Entrevista | Juan Jose Campanella, diretor de “Um Time Show de Bola”

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Dia 29 de novembro estreia no Brasil o filme “Um Time Show de Bola”, uma animação muito da legal 100% latino americana e dirigida pelo argentino Juan Jose Campanella. Ele é o único vencedor sul americano do Oscar pelo amado “O Segredo de Seus Olhos”.

Pois bem. Ele esteve aqui no Festival do Rio e eu fui lá conversar com ele, um cara muito simpático, engraçado, um verdadeiro buena onda.

No filme, o menino Amadeo é o rei do pebolim. Um dia, ele vence o valentão da cidade, quem não é lá muito amigo das derrotas. Anos depois, o valentão se torna um ídolo do futebol à lá Cristiano Ronaldo e volta para buscar sua vingança. A cidadezinha, então, depende de Amadeo e seus amigos bonecos de pebolim para continuar existindo da mesma maneira.

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Como foi trabalhar com animação, sendo que está acostumado a dirigir atores?

Na verdade trabalhar com atores e animadores é muito parecido. Um animador é um ator, um bonequeiro, e também precisa saber as mesmas emoções que o ator. Precisa saber o porque da cena, o que sente o personagem, o subtexto e todas essas coisas que trabalhamos com os atores. Só que além disso, o animador tem a complexidade de codificar tudo e fazer os movimentos musculares no computador. Então a primeira etapa é igual, mas na segunda etapa você vai refinando, por exemplo, os movimentos faciais. O filme tem reações faciais muito sutis e nós usamos referências de cinema real, de atores como Orson Welles, Ingrid Bergman, e até de Gary Cooper, que nunca moveu muito o rosto! Fizemos diferente do que normalmente se faz, usando referências de outras animações.
Uma animação é mais complexa tecnicamente, e o processo é mais longo. Não é incomum dizer para um animador: “Você tem que levantar um milímetro o cantinho da sobrancelha direita”, coisa que se disser para um ator ele te dá um chute que você vai parar em outro país! (rs)

E você se divertiu com as novas possibilidades de posicionamento de câmera que a animação permite?

Esse também é outro trabalho lento. Você vai planejando, num processo que se chama pré-visualização. Se trabalha no computador com bonecos sem animar, só testando a câmera. É um processo de meses e a animação nos ofereceu a possibilidade de tornar este jogo de futebol muito mais dinâmico. O jogo começa como é normalmente na televisão e a gente vai entrando no campo aos poucos. Neste trabalho tudo leva meses, tudo… (risos) A gente conta a produção de “Um Time Show de Bola” como temporadas de uma série: “Se lembra que na segunda temporada estava o fulano?”, porque existiam personagens que ficavam meses e iam embora. Cada um com seus conflitos, seus problemas, suas histórias. A produção desse filme começou antes até de “O Segredo de Seus Olhos”

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E como começou seu interesse por animação?
Começou há muito tempo, mas só como espectador, não só pela animação “mainstream”, e não só como criança, quando eu gostava de Pernalonga e Looney Tunes. Também gosto muito de Bill Plimpton, de animação tcheca, de Svajer, gosto de todo tipo de animação. Mas quando a animação entrou no mundo dos computadores nos anos 90, e isso é uma dívida que temos com a Pixar, entrou no meu mundo. Deixei de ser um espectador e passei a ser um potencial produtor. Primeiro comecei a pesquisar muito, e parecia um sonho que nunca ia realizar por causa dos custos. Mas os custos foram baixando, comecei a entrar em contato com muita gente e montei uma empresa de efeitos visuais, a 100 Bares. Todos os efeitos visuais de “O Segredo de Seus Olhos” fizemos lá. Paralelamente, tivemos a ideia de fazer um filme baseado no conto de Fontanarosa, isso foi em 2007 e aqui estamos.

No começo do filme, a criança está brincando no Ipad. Como você vê essa relação entre a tecnologia e a brincadeira clássica?
Tenho que admitir, com grande culpa, que sou um jogador de Ipad e meu filho é o pobre que quer jogar pebolim. Isso porque posso jogar da cama, já que esse é o lugar da casa que cada vez eu gosto mais. (risos) Mas isso foi mesmo um ponto de partida e eu acho que é tudo uma combinação. Acho que tem jogos de computador que oferecem certas habilidades às crianças, como dedução, coordenação mais fina, e hoje não tem quem não saiba mexer no computador. Mas obviamente vai ser sempre importante brincar, não somente por causa do físico, mas também pela socialização que dão os jogos de equipe. Eu sofri a vida toda por ser um péssimo jogador de futebol. Inclusive, se a coisa não ficar violenta, dizer que você é um perna de pau é bom! É bom também aprender a receber críticas, já que hoje em dia nós pais somos incapazes de criticar nossos filhos e depois os coitados saem pelo mundo e ao encontrarem um chefe que o chama de estúpido ficam perdidos! É bom que no meio do jogo alguém te diga: “Seu idiota! Como você deixou passar essa bola?” (risos) É bom encontrar com certas verdades da vida, e isso o Ipad não oferece.

E como você escolheu as cores dos times?
A escolha das cores foi uma das grandes decisões do filme. Sabíamos que como impacto gráfico teria que ser lisos X listrados. Não queríamos que fosse nenhum cor de time grande da Argentina, nem da Espanha, que são as duas nações que produziram o filme. Também tinha que ser uma cor linda que ressaltasse de noite. No fim, chegamos a duas opções: essa e as cores do time Rosário Central, que era o time de Fontanarosa (o autor do conto), mas nos pareceu que seria muito local, apesar de ser uma bonita homenagem ao autor.

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Como você acha que o filme será recebido aqui no Brasil?
O filme não é somente sobre futebol. O futebol está para “Um Time…” como a guerra está para “Casa Branca”. O importante é o que acontece dramaticamente, e por isso na Argentina temos muito sucesso também com as meninas, que gritam no cinema tanto quanto os meninos. Eu espero que o recebimento seja o mesmo e isso depende de muitas coisas: de quando é lançado, de como está a dublagem… O cinema, hoje, eliminou a possibilidade que o cinema seja boca-a-boca. Os exibidores têm pouca paciência, e depende de como vai o primeiro fim-de-semana. Se justo nesse fim-de-semana acontece algo no Brasil, como uma grande manifestação, que chama a atenção de todo mundo e as pessoas não vão ao cinema, o filme morreu. O cinema está muito frágil.
Então espero que não aconteça nada e dia 29 de novembro, gente, por favor, não planejem nenhuma manifestação… Dilma, se cuida, fica em casa, toma uma sopinha quentinha… Porque dia 29 de novembro é dia de ver “Um Time Show de Bola” e ninguém pode estar pensando em outra coisa! (risos)


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biasiqueira7

Produtora que gosta de cinema, música, quadrinhos, games, livros, esportes e tudo o mais. O negócio é que quando ela gosta de alguma coisa, gosta de verdade! Passa os dias tentando arrumar tempo pra treinar arco e flecha e se manter atualizada nas 765 séries que assiste. Mãe da Alice (8) uma menina criativa, que ama ouvir histórias.

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