Barbie Programadora |livro ensina que meninas precisam de ajuda masculina para programar

Vocês lembram que no começo do ano a Mattel iniciou uma campanha nas redes sociais chamada #unapologetic? A ideia era basicamente mandar um beijinho no ombro para todos aqueles que criticam a Barbie, pois ela não tinha culpa de ser linda e bem sucedida. A empresa começou a bater na tecla de que as pessoas deveriam observar a boneca pelas possibilidades que ela apresentava às meninas: a Barbie já havia sido médica, veterinária e até presidente.

Seguindo essa linha de raciocínio, a Mattel publicou dois livros em junho para acompanhar o lançamento de dois modelos da Barbie: “I can be an Actress” (Eu posso ser uma atriz) e “I can be a computer engineer” (Eu posso ser uma engenheira da computação). Além de profissional, Barbie se apresentava em uma carreira numa área na qual mulheres têm bastante dificuldade 1. em se interessar 2. entrar e 3. permanecer: a sigla STEM (Science, Technology, Engineering and Mathematics ou Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática). E ainda vinha com 50 adesivos!

Pessoas compraram o livro. Abriram o livro. E não foi bonito…

O livro começa com Barbie trabalhando na mesa do café da manhã. Sua irmã, Skipper, pergunta o que ela está fazendo: “Estou fazendo um jogo que mostra para as crianças como os computadores funcionam. Você faz um cachorrinho robótico fazer truques ao encaixar blocos coloridos iguais!” Ok, a intenção parece legal. Será que a Skipper pode testar seu jogo, Barbie?

"Eu só estou criando as ideias de design. Vou precisar da ajuda do Steven e do Brian para transformar em um jogo real!"

“Eu só estou criando as ideias de design. Vou precisar da ajuda do Steven e do Brian para transformar em um jogo real!”

Is this real life? “Eu posso ser uma engenheira da computação” porém preciso dos meninos para programar alguma coisa? Eu não quero nem entrar no mérito das diferenças entre Ciência da Computação, Engenharia da Computação, Análise de Sistemas e cursos correlatos, a proposta do livro era mostrar que mulheres podem ser programadoras, e falha miseravelmente nisso.

Não somente a Barbie não consegue programar, como ela também consegue infectar o computador de Skipper com um vírus.

"Barbie tenta enviar seu design para Steven, mas de repente a tela começa a piscar. - Que estranho - diz Barbie. Barbie e Skipper tentam reiniciar o computador, mas nada acontece. - Parece que você tem um vírus, irmãzona - diz Skipper"

“Barbie tenta enviar seu design para Steven, mas de repente a tela começa a piscar.
– Que estranho – diz Barbie.
Barbie e Skipper tentam reiniciar o computador, mas nada acontece.
– Parece que você tem um vírus, irmãzona – diz Skipper”

…E ainda precisa da ajuda de Skipper para reiniciar o computador E para diagnosticar o que há de errado com ele. Depois que Skipper vai pra escola (não sem antes ameaçar uma guerra de travesseiros com Barbie, porque é isso o que acontece entre irmãs, obviamente) Barbie tenta consertar o computador sozinha até que… Steve e Brian chegam! Eles consertam o computador, programam o jogo e Barbie fica com todo o crédito no final.

Esse livro está revoltando pais, mães e mulheres programadoras nos EUA. As reviews da Amazon são terríveis (ou incríveis, depende do seu ponto de vista):

Esse é provavelmente o livro infantil mais irresponsável já publicado. O título deveria ser uma pergunta: “Posso ser uma engenheira da computação?” e a resposta, de acordo com esse livro, é não! Barbie bobinha, deixe esse negócio de programação complicada para os meninos! Vai ser mais rápido se eles apenas fizerem para você. aarrrrggghhhh

Hoje, qualquer pessoa com acesso a internet sabe que as mulheres fazem parte da base fundamental da programação e computação. Ada Lovelace e Hedy Lamarr são nomes que devem constar das referências de pessoas da área. Aliás, Hedy Lamarr era atriz E engenheira (ela criou um mecanismo que serviu como base para a telefonia moderna). Será que a Mattel não conseguiu digitar isso no Google e descobri-la, para usar como referência?

Não tem jeito. A Mattel torna a Barbie cada vez mais indefensável. Enquanto isso, nós ficamos com qualquer alternativa para as nossas crianças…

Nanda Café

Nanda Café

Feminista que faz ballet e adora cor-de-rosa. Gosta de RPG, fantasia medieval, anime água-com-açúcar e é #teammarvel apesar de Sandman ser da Vertigo. Começou a estudar Quenya, mas como não dava pra fazer isso enquanto comia, desistiu de ser elfa e admitiu para si sua natureza hobitesca.
Nanda Café

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