FIQ 2015 | Exposição Heróica repensa personagens femininas de quadrinhos

“Olha essa, que linda!” “Moça, posso tirar uma foto com você”? Empolgadas, um grupo de meninas de uniforme escolar cerca a exposição Heróica, tocando nas roupas e elegendo as suas favoritas. Ao lado, uma cosplayer com o tom de pele parecido com o delas posa, imponente, personificando uma Hera Venenosa com raízes (com o perdão do trocadilho) indígenas, o olhar austero, dentro da personagem redesenhada por Laura Athayde. Tento fotografá-las, mas elas não param, indo de uma personagem à outra com brilho nos olhos.

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Compartilho isso com Ariane Rauber e Cris Peter, curadoras e organizadoras da exposição. Elas sorriem, realizadas: “Era exatamente isso que a gente queria!” A ideia surgiu de Cris, que queria convidar artistas mulheres para pensar em novos conceitos de super-heroínas a partir de roupas que elas tinham nos armários e transformar isso em um projeto fotografado por Ari, que abraçou o projeto e levou-o até a organização do FIQ, que deu todo o incentivo e apoio necessários para a realização da exposição.

Com esse aval, as duas foram modificando aos poucos o projeto inicial: as ilustradoras convidadas agora fariam o redesign de personagens já conhecidas e o projeto de fotos foi preterido para trazer cosplayers usando esse novo design. O apoio total da organização e a escolha de cosplayers não foi por acaso: Cris conta que um dos motivos que a levaram até essa ideia foi a polêmica ocorrida no FIQ de 2013 com uma cosplayer que foi assediada, então a proposta caiu como uma luva para ajudar o Festival na reconstrução de sua imagem, principalmente nessa edição que tem se mostrado super inclusiva.

“As ilustradoras escolheram as personagens por motivos pessoais, e a gente deu total liberdade para que elas recriassem personalidade, background, estética, cor, sexualidade, e foi assim que surgiu essa diversidade” diz Ariane. A personalidade das personagens é representada pelo figurino e a diversidade está, também, no traço e estilo de desenho. Além da Hera Venenosa de Laura Athayde, também estão na exposição a Feiticeira Escarlate, de Mary Cagnin, a Elektra de PriWi, a Mística do Studio Seasons e a Psylocke de Pri Tramontano.

As ilustradoras, aliás, são as que estão recebendo o melhor feedback: a Hera Venenosa indígena de Laura Athayde tem rendido entrevistas sem fim. E as reclamações? pergunto. “Ainda não, mas eu acho natural se alguém falar isso. Estamos trabalhando uma quebra de conceito, se a pessoa se apega a um personagem é normal que ela estranhe e significa que estamos fazendo o nosso trabalho, colocando as pessoas pra pensar, se questionando ‘Por que não como estava antes?'”.

Mas as respostas positivas mostram que esse FIQ é o momento propício para uma exposição como essa e que as mudanças no cenário de HQ vieram pra ficar. Cris fala sobre como a nova Batgirl também serviu como inspiração para a exposição e sobre não haver mais nenhuma dominação masculina nesse meio, mas que a exposição não vem como resposta: “O FIQ mesmo se estruturou de uma maneira que quer tratar todo mundo igual, quer colocar uma participação igualitária nas mesas, isso está sendo muito debatido. Isso é muito pertinente, mas não estamos querendo confrontar ninguém. Nós só queremos mostrar que existem essas ideias bacanas para as personagens e se aconteceu com a Batgirl pode acontecer com outras.”

E as cosplayers?

Com a participação do FIQ na produção, a escolha das cosplayers e execução dos cosplays foi feita com a participação das ilustradoras, mas se manteve inteiramente local. As modelos são mineiras e já estão acostumadas a rotina de fotos e ao calor das fantasias, além de representarem a diversidade de etnias e corpos retratada pela exposição. A Hera Venenosa, única modelo que está no evento todos os dias desde a abertura, se chama Sabrine Keyla e trabalha em uma farmácia quando não está personificando a guerreira Kamirrã. Ela faz cosplay há 3 anos e está muito feliz com a receptividade das pessoas à exposição. Fã de quadrinhos, ela já fez cosplay de Tempestade e Korra, e diz que até agora só ouviu coisas positivas.

E exposição dura todos os dias do FIQ e as cosplayers devem desfilar todos os dias, com ênfase no fim-de-semana.

Exposição Heróica
Quando: De 10 a 15 de novembro de 2015.
Onde: Festival Internacional de Quadrinhos, Serraria Souza Pinto, Belo Horizonte – MG
Quanto: De graça. 😀

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Nanda Café

Nanda Café

Feminista que faz ballet e adora cor-de-rosa. Gosta de RPG, fantasia medieval, anime água-com-açúcar e é #teammarvel apesar de Sandman ser da Vertigo. Começou a estudar Quenya, mas como não dava pra fazer isso enquanto comia, desistiu de ser elfa e admitiu para si sua natureza hobitesca.
Nanda Café

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