Leitura | Os Pequenos Guardiões

Durante a faculdade eu costumava passar horas no site da Editora Conrad, namorando as inúmeras publicações que eu gostaria de ter e não podia. Cheguei a colocar Os Pequenos Guardiões (Mouse Guard) no carrinho umas 5 vezes mas nunca comprei. Eu sabia pouca coisa da série, mas imaginava que pra ter passado pela curadoria da Conrad era boa coisa. E era muito bonitinha.

Olha que coisa mais fofa esse ratinho todo sério.

Olha que coisa mais fofa esse ratinho todo sério.

Engravidei, tive um filho e a grana ficou ainda mais curta. As visitas ao site da Conrad – que já havia sido vendida e passava por uma reestruturação complicada – cessaram de vez. Mas um belo dia, enquanto passeava por um sebo de quadrinhos na minha terra natal, me deparei com os dois primeiros volumes da série que tanto namorei por um preço convidativo. Estampado na capa, o selo: Recomendado pela Associação de Bibliotecas Americanas.

“Hm”, pensei, “deve ter uma pegada infantil. Vou dar para o Benjamin dar uma olhada.” Aos 3 anos de idade, não foi uma jogada sensata. Apesar do traço que lembra uma ilustração de história infantil, Os Pequenos Guardiões não é uma série para crianças pequenas. Tem sangue, mortes e uma trama que se torna extremamente complicada com os outros volumes (são 6 no total). Mil vezes tive que explicar para aquela criancinha impressionável o que estava acontecendo, mil vozes tive que inventar para que a arte sequencial fizesse sentido.

"Olha bebê, ele enfiando uma espada na cabeça da cobra!"

“Olha bebê, ele enfiando uma espada na cabeça da cobra!”

Acredite: foi difícil. Guardiões foi escrito e ilustrado por David Petersen e se trata de um mundo medieval análogo aos humanos (que não aparecem na história), habitado por ratos sapientes. Os ratos têm cidades e organizações, uma delas sendo Os Guardiões, que protegem o caminho entre essas cidades. Eles enfrentam os perigos naturais que ratos enfrentariam na natureza, mas também enfrentam perigos ocultos dentro dos muros da cidade. A série foi publicada bimensalmente em um formato diferente do tradicional (os livros são quadrados), e ganhou 2 prêmios Eisner – um deles de Melhor Publicação Para Crianças.

Mas: quadrinhos não são para serem lidos por outra pessoa. Sua leitura acompanha os quadros por completo: balões e ilustrações. Eu não gosto de ler algo para uma criança apontando para o local onde ela tem de olhar. Se um quadro chama a sua atenção, seus olhos naturalmente irão se demorar mais naquela imagem, tornando o acompanhamento da narrativa impossível.

Mesmo os quadrinhos da Turma da Mônica – que estamos evitando ao máximo nessa casa apesar das boas experiências – eram complicados de ler para ele. Meu filho tem dominado a leitura recentemente e tomado a iniciativa de ler por conta própria. Volta e meia fica em seu quarto por horas minutos lendo sozinho. Mas ainda não conseguiu captar a trama dos Pequenos Guardiões, que além de tudo, manteve os nomes anglófonos na tradução. É uma história intensa de fantasia e aventura, boa para mini-jogadores de RPG. A mensagem passada pela Guarda também é bem bacana.

A Conrad publicou a primeira série de 6 volumes aqui no Brasil. Lá fora, essa série foi compilada sob o título de Fall 1152, e Petersen ainda lançou mais 6 volumes que formam o Winter 1152 e não apareceram por aqui. Petersen ainda está publicando e escrevendo a série, o site dele é bem completo, vale a pena dar uma olhada.

Apesar de não ser indicado para crianças pequenas, é uma excelente série para introduzir as mais velhas nas graphic novels. Guardiões não usa de onomatopeias e cores exageradas, ou abusa do maniqueísmo e bidimensionalidade das HQs de super-heróis. Também não vamos encontrar pacotes de macarrão instantâneo com os ratinhos, o que torna a indicação ainda mais segura. (;

Classificação Indicativa: Não tem.
Classificação Pac Mãe: 10 anos. Como eu disse, além da trama complicada, tem sangue, morte e violência (é um mundo medieval, oras!)
Opinião Pac Mãe: Excelente. Se você não tem filhos, compre para você e guarde para eles. Ou para sobrinhos. Ou doe para a bilbioteca de alguma escola. Apenas leia.

Nanda Café

Nanda Café

Feminista que faz ballet e adora cor-de-rosa. Gosta de RPG, fantasia medieval, anime água-com-açúcar e é #teammarvel apesar de Sandman ser da Vertigo. Começou a estudar Quenya, mas como não dava pra fazer isso enquanto comia, desistiu de ser elfa e admitiu para si sua natureza hobitesca.
Nanda Café