Feminismo | O discurso de Emma Watson não me representa (completamente)

(Eu queria vir aqui pedir uma licença por sair um pouquinho do tema maternidade nerd. Só um pouquinho, porque minha maternidade é feminista, minha nerdice é feminista, Harry Potter é nerd e, ah, sei lá.)

Se você esteve próximo da internet nos últimos dias, com certeza está sabendo do discurso que a Emma Watson fez no último sábado, dia 20. A atriz, que é bacharel em Literatura Inglesa pela Brown University (Ivy League, o que significa que é uma das melhores dos EUA), foi nomeada há seis meses como Embaixadora da Boa-Vontade da ONU Mulheres, e após visitar vários países da África e da Ásia, fez seu primeiro pronunciamento como porta-voz da instituição.

*Pausa para comentar o quão nervosa ela estava. Achei fofo.*

Para quem não fala inglês, o blog LiteraTortura fez uma tradução livre do discurso, que dura cerca de 10 minutos, mas o mais importante dele é que Emma se declara feminista. Num momento de backlash* tão extremo, quando personalidades da mídia se declaram feministas, é como se elas nos dissessem: não estamos loucas. O movimento feminista luta por causas reais, e precisa ser visto e entendido por todos.

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Mas eu não gostei do discurso de Emma. Antes que vocês me batam, eu gostaria de ressaltar que: achei bem legal a associação de Harry Potter ao feminsmo. Desculpa Emma, mas você ainda será conhecida como Hermione por algum tempo. E isso não é ruim. O público-alvo de Harry Potter é comprovadamente menos preconceituoso, então o discurso dela encontra eco naqueles que automaticamente se interessam por ela.

Meu problema está, na verdade, no conceito do HeForShe, a campanha lançada pela ONU na ocasião do discurso de Emma. Quero destacar alguns trechos e explicar onde eu vejo um problema, e quem sabe vocês me ajudam a achar uma solução.

Nós não falamos muito sobre os homens estarem aprisionados por estereótipos de gênero, mas eu posso ver que eles são, e que quando eles estiverem livres, as coisas mudarão para as mulheres como uma consequência natural.

Desculpa, Emma, mas nós falamos muito sobre isso. Eu sei que você está falando para uma platéia de um órgão que não tem como proposta ser exponente do feminismo, mas não dá pra falar de feminismo fingindo que uma das pautas reivindicadas por ele é novidade. Mas tudo bem. O que não está bem é você dizer que o feminismo é sobre homens. E que quando as coisas mudarem para os homens, a mudança virá de forma natural para as mulheres.

Não virá. Homens são privilegiados nessa sociedade de forma absurda – principalmente homens brancos, heteros e cissexuais. E não é garantindo mais privilégios a esses homens (como o “privilégio” de poder expressas suas emoções livremente sem ser julgado mais fraco por isso) é que as coisas vão mudar para as mulheres. Porque eu consigo enxergar perfeitamente um homem chorando em uma comédia-romântica e ainda ganhando 30% a mais do que uma mulher com a mesma qualificação e no mesmo cargo. Entende que o buraco é muito, mas muito mais embaixo do que mudar a percepção de masculinidade?

Eu quero que homens vistam essa camisa. Para que suas filhas, irmãs e mães possam ser livres de preconceito, mas que seus filhos também tenham permissão para serem vulneráveis e humanos também.

Eu entendo, Emma. Eu juro que entendo. Eu só não entendo como ceder a nossa voz aos homens pode ser algo bom. Eu não posso ter voz no movimento LGBTT porque eu não sou homo ou transsexual. Eu não sei como se sente um homossexual, nem posso querer pautar sua luta. Eu posso replicar sua voz, posso usar meu lugar na sociedade para ajudá-los a lutar por aquilos que eles consideram justo e necessário, mas eu não falo por eles.

Da mesma forma que eu não falo por todas as mulheres. Ou por todas as feministas. Mas certamente, um homem não pode falar por mim. Ao meu ver, o papel do homem no feminismo é o de apoiador, e isso é um tanto quanto confuso. Quando eu coloco isso, homens, principalmente de esquerda, tendem a reagir de forma protecionista: mas como assim eu não posso ser feminista? E entramos numa discussão. É difícil para um homem perceber que o papel dele não é o de discutir comigo sobre o que é ou não ser feminista, mas o de discutir com outros homens, que se recusam a ouvir a minha voz, sobre os privilégios que a sociedade garante a eles apenas por serem homens.

Meu medo com o HeForShe é que ele dê voz aos homens dentro de um movimento que não é deles. Desculpem, mas o feminismo não é para os homens. Eu quero que meu filho seja capaz de expressar suas emoções livremente, quero que ele não sinta como se precisasse subjugar outro ser humano (especialmente mulheres) para reafirmar seu papel na sociedade, mas não é dando a ele mais privilégios que eu farei isso. Eu preciso fazê-lo compreender que ele não é melhor que as mulheres, e que as coisas associadas à mulheres – como a demonstração de sentimentos – não são ruins. As mudanças sociais para os homens é que são consequência da igualdade de gêneros, mas elas não devem ser o foco principal.

Isso posto, eu ainda acho que algo de positivo pode vir dessa campanha. Na verdade, eu torço para isso, e espero que aconteça. Menos de 72h depois do discurso, Emma Watson começou a ser ameaçada de morte e a escória da internet que habita o fórum 4Chan ameaçou-a com o vazamento de fotos suas nua. Ninguém – ninguém – está comprando o blefe. Mas a resposta ao discurso de Emma mostra exatamente onde está o papel do homem no feminismo. É para essas pessoas que os homens precisam falar. É com esses homens, tão ameaçados por um simples discurso, que a discussão tem que ser travada. Essa é a hora de usar o HeForShe. Homens, levantem-se a favor de Emma. E mostrem que o apoio ao feminismo vai além de uma hashtag na internet, por favor.

Nanda Café

Nanda Café

Feminista que faz ballet e adora cor-de-rosa. Gosta de RPG, fantasia medieval, anime água-com-açúcar e é #teammarvel apesar de Sandman ser da Vertigo. Começou a estudar Quenya, mas como não dava pra fazer isso enquanto comia, desistiu de ser elfa e admitiu para si sua natureza hobitesca.
Nanda Café

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  • Andrezza

    Amei seu texto!!! Totalmente de acordo!!

  • Danielle Romais

    Nanda…
    Obrigada por esclarecer sua gastura com o discurso da Emma. Concordo que essa foi a parte do discurso que me incomodou, e muito. Tanto que nem compartilhei o video, mesmo que eu tenha compreendido sua intencao. Entendi depois desse seu texto como pode ser leviano transferir a luta das mulheres para os homens. Dah ateh a impressao que as mulheres nao sao capazes de lutar pelos seus direitos e precisam que homens reconhecam sua luta.
    Obrigada mesmo!!! Abriu minha cabeca! <3