Livros | Simon vs. a Agenda Homo Sapiens

Ler é decididamente meu passatempo favorito, e foi desde muito tempo. Quando eu era mais nova, devorava toda e qualquer publicação que aparecia na minha frente – independente se ela era boa ou não, adequada para minha idade ou não, e na maioria das vezes não era. Alguns livros eu li repetidas vezes na pré-adolescência e eles foram indispensáveis para a minha visão de mundo e adaptação a essa fase tão complicada, tipo Harry Potter, que comprovadamente ajuda a tornar pessoas mais empáticas e menos preconceituosas. Se Harry Potter, que se passa em um universo próprio repleto de elementos fantásticos, é capaz de colocar a criançada pra pensar em várias coisas, o que dizer de Simon vs. a Agenda Homo Sapiens?

O romance de estreia de Becky Albertalli foi lançado pela Intrínseca em março e fala sobre homossexualidade, relacionamentos interpessoais, amizade e crescimento através da história de Simon e Blue. Simon é um estudante do penúltimo ano do ensino médio e é gay. Há alguns meses vem trocando e-mails com Blue, um correspondente secreto de sua escola que também é gay, mas a identidade de ambos é mantida secreta para que eles se sintam à vontade para contar tudo um ao outro. O livro começa quando a troca de e-mails é descoberta por Martin, um colega da turma de teatro de Simon que acessa sua conta após um descuido e faz uma captura de tela das mensagens, que usa para chantagear Simon durante boa parte do livro.

A gente poderia começar pelo fato do livro ter um protagonista gay, mas ele é somente um dos personagens incríveis nessa história cheia de representatividade. Simon, como boa parte dos jovens estadunidenses de classe média, cresceu na cidade que não é exatamente a capital, mas não chega a ser interior da Georgia – estado sulista conhecido por seu conservadorismo, racismo e vários ismos não muito bons. Ele tem dois amigos de infância, Leah e Nick, que não sabem que ele é gay. Na verdade, a única pessoa que sabia que ele era gay, até Martin aparecer, era o Blue.

Simon também tem uma amiga recém-chegada à escola, a popular líder-de-torcida Abby. E se você está imaginando a personagem loira, magra e rica, pense novamente: Abby é negra e não está exatamente na mesma classe social de Simon e seus outros amigos. A crítica social em torno de Abby se dá em várias partes do livro, como quando ela tem que ficar até tarde na escola porque o ônibus que leva os alunos que moram em seu bairro – um bairro distante e segregado de maioria negra e pobre – é o último a sair. Simon se incomoda com essa disparidade de privilégios, questionando várias vezes como Abby e os outros alunos negros têm de se esforçar muito mais apenas para chegar e ir embora da escola todos os dias.

Isso não impede Abby de ser a garota por quem praticamente todos os personagens masculinos do livro estão apaixonados. Martin chantageia Simon para conseguir um encontro com Abby, Nick, o melhor amigo de Simon, está apaixonado por ela e Abby é o centro das atenções em todos os lugares para onde vai – e não poderia dar a mínima para isso. Abby é inteiramente consciente de sua beleza e atratividade, e é a primeira para quem Simon conta sobre a homossexualidade.

Abby é coadjuvante, mas enquanto o livro conta a trajetória de Simon e Blue, milhares de coisas estão acontecendo ao mesmo tempo – e boa parte delas por causa de Abby. Acompanhamos as amizades de infância de Simon amadurecerem e desaparecerem por um triângulo amoroso impossível. Leah, sua melhor amiga, é apaixonada por Nick, que não a vê com os mesmos olhos. Leah é outra personagem incrivelmente interessante com características fora do padrão: ela é sarcástica e um pouco amarga, é otaku do tipo que lê fanfics Yaoi e desenha fanarts do mesmo tipo, se fantasia de personagens de anime para festa de Halloween e é gorda. Não é que ela seja “gordinha” ou “esteja acima do peso”. Leah é gorda. E isso a incomoda, porque sua auto-estima é visivelmente afetada por mais que Simon insista que ela seja linda (tudo bem, ela é linda, mas linda não é o antônimo de gorda). Essa também é uma questão trabalhada no livro, ainda que de forma mais superficial do que a questão racial, mas que é muito importante ser abordada em um livro infanto-juvenil.

Becky Albertalli, a autora, tem dois filhos e é psicóloga. Foi orientadora de um grupo de adolescentes em não-conformidade de gênero por muitos anos e suas experiências se traduzem claramente e verdadeiramente através da narrativa de Simon. Todos os personagens têm características distintas e são muito bem trabalhados: dos alunos que cercam Simon até a sua família (a mãe dele também é psicóloga). Se você não se identificar com Simon, certamente se identificará com alguém que o cerca porque é todo mundo tão real. O pai de Simon, por exemplo, é mestre em piadas de pais (também conhecidas como piadas sem-graça) – algumas delas homofóbicas – até que Simon joga isso na cara dele após sair do armário. Muitas vezes fazemos piadas e comentários sem saber que podemos afetar pessoas próximas a nós, porque nem tudo está visível.

O dilema que acompanha Simon – e Blue – durante toda a história é justamente essa questão de sair do armário. O título do livro Simon vs. A Agenda Homo Sapiens é um trocadilho com a questão da agenda homossexual – termo utilizado pelos conservadores para criticar as pautas igualitárias na política. Simon e Blue não se conformam com a necessidade de gays terem que sair do armário.

É mesmo muito irritante que hétero (e branco, diga-se de passagem) seja o normal e que as pessoas que precisam pensar sobre sua identidade sejam só aquelas que não se encaixam nesse molde. Os héteros deveriam mesmo ter que sair do armário, e quanto mais constrangedor fosse, melhor. O constrangimento deveria ser obrigatório. Seria essa a nossa versão da Agenda Homossexual?”

Esse tipo de questionamento é precisamente o que pré-adolescentes e adolescentes precisam ler, principalmente com tanto retrocesso acontecendo na política brasileira. Simon poderia ser qualquer um: ele é fã de Harry Potter, revisa mil vezes seus e-mails com medo de mandar algum erro ortográfico para Blue – e é vítima do autocorretor mais de uma vez – se apaixona e desapaixona por colegas de escola, vai à festas, bebe e faz besteiras, dá mancada com amigos, faz as pazes. Não há absolutamente nada que torne Simon diferente a não ser o fato dele ser gay. E por que isso deveria ser relevante, já que não é o que define o caráter dele?

Eu não quero dar (mais) spoilers, portanto não vou falar sobre Blue – apenas que a revelação de sua identidade é mais uma coisa que coloca os padrões de Simon à prova. É a cereja no bolo de amor que é esse livro repleto de representatividade. Apesar de ter um protagonista homem branco cis, ele não é hétero! As personagens femininas, incluindo as irmãs de Simon (Norah é a melhor!) são fantásticas e os masculinos, com exceção de Simon e Blue, são meio sem-sal. Até Martin, que é pra ser um personagem controverso, não tem um desenvolvimento tão bom quanto o dos outros personagens. Mas hey, não é fantástico ver o mundo fora do padrão patriarcal?

É, é fantástico sim. E é por isso que Simon Vs. A Agenda Homo Sapiens é um dos melhores lançamentos literários do ano, e deveria ser dado de presente à todos os pré-adolescentes, adolescentes, bibliotecas escolares e bibliotecas públicas. Ele não traz verdades absolutas, é um romance ficcional, afinal, mas traz questionamentos e abalos muito necessários ao status-quo. Ah, e é escrito por uma mulher, então, bonus points.

P.S.: Assim que terminei esse post, abri o Facebook e me deparei com o relato de Gabriel. Histórias como essa são a prova de porque precisamos discutir, revisar e acabar com estereótipos e padrões.

Simon vs. A Agenda Homo Sapiens
Intrínseca, 270 páginas
Classificação Pac Mãe: 12 ou 14 anos (depende da maturidade da criança)
Opinião Pac Mãe: Excelente. Maravilhoso. Necessário.

Nanda Café

Nanda Café

Feminista que faz ballet e adora cor-de-rosa. Gosta de RPG, fantasia medieval, anime água-com-açúcar e é #teammarvel apesar de Sandman ser da Vertigo. Começou a estudar Quenya, mas como não dava pra fazer isso enquanto comia, desistiu de ser elfa e admitiu para si sua natureza hobitesca.
Nanda Café

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