Educação | Apresentando Malala na sala de aula

Em junho de 2015 voltei a morar no Brasil (eu morava na Alemanha, como já contei por aqui), e depois de quase 2 anos e meio afastada do meu emprego formal, eu voltei a trabalhar. Sou professora por opção e paixão, ingressei no magistério por influência da minha mãe, que é professora de história e sempre participou do sindicato e movimentos políticos. Eu ainda acredito que a Educação pode fazer a diferença. Gosto muito da série Arquivo X e, toda vez que que penso em Educação, eu me reporto ao famoso pôster do Agente Fox Mulder I want to believe. O dia em que deixar de acreditar ou a desgostar do meu trabalho, eu mudo de profissão.

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Contudo, tenho os pés no chão e sei que apesar da Educação mudar muitas realidades, ela não se resume à Educação Escolar: nosso contexto social é muito complexo para ser simplista a ponto de acreditar que a escola dará conta de todas as demandas sociais.

“Se a educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela tampouco a sociedade muda”. Paulo Freire

Depois de 6 meses de licença maternidade, quase 2 anos na Alemanha e 4 anos na Coordenação Pedagógica de uma Escola de Educação Infantil me vi diante de uma sala de 4° ano da Educação Fundamental. Eu gosto de Educação seja ela infantil, fundamental, EJA e até mesmo formação continuada de professores, mesmo assim fiquei com frio imenso na barriga, me senti enferrujada e o desafio era grande. Cheguei em agosto e já haviam passado naquela sala 5 professores antes de mim, sabe azar? As professoras anteriores se afastaram por diversos motivos desde licença maternidade até acidente grave no trânsito. Fui muito bem recebida, e posso dizer que meus alunos eram uns amores, uma das melhores salas que já tive.

Sou muito crítica com meu trabalho, e penso que se não estivesse tão enferrujada teria feito um trabalho muito melhor. Falo isso porque ao contar o trabalho a seguir, as pessoas podem pensar que me considero a professora perfeita e tudo mais, o que na verdade é ao contrário. É sempre possível, e saudável, se esforçar para melhorar e se autoavaliar. Como todos os seres humanos do planeta Terra, eu também sou cheia de falhas!

Um dos trabalhos mais significativos foi o que começou de forma menos pretensiosa. Todos os dias antes de começar a aula, eu costumo ler um livro ou um capítulo (na rede onde trabalho isso se chama leitura fruição). A maioria das vezes a leitura era por puro prazer, porém alguns livros rendiam boas discussões. Um dos livros que levei foi o da Malala: lia um capítulo por dia e minha intenção, a princípio, era discutir o direito e o acesso à Educação, uma vez que no mundo, muitas crianças são privadas desse direito, principalmente quando são meninas.

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Os alunos do 4º ano têm em torno dos 10 anos e são bastante maduros, então se interessaram e sensibilizaram muito pela questão da violação dos direitos das mulheres, sobretudo com relação ao matrimônio, pois em muitos países do mundo, as meninas são obrigadas a se casar aos 12 anos. Aliás, a sala inteira, inclusive os meninos, se indignou muito com muitas coisas abordadas no livro, e as discussões que começaram problematizando o acesso a Educação, passaram a fervilhar em torno dos direitos negados às mulheres (já falei que meus alunos eram fofos?)

Nesse ponto percebi que deveria levar outros materiais para enriquecer as discussões, tentei criar condições para se ambientassem com uma cultura diferente da ocidental, principalmente em relação a quebra de estereótipos que reforçam ideias que inferiorizam a mulher, ou mesmo que inferiorizam a cultura islâmica, colocando-os todos como terroristas. Infelizmente, vivemos num mundo onde a indústria cultural padroniza e valoriza comportamentos impostos pela civilização ocidental. Há coisas belíssimas no oriente, como mostramos um pouco no post sobre o Mulá Nasrudin.

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Um dos materiais complementares mais emocionantes foi, sem sombra de dúvida, o vídeo do discurso dela na ONU e o vídeo “Malala, uma menina entre  muitas”, ao final de ambos meus alunos repetiam a famosa frase da Malala: “Uma criança, um professor, um livro e uma caneta podem mudar o mundo” e batiam palmas como se ela estivesse ali na sala ouvindo. Choro de emoção toda vez que eu me lembro disso. Era de arrepiar, eles pediam para repetir, repetir e repetir o vídeo…

Levei muitos outros vídeos e textos. Outros dois vídeos que fizeram muito sucesso foram os da campanha da Always “Nada pode nos deter” e “O que significa fazer as coisas tipo menina”. A discussão foi muito boa, principalmente porque andávamos tendo problemas desse tipo em sala de aula. O trabalho foi tão produtivo que chegamos a conversar sobre o “fiu, fiu” na rua e as famosas cantadas que os homens insistem em achar que gostamos. Nesse dia eu cheguei em casa e chorei. Chorei por saber que meninas de 10 anos levam cantadas na rua, eu acho que elas são muito novas para ter que lidar com esse tipo de assédio, elas possuem corpinho de criança! E não é só um fiu, fiu, são chamadas de gostosas! Recebem cantadas juntamente com suas mães! Até os meninos ficam incomodados quando suas mães recebem esse tipo de assédio. Logo perguntei pra eles: Se ninguém gosta porque as pessoas fazem isso? As respostas foram bem interessantes e os meninos juraram que nunca fariam isso quando fossem mais velhos!

Levamos mais de um mês para terminar o livro e, para finalizar o assunto, pedi aos alunos que escrevessem um texto sobre o tema. Os textos produzidos demonstram o empoderamento das crianças em relação aos próprios direitos. Algumas coisas interessantíssimas e espontâneas apareceram nos textos: agradecimentos a autora do livro Adriana Carranca pela coragem e a intenção da publicação do livro, associações a mulheres fortes em desenhos animados, como a Mulan. Depois de ler os textos eu mostrei a eles o trabalho da Kaol Porfírio, Fight like a Girl, fui, inclusive, vestida com a minha camisetinha linda da Toda Frida.

Vou deixar algumas fotos dos trabalhos das crianças para vocês se deliciarem:

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Texto escrito por um menino de 10 anos

 

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Agradecimento à autora do livro

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Praticamente todas as Malalas foam retratadas com livrinhos nas mãos

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Mesmo os alunos com dificuldades em produzir textos se empolgaram e escreveram suas ideias

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Algumas meninas se empolgaram bastante com o tema <3

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Malala heroína da vida real e a heroína da fantasia Mulan.

O interessante foi que, coincidentemente, a finalização dos trabalhos foram na semana anterior ao Exame do ENEM, muitas crianças e professoras da escola comentaram esse fato. O trabalho também ocorreu perto do lançamento do documentário sobre a Malala, infelizmente esse tipo de filme não-comercial não foi disponibilizado em nossa cidade e os alunos ficaram apenas na vontade.

O trabalho rendeu, segundo relatos dos alunos, discussões em casa. Uma família comprou o livro para a criança reler, outros disseram que os pais não faziam ideia das coisas que aconteceram com a Malala ou mesmo a conheciam. Toda semana alguma criança aparecia na sala com algum tipo de recorte de jornal ou revista com a foto dela. O ápice foi a foto dela com a atriz que fez a Herminone na série Harry Potter: no livro, a Malala conta que a mochila dela da escola era do Harry Potter.

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Depois de um tempo, estudamos a história das bonecas Abayomi e resolvemos confeccioná-las. Um dos meninos da sala disse que não faria, pois isso era coisa de menina. Imediatamente quase todos os meninos da sala levantaram e começaram a argumentar com ele: “Você não tem irmã ou mãe para presentear com a boneca que você vai fazer?”,”Seu pai não ajuda sua mãe?”, “Você não vai ser pai um dia?” “Quem disse que menino não precisa aprender a cuidar?”. Depois de pensar um pouco ele percebeu o quanto o discurso dele estava carregado de preconceito e mudou de ideia. Eu fiquei apenas observando e quase chorando de emoção vendo o movimento.

Apesar do trabalho ter rendido bons frutos, acredito que essa discussão na escola deve ser permanente e contínua, principalmente para combater os estímulos externos, como a mídia, que vê a mulher como objeto e que reforça a todo o momento os estereótipos de uma sociedade machista.

Semana passada, conversamos bastante sobre isso o Hangout especial de educação do Pac Mãe, você pode conferir o bate-papo abaixo:

 

Joyce Recco

Sou uma professora feliz da Rede Pública, mãe da Alice (3) e do Arthur (3 meses). Adoro fazer listas, organizar e criar coisas. Sou apaixonada por literatura infantil, culinária, DIY e fotografia. Curto ficção Científica, gosto que aprendi com a minha Pac Mãe. Adoro Star Wars, Star Trek e fico muito chateada com a competição que o pessoal faz entre as duas franquias, coração de mãe é grande e tem espaço para todo mundo!

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  • Jéssica Caroline

    Gente, estou apaixonada por esta matéria. <3

  • Post sensacional!! Também sou professor dos pequenos e uma das melhores coisas é essa pequena discussão que temos sobre direitos, (des)igualdades e respeito ao próximo. Deles surgem inúmeras reflexões e sei que uma sementinha foi plantada lá, mas como você mesmo disse, esse estímulo tem que ser contínuo para que a sementinha cresça com raízes sólidas para toda a vida.
    Parabéns pelo trabalho e pelo post =D