Menina de dois anos é a nova recordista indiana de tiro com arco

_81884276_81884274

Dolly Shivani Cherukuri, de Vijaywada, na Índia, fará 3 anos na semana que vem e se tornou a mais jovem indiana a conseguir mais de 200 pontos nas provas de arco e flecha na última terça-feira (24). Ela atirou 36 flechas em um alvo à 5m de distância, depois novamente a 7m de distância, fazendo um total de 388 pontos.

Os feitos dessa menina foram testemunhados por celebridades do esporte e membros oficiais do Livro dos Recordes da Índia.
“Todos estamos muito orgulhosos dela. E muito impressionados” disse Gunjan Abrol, da Associação Oficial de Arco e Flecha da Índia à BBC.

_81884282_81884281
Dolly foi concebida como “substituta” após a morte de seu irmão, arqueiro e treinador Cherukuri Lenin, em um acidente automobilístico em 2010. Seu pai, Cherukuri Satyanarayana, disse que ela foi treinada desde o nascimento para ser uma campeã.

“Quando descobrimos que havia um bebê à caminho, decidimos moldá-la para ser arqueira”, reportou o pai – que comanda uma academia de arco e flecha – à agência de notícias AFP. “Os preparativos começaram quando ela ainda estava no útero”, acrescentou.

_81884285_81884283
Satyanarayana diz que por vir de uma família de arqueiros, Dolly tem uma capacidade enorme que vai além de sua pouca idade. Segundo ele tanto o arco usado por Dolly quanto suas flechas são mais leves e adequados à sua força e peso.

_81884280_81884279
“Minha filha conquistou o feito que todos nós sonhávamos… Não consigo expressar o quanto a nossa família está feliz”, finalizou Satyanarayana.

_81884287_81884286
O feito de Dolly já foi reconhecido por autoridades no esporte e agora o pai espera conseguir que a menina entre para o livro dos Recordes.

Bom, todo mundo sabe o quanto nós aqui amamos ver meninas quebrando tabus e barreiras. Mas confesso que essa notícia me deixou com um gostinho agridoce…

A gente sabe que crianças são capazes de grandes feitos. A capacidade delas vai muito além do que podemos imaginar e todos os dias nos surpreendemos com elas. Mas acredito, pessoalmente, que existe um limite aí, invisível para muitas pessoas, do que a criança deve e pode fazer e o que ela realmente faz de maneira a respeitas quem ela é, a sua idade, seu desenvolvimento e suas vontades.

Quando eu bati os olhos nas fotos da pequena Dolly, vi um bebê que não consegue entender completamente o que conquistou. Como a maioria dos bebês de dois anos, ela deve entender que que os pais ficaram felizes com o que ela fez. Mas será que ela sabe que é uma recordista mundial? Provavelmente não.

Nos deparamos todos os dias com técnicas e mais técnicas infalíveis para fazer a criança comer de tudo, dormir na hora certa, fazer os deveres de casa… Tem desde débitos na mesada a tabelinhas com estrelinhas e esquemas de recompensa. Pra muita gente, parece inofensivo… Mas aí nos deparamos com uma notícia como esta.

Está claro que Dolly foi condicionada. O pai parece defender que ela tem um talento nato e que o treinamento é de acordo com as especificações oficiais para crianças. Mas eu não concordo com isso. Não por que ela é muito nova, não por que ela está bantendo recordes e tal. Mas por que a pequena Dolly, ainda tão inocente, não teve a possibilidade de escolher. Ela ainda não conheceu o mundo e suas possibilidades, não foi oferecida a ela a chance de dizer sim ou não, de brincar, de se aventurar e de experimentar as doçuras da infância.

A Dolly é uma gracinha, e eu espero que ela cresça feliz e que seu sucesso seja fruto de sua escolha, e que ela faça o que ame, seja atirando flechas a um alvo, ou qualquer outra coisa. E ao Sr. Satyanarayana, tudo o que eu tenho a dizer é que ele não está criando uma campeã. Ele está condicionando uma campeã, o que é muito diferente e muito, muito injusto. Não com o mundo. Não com ele. Mas com a sua pequenina filha de dois anos, que, por amor, repete os feitos do irmão.

Notícia traduzida e imagens da BBC.

Thiciana Mandú

Thiciana tem 29 e é estilista, fotógrafa e ilustradora. Como boa Corvinal, adora livros e devora desde romances a obras históricas. É mãe da Ramona (2 anos) e pretende ensinar a pequena nos caminhos da Força desde já. Entre Star Wars e Star Trek ama ambos, mas prefere Stargate. Ilustra desde 2012 um monte de nerdices e fofurices. Queria ser mais ativista de causas femininas e maternas, mas sua natureza hobbit faz com que troque tudo por um bom chá da tarde. No RPG ou é druida/clériga ou malkaviana. Seu sonho? Morar num lugar frio. Tipo Nárnia.
  • Daniela Bandeira

    Pela declaração do pai, fica bem claro que estão criando ela para ser uma substituta ao filho perdido. Espero que ela consiga achar sua própria identidade quando crescer =/