Blog | Mais Aang, menos Max Steel

Há alguns meses, durante o hype que o filme Mad Max: Fury Road originou nos movimentos feministas, a famosa YouTuber Anita Sarkeesian emitiu uma série de tweets analisando a obra e argumentando que não, Mad Max não era um filme feminista.

Talvez pela plataforma escolhida por ela para emitir tais opiniões, sua crítica acabou transformada em algo como “Mulheres não gostam de violência.” Se somente a bilheteria de Mad Max não fosse suficiente para desconstruir a suposta ideia de Sarkeesian, o sucesso de seus próprios vídeos exigindo maior representação feminina em video games (incluindo os violentos) seria um contra-exemplo perfeito para seus argumentos: é óbvio que mulheres também gostam de tiro, porrada e bomba.

Nós estamos sedentas por personagens mulheres fortes, com habilidades similares ou melhores do que os homens, e demonstramos isso transformando Thor, Ms. Marvel e Batgirl em HQs que batem recordes de vendas. Celebramos o lançamento de uma linha de super-heroínas voltadas para crianças porque precisamos de modelos empoderadores para meninas e celebramos todas as pequenas cosplayers que flexionam o gênero dos super-heróis.

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Tentamos combater a cultura das princesas cor-de-rosa que parece ter engolido a infância do gênero feminino, porque queremos educar meninas fortes, independentes e combativas, que não questionem por um segundo sequer que têm exatamente os mesmos direitos que seus contrapartes masculinos. Queremos criar pequenas futuras super-heroínas, e com razão.

TÁ, MAS IUZÔMI?

Como mãe de um menino cisgênero extremamente masculinizado, eu me pego pisando em ovos às vezes. Nós assistimos a todos os filmes com protagonistas femininas fortes e somos uma família monoparental, então não lhe faltam exemplos de que mulheres são fortes e podem resolver qualquer problema exatamente como um homem. Mas a questão é: de que maneira os homens resolvem os problemas é assim que queremos educar os meninos?

E é aí que a crítica de Sarkeesian sobre a glorificação da violência se torna pertinente. Enxergar a violência como uma característica patriarcal e um aspecto da masculinidade não é dizer que mulheres não possam ser violentas. É mostrar que estamos acostumados, como sociedade, a nos empolgar com valentões – e valentonas – que usam armas, que explodem coisas, que lutam fisicamente por seus ideais. A ação nos empolga e nos faz enxergar a violência como solução para tudo.

Mídias consideradas masculinas, especialmente após determinada faixa etária, são o maior exemplo disso. Se até os 4 anos os tênis e camisetas trazem o McQueen ou os Minions estampados, de 6 anos em diante os meninos têm em suas araras Max Steel, Ben 10 e Super Heróis. Para as meninas temos Barbie, Tinker Bell e Monster High. Nas salas de aula, meninos se tornam automaticamente mais bagunceiros e recebem muito mais diagnóstico de hiperatividade do que meninas, livros são escritos atribuindo esse comportamento à testosterona e ao metabolismo mais acelerado dos portadores do cromossomo Y. É apenas esperado que meninos ajam assim. Então…

Meninos serão meninos?

Recentemente estive com meu filho em uma atividade coletiva, onde as crianças eram convidadas a desenhar sobre um slide da cidade suas sugestões de melhoria. Enquanto as meninas desenhavam bicicletas e árvores, meu filho ia lá e desenhava bombas e explosões. Suas brincadeiras geralmente envolvem armas e tiros e a intenção tende a ser muito mais destrutiva e competitiva do que construtiva e colaborativa. “Tia, ele não quer ajudar a melhorar o mundo” a Alice, filha da Pac Mãe Bia reclamou comigo. Eu suspirei.

O fato é que ele até quer melhorar o mundo. Ele só acha que vai fazer isso atirando nos bandidos e explodindo seus covis. Nada diferente do que ele vê nos desenhos e nos jogos que o mercado direciona para o gênero com o qual ele se identifica. Aos seis anos, o maniqueísmo é profundamente arraigado às suas crenças e os protagonistas solo mostram que ele só será o herói se se destacar dos demais. Ele quer ser o melhor, o mais rápido, o mais inteligente. E nós queremos que as meninas tenham exatamente o mesmo pensamento. Por que?

Por mais filmes de menina

No começo do ano, fui com ele assistir a um filme de menina. Com exatamente 3 personagens homens (se não contarmos o monstro, que não tem gênero definido mas por questões linguísticas se transforma em masculino), todos coadjuvantes e usados como alívio cômico. A líder do reino é mulher, a capitã da guarda é mulher (oriental), as fadas ajudantes são racialmente diversas e cada uma tem um nome e um papel importante. Se isso soa parecido com Mad Max, é porque é. O nome do filme?

Tinker Bell e o Monstro da Terra do Nunca.

Confesso que fui torcendo o nariz, mas saí enxugando os olhos e cheia de assuntos para conversar com meu filho. O filme trata sobre uma fadinha desobediente que encontra uma criatura monstruosa que supostamente destruirá o reino das fadas, mas que a fadinha acredita ser do bem após passar algum tempo com ele. Ela envolve suas amigas na luta para provar que o monstro não é do mal e, auxiliada por elas e montada no novo companheiro, salva o dia.

Apesar de uma pequena rusga entre a protagonista (que apesar do título, não é a Tinker Bell) e a capitã da guarda, a resolução dos problemas se dá inteiramente através de companheirismo e inteligência. A característica mais enfatizada durante o filme é a empatia, e o roteiro extremamente bem construído é recheado de ação mesmo sem nenhuma cena de luta. Quantos filmes infantis você conhece com essas característica?

Mas a verdadeira pergunta é: quem esperaria isso de um filme da Tinker Bell? Por que nos recusamos a enxergar que por trás do glitter e do cor-de-rosa podem existir mensagens importantíssimas também?

Nos esforçamos tanto para empoderar nossas meninas através da cultura pop que às vezes esquecemos de questionar como se dá esse empoderamento. Por que queremos tanto que elas reproduzam os padrões comportamentais aceitos para meninos em vez de ensinar nossos meninos a repetir os padrões comportamentais ensinados a elas?

Gentileza, companheirismo, amizade e empatia são características tipicamente associadas ao feminino que tendemos a enxergar como passividade. Mas são características primordiais que jamais devem ser deixadas de lado. Eu sonho com o dia em que a infância não seja segregada por gênero e que as lições – e a mídia – não sejam direcionadas, e que personagens de ambos os gêneros tenham profundidade e dimensionalidade para explorar todas as nuances das emoções humanas, sem diminuí-las.

Eu quero ver meninas fortes, mas também quero ver meninos sensíveis. Quero uma mídia com mais Finns e Aangs e menos Max Steels e Ben 10.

Nanda Café

Nanda Café

Feminista que faz ballet e adora cor-de-rosa. Gosta de RPG, fantasia medieval, anime água-com-açúcar e é #teammarvel apesar de Sandman ser da Vertigo. Começou a estudar Quenya, mas como não dava pra fazer isso enquanto comia, desistiu de ser elfa e admitiu para si sua natureza hobitesca.
Nanda Café

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