Frozen | Desenho está fazendo homens “se sentirem mal” ao empoderar meninas

A rede de televisão estadunidense Fox News é tipo a nossa revista Veja: tem uma audiência imensa, mas só fala asneira. Com um viés político abertamente republicano (a direita dos EUA), volta e meia a Fox chega às notícias internacionais por algum posicionamento muito conservador. Tipo esse:

"Será que filmes como Frozen estão magoando nossos homens?"

“Será que filmes como Frozen estão magoando nossos homens?”

Vou logo avisando que estou entrando em full-mode-feminazi-rampage, então FEMINISTA ALERT deste ponto em diante:

A notícia começa com a seguinte chamada:

“Foi chamado de Efeito Frozen e não, não estou falando da próxima tempestade. Será que filmes como o grande sucesso da Disney, sobre uma rainha de gelo e sua irmã, estão empoderando nossas garotas ao transformarem homens em tolos e vilões?”

Não satisfeitos com esse texto bacaninha, ele convida a presidente da associação Mulheres Preocupadas com a América para opinar sobre essa ideia. Não me entendam mal: eu sou toda sororidade, mais do que compreendo que uma mulher machista é vítima do patriarcado e que não cabe a mim julgá-la, mas olha. Amiga. Assim não dá pra te defender.

Penny Nance então começa um monólogo sobre como o problema não está exclusivamente com Frozen, mas com Hollywood, que frequentemente manda a mensagem que homens são supérfluos, burros e estão no caminho.

homem retratado por Hollywood

homem retratado por Hollywood

Ela continua dizendo que quando levamos nossas filhas ao cinema para assistir a esses filmes, temos que nos lembrar que nossos menininhos também estão lá, e que precisamos que eles saibam que eles são essenciais, heróis, porque nós querermos criar homens de verdade. Nesse ponto, nós concordamos inteiramente.

Mas aí ela começa de verdade. Que precisamos sim, empoderar nossas meninas, mas que não precisamos fazer isso ao custo dos homens [1]. Que famílias precisam de uma mãe e um pai [2]. Que precisamos encorajar a masculinidade [3]. E que mulheres amam homens [4].

Se você acha que estou inventando, pode conferir a entrevista toda aqui:

Estamos tão acostumadas com os homens (brancos, cisgênero, heterossexuais) serem o centro do universo que a partir do momento em que eles não são protagonistas, eles são efeito colateral? Sim, parece que sim. Desde a adaptação de Jogos Vorazes para o cinema que já deu pra encher duas Cantareiras de lágrimas de homens que não conseguem entender como é possível que uma heroína não dependa deles em momento algum.

No caso específico de Frozen, uma história sobre duas irmãs, os homens até que são necessários. Anna não teria chegado a Elsa sem a ajuda de Kristoff, mas isso é irrelevante. Eu levei meu filho para assistir Frozen 2 vezes no cinema. Ele já deve ter visto no mínimo umas 10 vezes na escola novamente. Ele adora o filme e seus personagens preferidos são Olaf e Sven, graças ao curta que antecedeu Frozen em outras animações da Disney. Da última vez que eu chequei, ele continuava homem, continuava fanático por carrinhos e continuava com uma auto-estima que beira o narcisismo. (“Mãe, eu sou lindo, né?”)

E tudo isso graças a mim. Sozinha. Mãe-solo. Autônoma. Porque famílias não precisam de uma mãe e de um pai. No próprio universo Disney a presença da figura materna é rara, mas os modelos de família monoparental do estúdio nunca foram um problema. Até agora, aparentemente. Famílias vêm em todos os formatos: duas mães, dois pais, uma mãe, um pai, uma mãe e um pai ou… duas irmãs! Órfãs! Que só têm uma a outra! O que elas vão fazer? Elas têm que decidir!

E olha que meu filho é criado por uma mãe feminista, hem. Que não incentiva a masculinidade porque isso é uma asneira sem tamanho. E mesmo assim, ele se recusa a usar a cor rosa, não permite que eu brinque com ele de carrinho e/ou luta, acredita que a força e a rapidez são os atributos mais importantes da vida e que princesas existem para serem resgatadas. Você se pergunta como? Porque eu sim. Todos os dias.

Faço questão de que ele esteja cercado de exemplos variados, conversamos sobre como meninas e meninos têm papéis semelhantes na sociedade, dou exemplos empíricos de que não preciso de um homem para me ajudar nem mesmo na hora de abrir um pote de palmito. Ainda assim ele é extremamente masculino. E vem alguém dizendo que precisamos encorajar isso ainda mais?

Filmes, desenhos e brinquedos genderizados todos exaltam a masculinidade. Só que o conceito de masculinidade é carregado de significados. Significa agir como homem. O contrário de mulher. Eu já fiz um texto explicando sobre como esse conceito é extremamente prejudicial para as nossas crianças, mas repito: todas as crianças, meninos e meninas, são seres humanos. Cheios de emoções e nuances. Exaltar a masculinidade é exaltar a agressividade e a insensibilidade e anular boa parte dessas emoções que “nossos meninos” sentem também. Meu filho é livre para chorar, para se sentir chateado, para expressar suas emoções, assim como ele é livre para não querer brincar comigo de carrinho. E eu o amo.

Sim, eu amo meu filho e ele é homem. Amo meu pai, meu avô, meu namorado. Como seres humanos individuais. Mas não amo os homens. Não amo o que eles representam. Não amo que, apesar do que a FOX diz, 74,4% do filmes de Hollywood tenham homens como protagonistas. Não amo que 95,9% dos filmes de Hollywood sejam dirigidos por homens e que 85,9% sejam escritos por eles também. Não sou eu quem está dizendo isso, é a própria Hollywood.

E com essas estatísticas se torna necessário, sim, que homens abram espaço para mulheres. Sim, vamos ver mais filmes com mulheres protagonistas e homens como alívio cômico. Sim, vamos ver mais filmes sobre histórias de mulheres com homens como coadjuvantes, ou sem homem algum, porque eles não são necessários nas vidas de mulheres.

Para que isso aconteça, precisamos de menos filmes sobre homens e feitos por homens. A Disney, como império do entretenimento que é, já percebeu isso. Não é Hollywood sozinha quem determina isso, é o público. E as mulheres, que compõem no mínimo 50% do público, querem ver mais mulheres. A prova disso é que Frozen é o filme de animação (e o quinto filme de forma geral) com maior arrecadação de bilheteria de todos os tempos, com mais de $1,2 bilhões. 

Essa dor de ter que abrir espaço para as mulheres terem visibilidade também vai ser sentida cada vez menos. A cada novo Frozen, Divergente ou Jogos Vorazes, é uma esperança a mais de que meu filho sequer cogite a possibilidade de que aquele filme deveria ter um homem. Porque mulheres também podem ser protagonistas, e não é a FOX quem vai impedir o curso dessa representação de mudar.

Nanda Café

Nanda Café

Feminista que faz ballet e adora cor-de-rosa. Gosta de RPG, fantasia medieval, anime água-com-açúcar e é #teammarvel apesar de Sandman ser da Vertigo. Começou a estudar Quenya, mas como não dava pra fazer isso enquanto comia, desistiu de ser elfa e admitiu para si sua natureza hobitesca.
Nanda Café

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