Blog | Jogos Vorazes e a redenção pela maternidade

*O texto abaixo contém spoilers do final da saga Jogos Vorazes, tanto do livro quanto do filme*

Essa semana li um texto que atribuía a queda na arrecadação da franquia Jogos Vorazes ao despreparo de seus fãs para lidar com a densidade crescente da história. Numa comparação inevitável com Crepúsculo (que eu mesma já fiz por aqui), o autor afirma que enquanto a série dos vampiros adolescentes foi feita do começo ao fim pensando no entretenimento dos fãs, talvez a audiência de Katniss esteja perdendo a crítica central da obra: “O que os dois primeiros filmes têm que os dois últimos não têm? A resposta é ‘pão e circo’. O primeiro filme cria uma série de ‘heróis’ e ‘vilões’ nessa circunstância inerentemente horrífica para que o público torça quando algumas crianças são assassinadas, mas chore quando outras crianças morrem.” Os últimos dois filmes não são assim. Não tem Katniss sendo paparicada e vestida para agradar os olhos da Capital, não tem vilões palpáveis para satisfazer a ânsia maniqueísta a qual Hollywood nos acostumou.

Após dois Jogos Vorazes sofrendo abusos físicos e psicológicos inimagináveis, Katniss está destruída. Ela viu Rue morrer em seus braços, Cinna morrer na sua frente, Gale sendo espancado, seu Distrito sendo bombardeado e transformado em cinzas, Peeta sequestrado e feito de fantoche pela Capital. Somos apresentadas a uma Katniss apática no mundo cinzento do Distrito 13. Além do Transtorno Pós-Traumático, Katniss também está em uma crise de depressão severa, assim como sua mãe esteve por muito tempo.

Apesar de não fazer o tipo maternal, Katniss foi a mãe de Prim durante o período de depressão da mãe de ambas. Cabia à Katniss alimentar e cuidar da irmã, o que a fez desenvolver uma relação perturbada com sua mãe e extremamente protetiva de Prim. No livro, que é escrito em primeira pessoa, só vemos um lado suave de Katniss quando se trata da irmã: mesmo com Peeta ou Gale seus pensamentos são calculados e pragmáticos. Ela é uma caçadora, heroína, guerreira e cheia de falhas, por isso o epílogo do livro – e do filme – vem como uma decepção para quem acompanhou sua história.

Katniss se torna mãe.

Isso poderia ser incrível. Como disse acima, Katniss não faz o tipo maternal porque a maternidade é romantizada em todas as mídias. Estamos acostumadas à imagem sacramentada da maternidade como redenção, como sacrifício, a mãe devota, amorosa. Ao apresentar uma mãe quebrada, cheia de cicatrizes, que não deixou de ser quem ela era apenas porque teve filhos, a obra poderia ter se mantido fiel à personagem e aberto uma discussão incrível sobre maternidade. Mas não é isso que acontece.

O que vemos no filme é uma cena com fotografia em tons pastel que nos tira de Panem e nos coloca diretamente no Condado. A grama verde contrastando com o vestido florido de Katniss, que acalenta um bebê enquanto Peeta brinca com uma criança mais velha, faz parecer que a maternidade apagou todos os traumas e a heroína imperfeita se tornou A Mãe Perfeita. É um anticlímax enorme, pois vem pouco depois de uma das cenas mais intensas do filme, que é quando Katniss volta para o Distrito 12 e se dá conta da perda de Prim. Ali temos um vislumbre do quanto ela está machucada e a impressão de que nada poderá curá-la. Exceto a Maternidade Redentora™.

O que é um problema enorme no filme, no livro consegue se tornar ainda pior, porque descobrimos que Katniss sequer queria ter filhos:

“Levou cinco, dez, quinze anos para que eu concordasse. Mas Peeta os queria tanto. Quando eu a sentir se mexer dentro de mim pela primeira vez, fui consumida por um terror que parecia tão velho quanto a vida. Só a alegria de segurá-la em meus braços foi capaz de domá-lo. Carregá-lo foi um pouco mais fácil, mas não muito.”

Na cena, os filhos de Katniss estão brincando na Campina, um dos locais onde Katniss encontrou os esqueletos da população dizimada do Distrito 12. A cena é forte, significativa. Mas ainda incomoda. Katniss não queria ter filhos: Peeta queria. E ele insistiu até que ela cedesse. Mesmo sabendo de seus medos, mesmo sabendo de seus traumas. A gravidez – as duas – foram experiências terríveis para ela. Como seria diferente? A maternidade compulsória  nunca é uma boa experiência.

E aí está ela novamente: a romantização da maternidade. A ideia de que o amor incondicional nasce com o bebê e que todos os nossos medos, anseios e tudo de ruim irá desaparecer assim que seguramos aquele pequeno ser humano que saiu do nosso corpo. Não existe mentira maior contada pela mídia. Cada pessoa tem uma experiência diferente, mas um sentimento é geral: o medo só aumenta. O medo de que algo aconteça ao bebê. O medo de não saber ser mãe. O medo de fazer tudo errado. O amor, assim como a maternidade, são construídos ao longo do tempo e não existe ocitocina capaz de apagar nossa vivência anterior.

Katniss ainda tem pesadelos. Ela os terá enquanto viver. Porque ela existia antes de ser mãe, e continuará existindo com todos os traumas. Assim como qualquer mulher. Ter filhos é incrível, mas ser mãe não é redentor.

Nanda Café

Nanda Café

Feminista que faz ballet e adora cor-de-rosa. Gosta de RPG, fantasia medieval, anime água-com-açúcar e é #teammarvel apesar de Sandman ser da Vertigo. Começou a estudar Quenya, mas como não dava pra fazer isso enquanto comia, desistiu de ser elfa e admitiu para si sua natureza hobitesca.
Nanda Café

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