Livros | Sombra do Paraíso – Editora Aleph

Como todo nerd em treinamento, o filhote é super interessado em astronomia. Ele ganhou um telescópio do avô e costumamos acompanhar o calendário de eventos meteorológicos e assistir a chuvas de meteoros ocasionais. Observar aqueles pedaços de meteoritos passando tão próximos da Terra é emocionante: e se um deles, um pouco maior, cair por aqui? E se eles não forem corpos inanimados, mas sim, veículos alienígenas?

Essa é a premissa de Sombra do Paraíso, lançado em Maio pela Editora Aleph. Escrito por David S. Goyer, roteirista de Batman: O Cavaleiro das Trevas e O Homem de Aço, com Michael Cassutt, o livro é um sci-fi que trata sobre a expedição de duas equipes de astronautas a um NEO – Near Earth Object ou Objeto Próximo à Terra, batizado de Keanu (trocadilhos, sempre). A tripulação americana é liderada por Zack Stewart, o típico cara americano cujo sonho de infância era ser astronauta, cargo que conseguiu a duras penas, e quando finalmente atinge o topo da carreira, que é liderar uma missão à lua, sofre uma perda trágica e se vê no fundo do poço, com uma filha adolescente para criar.

Até que num futuro não muito distante (os primeiros sinais de Keanu são detectados em 2018), uma equipe da Coalisão (poderia ser o BRICS, mas Goyer & Cassut preferiram omitir a China) resolve lançar uma missão para explorar a superfície do NEO, que passaria muito próximo à Terra. Algo como a missão da sonda Philae, porém tripulada. Com medo de ficar atrás na corrida espacial, os EUA resolvem alterar o destino de sua missão para a Lua e também direcioná-la a Keanu, iniciando o livro em uma corrida e competição quase cansativa: EUA x Rússia, até quando?

Cientistas indianas lançando uma missão para Marte.

Cientistas indianas lançando uma missão para Marte.

No entanto, isso é o mais atraente do livro: é tudo muito tátil. A Coalisão existe de fato e a Índia tem um programa espacial extremamente avançado, a exploração de NEOs é de interesse de toda a comunidade científica e o único motivo para os EUA enviarem uma missão tripulada seria se outro país o fizesse primeiro. Para um não-leitor de sci-fi, Sombra pode ter um início um pouco assustador. Termos técnicos de controle de vôo, desenhos detalhados das naves usadas, mas a história de Sombra é perfeitamente real.

A história, não os personagens. Talvez pelo histórico de Goyer de escrever para cinema, ou pelo interesse em transformar o livro em uma obra cinematográfica posteriormente, cada personagem de Sombra é um clichê ambulante, dos protagonistas aos coadjuvantes. Logo nos primeiros capítulos ainda não sabíamos nenhum detalhe da aparência de Zack, o protagonista, mas seu interesse amoroso já fora descrita como “loura, atlética, poderia ser modelo se não fosse astronauta” no mínimo 3 vezes. Sua filha também é uma adolescente apática clichê, porém serve como crítica ferrenha à crianças cuja infância foi toda documentada em redes sociais.

Em alguns momentos, temos esperanças de que Sombra do Paraíso não vai ser sobre a jornada de Zack Stewart, já que sci-fi é um dos gêneros onde se pode explorar melhor a amplitude de pontos-de-vista e personagens, porém os autores não conseguem fugir disso. Não dá pra escapar da sensação de que estamos lendo um filme como Armageddon ou Interestelar. Não que isso seja ruim, mas poderia ser tão… melhor.

Saber que Sombra do Paraíso é o primeiro volume de 4 da Saga de Keanu é agridoce. Porque Goyer e Cassut criaram um cenário cheio de possibilidades e, se várias coisas podem ser muito bem exploradas, a sensação é de que os dois não conseguirão fazer isso. Neste primeiro livro, por exemplo, questões como consciência coletiva, física de partículas e uma explicação científica para o conceito de alma são pinceladas, mas não vão além disso e deixam aquela sensação de que Sombra é um livro pretensioso (tão pretensioso como O Homem de Aço, talvez?) e a saga seguirá pelo mesmo caminho.

Uma das críticas descreveu o livro como uma montanha-russa, e essa é uma descrição perfeita. Porque nossas esperanças vão às alturas e encontram diversos anti-clímax pelo caminho, e da mesma forma fica a nossa impressão do livro: quando estamos subindo para gostar dele, vem uma queda vertiginosa. Talvez não seja o meu tipo de livro, no fim das contas, então não tenho certeza de que irei continuar a acompanhar a saga. Gosto de ficção científica inovadora e diversa, e Sombra do Paraíso não se encaixa em nenhum desses quesitos.

Informações Técnicas

Sombra do paraíso
David S. Goyer e Michael Cassutt
ISBN:9788576571780
Edição:1°
Ano:2015

 

Nanda Café

Nanda Café

Feminista que faz ballet e adora cor-de-rosa. Gosta de RPG, fantasia medieval, anime água-com-açúcar e é #teammarvel apesar de Sandman ser da Vertigo. Começou a estudar Quenya, mas como não dava pra fazer isso enquanto comia, desistiu de ser elfa e admitiu para si sua natureza hobitesca.
Nanda Café

Talvez você goste de:

  • Ouvi várias críticas negativas a respeito desse livro e me incomodou todos esses clichês e estereótipos, toda essa falta de representatividade. Aliás, não me surpreende a Aleph publicar este livro aqui, afinal ela é uma editora conservadora e chata pra KCT no que se refere à representatividade. Ela já deixou claro que o que ela procura é “qualidade” e não ficar “defendendo agendas”.

    Bem, como ela só publica mais do mesmo e os mesmos autores, a gente vê qual é o lado que ela defende.

    • Olha, até que o livro tem alguma representatividade. A única astronauta mulher da Coalisão é russa e uma das astronautas americanas é negra. As personagens femininas têm agência e compartilham do protagonismo em algumas cenas. Mas ainda passa aquela sensação de “tá vendo? estamos tentando agradar!” e não a certeza de que as personagens estão ali por serem essenciais à história.

      O Pac Mãe foi escolhido como parceiro da Aleph durante este ano e estamos recebendo vários lançamentos deles para resenhar (Sombras foi o primeiro). É curioso saber desse conservadorismo porque na nossa inscrição deixamos claro que nosso interesse seria em livros de autorAs ou com protagonistas femininas… Vamos acompanhar essa parceria e ver se a Aleph está mudando a linha editorial! Hahaha