#gamergate | O machismo extremo no mundo dos games

Todo mundo aqui em casa joga videogame. Eu sou o que meu namorado insiste em chamar de casual gamer: passo períodos curtos de tempo jogando intensamente um jogo que não exige muita dedicação. Os casual gamers compõem uma grande parcela dos jogadores de hoje, graças à ampliação das plataformas móveis, como celulares e tablets. Talvez – e não só por isso – o número de jogadoras mulheres também tenha aumentado: hoje, elas compõem 45% do público gamer nos EUA e 52% no Reino Unido, ou seja: mais da metade das pessoas que jogaram algum tipo de videogame por lá nos últimos tempos se identifica como mulher.

O crescimento do número de pessoas jogando (isso inclui Candy Crush, Angry Birds e aquele joguinho da fazenda que não para de mugir no seu celular) aumentou o número de pessoas fazendo jogos, seja de forma independente, seja através de empresas; e o número de pessoas falando sobre toda essa indústria. O mundo geek, ou nerd, ou como você quiser chamar, é explicitamente machista, e mulheres lutam para encontrar uma voz nesse meio há várias décadas. Não é diferente no submundo dos games: cada vez mais mulheres se incomodam com a forma como elas são representadas nos jogos triple A (blockbusters – jogos produzidos e marketados por grandes empresas), e um número crescente delas resolveu entrar na indústria para desenvolver alternativas a isso, além de estarem cada vez mais tentando falar sobre o assunto.

E aí entra a Anita Sarkeesian. Anita é uma estudiosa e crítica da cultura de massa, que se tornou famosa em 2011 quando fez a série Tropes x Women, que analisava padrões de representação de mulheres em produtos culturais como filmes e séries. Seus vídeos, extremamente didáticos, também abordavam questões como o sexismo da LEGO, críticas a livros e filmes e etc. Em 2012, ela usou o Kickstarter para arrecadar fundos para a produção de uma nova série de vídeos, dessa vez falando sobre a representação da mulher nos videogames. Sua meta inicial de 6 mil dólares para produzir 5 vídeos, se transformou em quase 160 mil dólares e a promessa de 12 vídeos. E sua vida virou um inferno.

Anita lançou o primeiro vídeo da nova série há 1 ano, mas os comentários em seus vídeos já estavam fechados bem antes disso. Desde o sucesso estrondoso de seu Kickstarter, ela sofria ameaças frequentes e uma série de ações movidas contra ela organizadas no celeiro dos trolls da internet: o 4chan. Nesse post, ela fala sobre tipo de tratamento que costumava receber online e nesse aqui ela dá uma amostra [TW: violência]. Em abril desse ano, Anita recebeu o Prêmio de Embaixadora do Game Developers Choice. Em setembro, ela recebeu ameaças de morte atreladas à divulgação de seu endereço e teve que sair de sua casa para um local desconhecido.

Outra mulher na indústria de jogos teve destino semelhante, quando após um término de namoro conturbado, seu ex-namorado fez um post dizendo que ela trocava sexo por reviews positivas de seu jogo – que nem era tão bom assim. Zoe Quinn também recebeu ameaças de estupro, teve seu endereço divulgado e precisou ir passar um tempo na casa de amigos. O Kotaku, site no qual foi publicada uma das (várias) reviews positivas do jogo de Quinn, esclareceu que não houve nenhuma conduta equivocada da parte de seu jornalista, que não esteve romanticamente envolvido com a desenvolvedora. Nem o Kotaku nem o jornalista tiveram que sair de suas casas, no entanto.

Esses dois episódios, que mostram o tratamento que as mulheres recebem em meio à “comunidade gamer”,  suscitaram a tag #gamergate, que se desenrolou para vários outros problemas da indústria e do jornalismo de games. Sarkeesian continuou fazendo palestras em festivais e instituições de ensino, até que ontem, dia 15 de outubro, os trolls ameaçaram um tiroteio em massa em uma Universidade onde ela falaria. Os EUA levam extremamente a sério qualquer ameaça terrorista, e com o recente histórico de Sarkeesian, isso se tornou uma pauta enorme. Graças a isso, burlaram a primeira regra de convivência na internet: não alimente os trolls. Deram um grande prato de manchetes para eles, e como eles gostam de manchetes.

Você pode pensar que “É só um cara que ligou para a escola e ameaçou abrir fogo contra estudantes.” Exatamente. É um cara que ameaçou abrir fogo contra estudantes por causa da presença de uma mulher que “só faz vídeos no youtube”. Apenas isso. As coisas estão totalmente fora de proporção se você consegue diminuir o fato de vidas serem ameaçadas por simples vídeos. E por que os vídeos dela incomodam tanto? Porque são verdadeiros. Anita não diz que videogames causam o machismo, assim como hoje em dia, ninguém acredita que videogames causem a violência. O machismo nos games é perpetuado e espelha diversas outras atitudes da sociedade, mas em vez de reconhecer isso e mudar esse aspecto cultural, os homens privilegiados por ele lutam com todas as armas para mantê-lo.

Sarkeesian não é uma crítica de videogames, ela é uma crítica cultural. Ela não avalia gráficos, jogabilidade, qualidade do jogo. Seu objeto de estudo é cultura pop e a representação da mulher nessa cultura. Há quem critique seus vídeos por fazerem recortes dos jogos e mostrarem situações fora do contexto, mas honestamente, em que contexto o trope de Mulheres como Decoração de Fundo é aceitável? A posição em relação os vídeos dela é extremamente protecionista do status-quo: ela está exagerando, está descontextualizando, está mentindo. A própria Sarkeesian falou recentamente sobre a atitude mais radical que você pode ter: acreditar em mulheres quando elas falam sobre suas experiências.

Então se uma mulher – e  uma mulher com bastante bagagem acadêmico-cultural, diga-se de passagem – diz que esses estereótipos incomodam as mulheres, acredite nela. Porque como eu disse lá em cima, todo mundo aqui em casa joga videogame. E eu torço para que meu filho possa jogar títulos onde mulheres não sejam as donzelas em perigo, ou usadas como decoração. Eliminar o machismo nos jogos não vai eliminar o machismo na sociedade, mas ajuda a influenciar a atitude que as pessoas que jogam têm em relação às mulheres na sociedade (que não é das melhores). Eu quero que videogames sejam aliados, não vilões. E você?

Nanda Café

Nanda Café

Feminista que faz ballet e adora cor-de-rosa. Gosta de RPG, fantasia medieval, anime água-com-açúcar e é #teammarvel apesar de Sandman ser da Vertigo. Começou a estudar Quenya, mas como não dava pra fazer isso enquanto comia, desistiu de ser elfa e admitiu para si sua natureza hobitesca.
Nanda Café

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  • Cerejinha

    Poderia por favor deixar esse nonsense americano fora do canal? Já tem uns trezentos idiotas gritando contra trezentos idiotas no Twitter 24 horas por dia, deixa eles brigarem ao invés de tentar pregar essa discussão louca no seu blog.

    • nandacafe

      oi cerejinha, tudo bem? poxa, temos uma nova editora no blog! que legal, eu não sabia. obrigada por pautar as publicações daqui, claro que vamos seguir a sua linha editorial de agora em diante. beijos.

  • Zezinho Transão

    Quando não usa o MRG para tentar ganhar Ibope isso aqui fica bem parado, né Nanda?

  • Vitor Urubatan

    Nossa cara, às vezes navego no blog e vejo que tem notícias de 2014. Estou perdido no futuro aqui rsss.

    É estranho imaginar que uma pessoa (mulher ou não) não tenha o direito de se expressar diante de algum assunto. Pow nunca imaginei que a pessoa criticar um jogo pudesse causar em uma ameaça real de morte, violência e abuso.
    Caraca é só um jogo e nego fica enlouquecido porque a mulher expressou uma visão racional de um fato.
    Eu fico pensando que talvez fosse um homem a repercussão fosse outra.

    Só lamento pelo que essas pessoas passaram e injustamente sofreram.

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