Meu Querido Pônei, bullying e uma vítima de 11 anos – até quando?

Desde o lançamento do remake de Meu Querido Pônei – “A Amizade é Mágica” – em 2011, o desenho vem angariando uma fanbase pouco usual. Inicialmente voltado para crianças entre 3 e 7 anos, a Hasbro encontrou um pote de ouro no final da Rainbow Dash (badumpssss) ao atingir o demográfico de homens de 20 a 30 anos, conhecidos como Bronies (neologismo oriundo da junção de Bros com Ponies). Esse artigo da Wired tenta esclarecer esse fenômeno inesperado, e ainda pouco aceito até mesmo na ~comunidade nerd.

Confesso que até eu achei esse fandom um pouco bizarro, por motivos de não ter gostado tanto assim de Meu Querido Pônei. Já a Bia, que é nossa Brony de plantão, ama o desenho, e a Bia tem bom gosto. Uma das desenvolvedoras do remake é a Lauren Faust, roteirista de um dos meus desenhos favoritos de todos os tempos: As Meninas Superpoderosas. Com isso em mente, começamos a traçar um paralelo para a existência dos Bronies. E eu tenho uma teoria do motivo pelo qual eles não são aceitos:

PAUSA FEMINISTA: Vamos encarar o assunto de frente, Meu Querido Pônei é um desenho marketado para meninas. A maioria das personagens é feminina, o desenho tem a paleta do arco-íris. Isso não significa que seja um desenho para meninas porque nós não acreditamos nessa divisão de gêneros, mas o departamento de marketing acredita. Eu já falei aqui sobre os motivos para aceitarmos com mais facilidade meninas se associarem a papéis “masculinos” do que o inverso, e é com isso em mente que eu conto a história abaixo. DESPAUSA.

Michael

Esse é o Michael. Ele tem 11 anos, e seu tio favorito é um Brony. Como qualquer menino de 11 anos com um rolemodel, Michael começou a gostar daquilo que o tio Jimmy gostava: Meu Querido Pônei. Incentivado pelo tio a não ter vergonha do que ama,  ele usava colares e pulseiras dos Bronies (como a do começo do post) quando ia à escola, e começou a sofrer bullying por isso.

Algumas crianças de sua sala começaram a dizer que ele era gay por gostar de um desenho de menina, e sua mãe e padrasto disseram que não importava o que os outros achavam, apenas o que ele achava: “Ele nos disse que as outras crianças estavam dizendo que ele era gay por gostar da Pinkie Pie, e estavam tentando fazendo com que ele se envergonhasse por ser gay. Nós dissemos que não nos importávamos se ele era gay ou hétero; ele era nosso filho e nós sempre o amaríamos.”

Michael, que tem muito bom gosto, também tem outros interesses: começou a aprender violino por causa dos vídeos da Lindsay Stirling e era extremamente religioso. Depois dos episódios de bullying, sua família conta que ele se apegou muito à religião e começou a carregar uma bíblia para onde fosse. Apesar de ter pedido para voltar para casa mais cedo, os pais não desconfiaram de que essa atitude estivesse relacionada ao bullying, pois ele parecia estar lidando bem com isso.

Há pouco mais de uma semana, no dia 23 de janeiro, Michael teve um dia difícil na escola e tentou se enforcar quando chegou em casa. Ele tem 11 anos, e agora está na UTI pediátrica de um hospital, com danos no coração, pulmões e cérebro, cuja extensão é desconhecida. Ainda não se sabe se ele irá se recuperar totalmente.

Como a maior parte dos fandoms, quando a comunidade Bronie soube do acontecido, se tornaram apoio incondicional da família. Conseguiram contactar a dubladora da Pinkie Pie, que por sua vez, falou com todos do elenco para gravarem mensagens de apoio ao Michael. Outras organizações geeks se mobilizaram para espalhar a a história dele, e ajudar a família a levantar fundos para custear sua internação (o sistema de saúde nos EUA é brutal) e conseguir outras ações que possam melhorar seu estado de saúde. (Esse artigo conta a história completa e tem links de como você pode ajudar).

Eu sou mãe. De um menino. Mesmo aos 4 anos, ele já sentiu como as outras crianças podem ser cruéis. O que aconteceu com Michael tomou proporções assustadoras, mas é corriqueiro nos parquinhos. Meu filho já se desfez de bonecos de pano, comidinhas e panelinhas por alguém – não eu – ter dito que era coisa de menina.Ultimamente eu venho sendo barrada das brincadeiras com ele por ser menina.

Por mais que eu tente ser uma voz dissonante, meu filho está aprendendo a dividir o mundo por gêneros. Meninas não podem brincar de ninja, de monstro, de cavaleiro. Elas são fracas e bobas, logo, tudo o que é associado à meninas é fraco e bobo.  Supondo que meu filho seja cissexual (se identifique com seu gênero de nascimento), o problema não está em ele associar um brinquedo ao gênero oposto do seu: está na associação do gênero oposto a tudo de negativo, inalcançável, proibitivo.

Nós temos a oportunidade de fazer diferente. De ensinar diferente para as nossas crianças.

E se não for possível ensinar como o bullying é prejudicial, deixemos o desenho favorito de Michael tentar:

My Little Pony: Friendship is Magic – Episode… por Jonny_Manz

 

 

Nanda Café

Nanda Café

Feminista que faz ballet e adora cor-de-rosa. Gosta de RPG, fantasia medieval, anime água-com-açúcar e é #teammarvel apesar de Sandman ser da Vertigo. Começou a estudar Quenya, mas como não dava pra fazer isso enquanto comia, desistiu de ser elfa e admitiu para si sua natureza hobitesca.
Nanda Café

Talvez você goste de:

  • Eu li sobre a história desse menino! Muito triste =/
    Também sou mãe de menino e também me esforço para não fazer essa associações de gênero. Ele ainda está com 3 e tenho conseguido, por enquanto, incentivar que não existe essas separações de menino e menina. Mas é mesmo nadar contra a maré, com avós super sexistas, comentários que ouve na escolinha, etc.
    Eu me esforço para sempre mostrar desenhos com heroínas para ele não ter essa visão de mulher “fraca”. Espero que eu consiga passar esses conceitos para ele!

  • Eu sou um Brony, e não tenho condições de doar, porém, sou músico, e vou, além de escrever uma música para ele e tentar conseguir dinheiro para doar á ele, todo e qualquer lucro que receber irá direto á ele. Pinkie promisse.

  • Mônica Queiroz

    Boa tarde! Qual artigo onde vc expõe por que é mais fácil aceitarmos universo masculino na vida das meninas do que o inverso? Me interessa muito por que sou mãe de um menino de 6 anos que gosta de ver os desenhos da Barbie.

  • Anônimo

    Liiiiiindo o Michael!

  • Que coisa triste! Meu filho tem 10 anos e sempre assistiu a todo tipo de desenho. Um dia, quando tinha um seis anos, o vi assistindo um ‘desenho de menina’ e ele logo quis trocar de canal falando que era desenho de menina e peguei na mão dele e disse: desenho é desenho, não existe de menino ou menina. Se você gosta pode assistir! Acho que ele entendeu, mas não sei se falaria que assiste na escola. Tão pequenos e já sofrem com algo tão cruel. Triste!
    Espero que o pequeno Michael se recupere!

  • Giovana

    …. é incrível como hoje até as crianças podem ser extremamente cruéis umas com as outras. Eu sofri bullying durante muito tempo da minha vida, e sempre viam como “brincadeira de criança” – ninguém realmente leva muito a sério, isso afetou o meu desenvolvimento como pessoa, e até hoje (faz alguns bons anos que comecei) vou a uma psicóloga e tomo antidepressivos, minha auto estima frequentemente está para baixo, e tenho dificuldade de socializar (entretanto posso dizer que estou bem hoje… na medida do possível). Algumas pessoas são mais sensíveis que as outras quando se trata de provocações e outras coisas ‘cruéis” geralmente vistas apenas como “brincadeirinhas”. Bullying é inadimissível, eu queria que todos os pais tivessem vergonha na cara e educassem suas crianças para respeitar as outras, independente dos seus gostos ou escolhas – o problema é que, as vezes, os próprios pais tem o preconceito enraizado neles mesmos…

  • Isadora

    Parem, simplesmente parem com essa merda “de menino” “de menina” Meu irmão tem 6 anos e assisto MLP com ele! Aos 7 anos eu brincava de lutinha com minhas primas e nem por isso viramos lésbicas. (E se virássemos tbm, não teria nada a ver) É apenas infância. I-N-F-Â-N-CI-A, Para crianças – meninos e meninas- aprenderem, descobrirem e se divertirem!

    • Exatamente, Isadora! Por isso dizemos que o desenho é marketado para meninas: porque querem nos fazer acreditar que há essa diferença. Mas não vão conseguir. (;

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