e games.

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