Cinema | Festa no Céu: bonitinho mas ordinário

Fui assistir a Festa no Céu despretensiosamente. A única coisa que tinha como informação sobre o filme era o trailer que assisti antes da exibição de Boxtrolls (que é ótimo, mas esqueci de resenhar). Mas você sabia que o Festa no Céu é produzido pelo Guillermo del Toro? Se não sabia, o filme faz questão de te informar logo de cara: o nome dele é o primeiro que aparece nos créditos iniciais. Porque Guillermo del Toro na produção é quase melhor do que na direção e quase tão bom quanto no roteiro (O Orfanato é um dos meus filmes de suspense/terror favoritos).

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Festa no Céu é uma história contada para crianças sobre uma das tradições mexicanas mais conhecidas mundialmente: O Dia de Los Muertos. Apesar do nome lúgubre, a festividade celebrada no dia 02 de novembro tem raízes indígenas e passa longe da tristeza: os mortos são lembrados com festa, música e comidas, incluindo as famosas sugar skulls, ou caveirinhas de açúcar, uma referência imagética tão conhecida que se transformou até na Skellita Calaveras de Monster High. Na verdade, o filme não é especificamente sobre o Dia de Los Muertos, mas se trata de uma miscigenação de histórias tradicionais mexicanas.

La Muerte (ou Catrina) é a rainha da Terra dos Lembrados e amante de Xibalba, o rei da Terra dos Esquecidos. Apesar do interesse romântico, o rei quer governar a terra de Catrina e, em uma visita à Terra dos Vivos, fazem uma aposta envolvendo três amigos: dois meninos, Joaquim e Manolo, apaixonados por uma menina, Maria, e quem irá ganhar sua mão em casamento. Joaquim é filho de um grande herói da vila de San Angel, morto ao tentar lutar contra um grande bandito, o Chacal. Manolo é descendente de uma linhagem de toreadores, mas sua grande paixão – além de Maria – é a música. Ambos se sentem na obrigação de preencher os caminhos traçados por seus pais, e o filme trata da jornada de Manolo para escrever sua própria história e ganhar o amor de sua vida.

Agora vêm os spoilers e o mimimi:

Ugh. Que ano é hoje? Estamos em 2014 e ainda vemos um filme sobre dois rapazes disputando uma dama? Enquanto eu assistia, tentei refrear meu lado feminista-crítico: estamos falando de histórias tradicionais, o filme tentou trabalhar o papel feminino o máximo que pôde. Maria é, como todas as personagens femininas retratadas no filme, linda, magra, delicada. O único diálogo que ocorre entre duas personagens femininas é quando as outras moças da vila se juntam para criticar Maria, e isso não dura 2 segundos, fazendo com que o filme seja reprovado com louvor no Teste de Bechdel. Várias animações têm usado esse recurso de colocar uma personagem feminina minimamente bad-ass para acalmar os ânimos das feministas (quem, eu?). Vimos isso na Astrid de Como Treinar seu Dragão (alô Del Toro!), em Penny de Peabody & Sherman e agora em Maria.

Maria é uma personagem minimamente interessante: ela é a líder do grupo de amigos, tem posições ideológicas muito definidas e decididamente não aceita ser dada por seu pai em casamento como um objeto qualquer. Ela tem voz e quer ser ouvida. Vemos Maria lutando contra o Chacal, liderando uma revolução em San Angel e sacrificando sua felicidade pela vila. O pai de Maria é o general, o homem mais poderoso do local, então para todos os efeitos (inclusive de marketing), Maria é uma princesa. Rebelde. E coadjuvante.

Porque a história é toda sobre Manolo, numa jornada do herói clássica. E por clássica, eu quero dizer clichê. O filme não consegue fugir deles em nenhum momento. Ok, talvez em não ser maniqueísta. A história é previsível, mas não conseguimos enxergar um vilão bem estabelecido. Xibalba, apesar de trapaceiro, ainda é perdoado e adorado por Catrina. Joaquim, apesar de egoísta e detestável em boa parte do filme, ainda é amigo de Manolo e se redime no grande final. O único realmente malvado é o Chacal, e ele só aparece no terço final do filme, nem dá tempo de detestá-lo direito

Aliás, a narrativa é muito rápida. Sei que estou querendo demais de um filme infantil, mas o desenvolvimento da história se dá de forma desigual. O que talvez seja uma coisa boa, porque há bastante tempo eu não via meu filho tão quieto, sem se mexer ou dispersar durante um filme. As músicas são bem colocadas e mesmo que  eu tenha estremecido ao ouvir O Rei (Elvis, não Xibalba) em uma adaptação para a Língua Portuguesa, as músicas são utilizadas como diálogo tornando as traduções necessárias. Ele tem uma duração bacana para crianças pequenas (95 minutos), apesar de ter recebido a classificação indicativa PG (Parental Guidance Sugested). Compreensível: além das (muitas) cenas de luta, o filme trata sobre um tema muito complicado, a morte.

Inclusive, vale a pena levar as crianças só pela discussão que pode ser gerada a partir do filme. La Muerte é linda e divertida (mesmo pessimamente dublada por Marisa Orth) e a morte é vista de uma maneira muito leve. Eu gostei muito da forma como ela é celebrada, que é exatamente a maneira que tento passar para meu filho: os mortos sempre estarão presentes enquanto existir alguém que se lembre deles. Mas, de acordo com o filme, estão se divertindo muito mais na Terra dos Lembrados.

Classificação Indicativa: Livre
Classificação Pac Mãe: Concordo com o PG. Não seria um filme que eu colocaria para meu filho assistir sem acompanhamento.
Reclamação Pac Mãe: apesar das letras minúsculas nos cartazes promocionais, dificilmente animações estão “disponíveis também em 2D”. O 3D nesse filme é totalmente desnecessário, mal utilizado e em se tratando de um filme para crianças, leviano, candidata. Os óculos são chatos, incomodam e se sua criança for como a minha, irá assistir a pelo menos metade do filme sem eles. Se houver a opção de ver o filme sem o 3D, vá nessa. Porque o visual do filme é arrebatador e não merece ser visto todo embaçado.

Nanda Café

Nanda Café

Feminista que faz ballet e adora cor-de-rosa. Gosta de RPG, fantasia medieval, anime água-com-açúcar e é #teammarvel apesar de Sandman ser da Vertigo. Começou a estudar Quenya, mas como não dava pra fazer isso enquanto comia, desistiu de ser elfa e admitiu para si sua natureza hobitesca.
Nanda Café

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