Empoderamento | “Desprincesar”, não! Desencarcerar, sim!

É muito comum relacionarmos o empoderamento das meninas com características tipicamente masculinas, assim como é hábito considerarmos fragilidade, delicadeza, sensibilidade e outras características relacionadas ao sexo feminino como defeitos. Mas será que ser “princesa” é o oposto de ser empoderada? Nossa resposta: NÃO!

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Migas, também sou princesa, lembram?

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Eu também! E Princesa Disney!

E digo mais: Não, eu não acho que seja necessário “desprincesar” as meninas, assim como não acho que seja necessário transformá-las em princesas cor-de-rosa perfeitas. Em vez de desprincesar, que tal libertar as nossas meninas desse encarceramento todo e deixá-las ser quem elas querem ser, deixá-las livres?

É comum acharmos lindo quando as meninas se vestem como super heróis e personagens masculinos e torcermos o nariz quando elas (ou mesmo eles) se vestem de rosa e tutu. Mas por que mesmo? Porque ser feminina é considerado “ruim” pela sociedade, porque ser mulher e tudo o que está relacionado a isso “vale menos”.

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Meninas Super Poderosas – não são princesas, mas são lindas e empoderadas, cada uma com seu jeitinho próprio e especial <3

Eu mesma tenho gostos considerados muito femininos, femininos “até demais”. Gosto de bonecas, das princesas, de Barbie, de Hello Kitty, (já falei que gosto muitão mesmo de Hello Kitty?) e de filmes, animações, séries, livros e quadrinhos considerados como “de mulherzinha” e, portanto, menos valorizados.

No meio nerd não entender muito de super heróis, de quadrinhos e de vídeo games violentos é ser considerada “menos nerd” e rola até um preconceitinho com isso. Isso é opressão também, percebem? Meus gostos não se adequam ao esperado para uma mulher que se considera “nerd”, portanto, não me encaixo, assim como a Bela, ironicamente, a minha princesa favorita.

A princesa Bela era considerada uma garota “estranha” e “esquisita” por ser anti-social, gostar de ler e não dar trela pro bonitão da Vila

Por outro lado, não ligo muito para roupas da moda, saltos, não tenho comportamento de “princesinha fashion”, gosto de roupas mais práticas no dia-a-dia, estou sempre de tênis e por isso também sofro preconceito por ser uma mulher “que não se arruma” como o esperado pela sociedade. Complicado! Isso é super opressor também, percebem?

No mercado de trabalho, é esperado que sejamos princesas na aparência, mas guerreiras, super heroínas no comportamento e atitude e quem não está nesse padrão está o que? Fora! No meio nerd temos que ser enciclopédias de super heróis e saber citar todas as HQs não mainstream. Isso sim é que é prisão!

Moana, a mais nova princesa da Disney, não terá príncipe ou interesse amoroso. Aleluia!

Moana, a mais nova princesa da Disney, assim como Elsa, não terá príncipe ou interesse amoroso em sua história. Aleluia!

Bela, recatada e do lar?

Quando postamos ontem em nossa fanpage e na nossa comunidade do Facebook o polêmico vídeo do Estadão sobre a Escola de Princesas que está prestes a abrir suas portas em São Paulo algumas pessoas questionaram qual era o problema em ser “bela, recatada e do lar”, adjetivos que foram atribuídos em uma reportagem (que não linkarei aqui nem sob tortura) à Marcela Temer, esposa do, na época, vice-presidente, Michel Temer.

Não há problema algum. O problema, na verdade, é considerar que essa opção seja o único caminho “correto” que as mulheres valorizadas pela nossa sociedade possam escolher. Meninas não precisam ser apenas esposas, mães, cuidadoras do lar. Mas não ser recatada, bela, nem do lar é ser pior? Claro que não! Só precisamos dar opções para nossas meninas e meninos e não recriminá-los por suas escolhas.

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A franquia “Princesas Disney”: Mulan, a princesa “honorária”, é uma forte guerreira. Rapunzel e Jasmine tem príncipes “plebeus”, Tiana trabalha fora e sonha com seu próprio restaurante. Elsa e Anna exaltam o amor entre irmãs e Merida é uma princesa escocesa contestadora e que ama arco e flecha.

É claro que a franquia “Princesas Disney” ainda tem diversos problemas. Um deles é o modelo de beleza e “corpos perfeitos” vendido. Outro problema é a idealização do amor romântico, a mulher que só é verdadeiramente feliz e completa ao lado de um homem.

Apesar de diferentes grupos étnicos representados e de um pouco (ainda muito pouco, é verdade) de diversidade nos tons de pele e tipos de cabelo, ainda falta mostrar para nossas meninas que elas não precisam ser magérrimas, ter a pele e cabelos impecáveis, riqueza, príncipes apaixonados aos seus pés e vestidos com mangas bufantes para serem completamente felizes.

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Escola de Princesas: etiqueta, culinária, organização da casa e maquiagem

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Oficina de Desprincesamento: defesa pessoal, canto, trabalhos manuais e debates sobre empoderamento da mulher na sociedade contemporânea.

Detestei o vídeo da Escola de Princesas. Fiquei com pena das meninas e achei aquilo um retrocesso, um atraso mesmo, além de observar uma perigosa “doutrinação política” (quem diria, héim? E diziam que era o povo da “esquerda” quem fazia isso.). Por outro lado, apesar das aulas me interessarem bastante, implico com o termo desprincesamento também, porque é somente uma nova caixinha para colocarmos as meninas.

Entre a Oficina de Desprincesamento e a Escola de Princesas, eu ainda fico com o meio termo. Dá sim pra gostar de maquiagem e frufru e ser independente. Também é possível ser empoderada e delicada. Ser sensível e ao mesmo tempo praticar artes marciais. Ou gostar de cuidar da casa e ler quadrinhos. Vamos tirar nossas meninas desses rótulos opressores, por favor? Todas nós podemos ser muito mais felizes sendo quem a gente quiser. 🙂

Kathy

Kathy

Jornalista, sonserina, lannister, malkaviana, dobradora do reino da Terra, distrito 3. Transmito o legado nerd ao meu rebento, Samuel, que, pobrezinho, já reclama que ninguém da escola sabe quem é Sauron e nem fazem ideia do que significa conjurar um patrono.
Kathy

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