Maternidade | Ser mãe e ser nerd: onde ficam as crianças?

Eu tenho uma relação de amor e ódio com o Facebook. Ao mesmo tempo em que adoro a interação que proporciona e gosto que ele seja uma plataforma de divulgação de empresas, fico bem encafifada com sua política de convivência (que censura fotos de amamentação e não tira do ar páginas de caiu na net) e com a crescente limitação de público para impulsionar a compra de posts patrocinados.

Mas o Pac Mãe começou no Facebook, e é lá que convivemos com pais e mães que pensam como a gente, recebemos fotos e frases de filhotes que a gente gostaria que fossem coleguinhas dos nossos, e acabamos formando uma grande comunidade de gente que compartilha interesses entre si – e com os filhos. Mas…

Volta e meia alguém comenta lá no grupo que “nem é tão nerd assim, mas…” e eu me pergunto – oi? Em qual lugar está esse ranking de nerdice, essa indicação classificativa que define se você é muito nerd, meio nerd ou nada nerd? Vejo por aí muitos nerds de raiz revoltadíssimos com a geração bazingueira, jovens e jovens adultos que começaram a captar referências de cultura pop e a adotá-las no dia-a-dia. Os óculos de armação grossa, usados por esses nerds-de-raiz por que armações fininhas não sustentam as lentes fundo-de-garrafa, se tornaram ícone de identificação para a geração bazingueira, que muitas vezes sequer precisa usar óculos.

Há algum tempo atrás eu me irritava com isso. Me irritava com as musas nerds, garotas gostosas que posavam com controles desplugados de Nintendo apenas para ganhar a admiração dos – sempre na seca – nerds (bazingueiros ou não), me irritava com quem não foi nerd desde sempre, que não teve seu caráter edificado a partir de muito bullying e tem uma personalidade antissocial. Eu me considerava uma nerd-de-raiz.

Mas aí parei pra pensar que: minhas fotos da infância registram momentos é o tchan, spice girls e chiquititas. Na adolescência, eu frequentava várias festinhas, ficava com alguns meninos e era até bem popular na escola, mesmo que essa popularidade tenha sido usada contra a minha pessoa quando eu mudei de escola e começaram a espalhar boatos que eu havia feito cirurgia para ter orelhas de elfo (e acreditem, seria perfeitamente possível).

Eu não era unidimensional, uma personagem saída da Vingança dos Nerds, então eu não sou nerd? Quem vem aqui revogar minha carteirinha?Meu usuário do fotolog era uma personagem de Tolkien, mas eu sempre lotava os comentários das fotos. Eu passava o recreio lendo Senhor dos Anéis, mas era em uma roda de amigos. Eu passava tardes jogando RPG, mas era com o namorado. Eu amo graphic novels, mas entendo pouquíssimo de quadrinhos mainstream.

Veja bem a escolha do termo mainstream. Vários ícones dessa cultura que se dizia underground, subiram à tona e se transformaram no que elas sempre pretenderam ser: cultura pop. Quadrinhos, séries televisivas e cinema são produtos da indústria cultural e da cultura de massa e finalmente estão atingindo o público que sempre pretenderam: a massa.

Porque apesar de eu não gostar nem um pouco da DC (ok, eu gosto das animações e gosto da Vertigo), meu filho sabe quem é o Batman. Eu não gosto do Homem-Aranha, mas ele também sabe quem é. E sabe também quem ele sabe quem é? Ringo. Paul. George. John. Frodo. Gandalf. Spock. Totoro. Stephen Hawking. Se brincar, o moleque é até capaz de reconhecer o traço do Will Eisner.

E não é porque eu faço um homeschooling com o que eu considero necessário que ele saiba para ser um geekling. É porque são os meus interesses que acabam se tornando os dele. Porque ele gosta de passar uma tarde deitado comigo no sofá, assistindo Star Trek dublado no Netflix, e eu gosto de passar uma tarde com ele deitada no sofá assistindo LEGO Ninjago.

Meu filho rola meus dados na sessão de RPG e vibra comigo quando tira 20. E tudo bem que ele resolva sentir fome bem no meio de uma batalha importante. Quando você tem uma criança, é normal compartilhar interesses. Sabe o que não é normal? É seu filho te pedir uma festa de aniversário de uma coisa que você não faça a mínima ideia do que se trata. Ele estar terceirizado na frente de uma televisão, consumindo sabe-você-lá-o-que enquanto você está lá brincando com seus action figures. É ele não ter o mínimo interesse por leitura porque nunca viu você lendo um livro (de auto-ajuda ou uma trilogia de Cornwell).

Eles vão crescer. Vão desenvolver interesses próprios. Talvez parem de gostar das mesmas coisas que você, talvez passem a achar Star Trek (eu já mencionei que é dublado?) a coisa mais chata dessa e de outras galáxias (aí vai ser hora de mudar pra Battlestar Galactica). É possível que meu filho passe a gostar, sei lá, de sertanejo universitário. Eu vou continuar gostando do que eu gosto, ele vai gostar do que ele quiser gostar. Mas essas tardes assistindo TV agarradinhos, o acesso aos meus livros e filmes, isso ele sempre terá.

Quando falamos de criar geeklings, não estamos falando para que você direcione seu filho para ser A Criança Mais Nerd do Pedaço. Afinal, o que é ser nerd? Quando falamos de Pac Mães e Pac Pais, estamos mostrando pessoas que compartilham seus interesses com os filhos, e que lindo que eles queiram se fantasiar de Doctor Who no Carnaval (ou na Comic Con Experience). Eles se divertiram? Os olhinhos estão brilhando nas fotos? Nailed it! É isso que é ser uma Pac Mãe.

Bem melhor do que estar dançando é o tchan no álbum da família.

Nanda Café

Nanda Café

Feminista que faz ballet e adora cor-de-rosa. Gosta de RPG, fantasia medieval, anime água-com-açúcar e é #teammarvel apesar de Sandman ser da Vertigo. Começou a estudar Quenya, mas como não dava pra fazer isso enquanto comia, desistiu de ser elfa e admitiu para si sua natureza hobitesca.
Nanda Café

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  • curti muito! esse desabafo bateu forte no meu coração. Certeza que meu tipo de nerd é Pac Mãe. Não tô preocupada em criar um gêniozinho, monstrinho, muito menos uma miniatura de mim. As coisas que eu curto são apenas algumas das infinitas possibilidades que ele tem. Importante é que ele vivencie uma infância plena e se torne um ser humano capaz de pensar e agir “fora da caixinha”, um ser humano com criticidade, e, principalmente, seguro para ser quem ele é, quem ele quer ser. Outro dia Antonio escutou “você é doidão, cara”, ele não se abalou e imediatamente respondeu “sou diferente, igual a você”. Mission Accomplished. 🙂

    • kathy

      Aim, que lindo!!!

  • Oi!
    Quando eu era pequena eu gostava de ler (ainda gosto), e já era considerad estranha, não conhecia Star Wars (Guerra na Estrelas, Globo!). Quando casei eu ja amava Harry Potter, e meu marido fez eu assistir todos os filmes de SW, lemos TLOR, GRR Martin, etc.
    Hoje meus filhos são vidrados em tudo isso e mais um pouco, fora os games! Minha gilha ama a trilogia Bioshok e the last of us, e meu menino é viciado em Lego. E amamos The Big Bang Theory!
    Fiz esse rodeio todo pq outro dia vi uma postagem sobre Stephen Hawking no Facebook e algumas pessoas colocaram que lembravam do Sheldon, ou escreveram Bazinga! Ou então colocaram o nome do seriado em português! Os comentários que vieram depois me deixaram de boca aberta, e eu fiquei pensando: pq alguns se acham mais nerds que outros? Onde se qualifica isso? Existe aquele que nssce nerd? Ou as pessoas vão adquirindo gostos?
    Adorei dua postagem!
    Ah, vou começar a ver Doctor Who, e ja encomendei meu Quia do Mochileiro, tenho que conhecer!
    Bju
    Fabi

    • Me desculpe pelo erros de português, eu comentei do celular! :/