Blog | O incrível Frozen e mais: As princesas Disney que roubaram meu coração

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Bela – A Bela e a Fera

O primeiro desenho da Disney que me arrebatou pra valer foi, sem dúvida, A Bela e a Fera (Beauty and the Beast, 1991). Não sei dizer quantas vezes aquele VHS verde com a capa amarela foi assistido lá em casa, mas garanto pelo menos umas 3 vezes por semana, durante meses a fio. Eu tinha entre 12 e 13 anos de idade quando vi o filme pela primeira vez. Não era mais uma criancinha, estava no começo da adolescência, e me identifiquei imediatamente com aquela personagem, mesmo sem saber muito bem explicar o motivo.

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Hoje, com meu olhar de adulta, consigo explicar melhor: Bela era diferente das personagens que eu havia conhecido antes nos desenhos (e das outras princesas Disney também). Ela estava completamente desiludida com a mesmice da sua vida, e falava sobre isso abertamente. Lembram da música? “Tudo é igual nessa minha aldeia …” é a frase que abre o filme.

Ninguém está exatamente interessado em conversar com ela, que é considerada estranha, esquisita, porque “Pensa que é especial”, dizem os aldeões. “Ela é metida a inteligente, não se parece com a gente. Nem parece que é daqui, não se adapta aqui”, completam. Sozinha, mesmo cercada de gente por todos os lados, Bela busca refúgio nos livros “Tem mania de leitura” e, ao contrário das outras moças da vila, tenta escapar dos rapazes vazios e sem conteúdo, como o bonitão Gastón.

Difícil uma adolescente não se identificar completamente com a sensação de “não pertencimento” da Bela. Não é na adolescência que a gente se sente mais incompreendida do que em qualquer outra fase da vida? Acho que aí está a explicação principal para a minha adoração por A Bela e a Fera.

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Amei tanto A Bela e a Fera que nenhuma princesa da Disney mexia mais comigo. Além de Branca de Neve, Cinderela, Aurora e Ariel, que eu já havia deixado passar pela minha vida sem dar grande importância (pois é, eu nunca gostei muito da ultra pop Pequena Sereia, embora “Under the Sea” seja uma das melhores trilhas de desenhos de todos os tempos). Vieram então a apagadinha Jasmine, aquele dramalhão todo de Pocahontas, a Mulan e sua história linda, mas, pra mim, sem o menor tesão, e Tiana, que é uma princesa interessante, bem humorada, independente, mas que não tem muito carisma, e eu nem sei dizer o motivo. Assisti a todos esses filmes, gostei de vários deles, acho que tiveram cada um a sua importância, mas nenhum deles apertava mais o meu coraçãozinho.

Eu então me transformei em uma garota Pixar, cansada da vida de princesas.

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Rapunzel – Enrolados

E foi então que surgiu a Rapunzel, em Enrolados (Tangled, 2010). Eu já era mãe, e fui com o meu filho ao cinema, assim, meio sem esperar grande coisa, afinal, era mais uma princesa Disney, e… BANG!  Caí de quatro por aquela menina! Uau! Aquela Disney da minha antiga Bela está de volta, é isso? Certamente Enrolados foi um marco para o estúdio, um certo retorno aos velhos tempos, e também para mim representou isso, uma volta ao que eu sentia pela Disney na minha adolescência.

Rapunzel, assim como Bela, era uma garota que não se encaixava no mundo, presa  (literalmente) na sua torre, no seu cotidiano. Uma menina sonhadora, que queria viver coisas novas, conhecer o mundo, e que não podendo sair de casa se apegava aos livros, desenhos, aos sonhos, e à realidade que ela mesma imaginava.  Lembra dessa música? “Então começo a ler, um livro ou dois, ou três, tentando imaginar quando a minha vida vai começar”.  Pronto! Uma lágrima escorreu e Rapunzel imediatamente sentou-se ao lado de Bela no ranking das minhas princesas favoritas.

Rapunzel é completamente descompensada, bipolar, (como não amar essa cena?) cheia de defeitos, e ainda tem aquela mãe, que… bem, em se tratando de Disney, vale por uma madrasta (eu sei, ela É a madrasta, mas para Rapunzel ela é a mãe, certo?). Falando nisso, quando será que a Disney fará um filme onde a madrasta é boazinha, ãh? Estamos esperando, mister  John Lasseter.

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Nem preciso comentar que Rapunzel é diferente das demais princesas. Tem personalidade, força, mas ao mesmo tempo uma leveza que as lindas Mulan, Pocahontas e Tiana, em minha humilde opinião, não conseguiram deixar transparecer. Meu palpite é que a leveza vem do humor, presente o tempo todo no filme. Confesso que mesmo hoje, depois de assistir mil e uma vezes – gracias Netflix! – ainda consigo gargalhar em vários momentos de Enrolados. Outro fator interessante sobre Rapunzel é que, ironicamente, logo a mais cabeluda das personagens acabou sendo a única princesa que termina o filme com os cabelos curtos!

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Em 2012 chegou Valente e minhas expectativas foram lá para o alto. Uau! Era Pixar, finalmente e pela primeira vez com uma protagonista feminina! Tudo o que eu lia em críticas e tudo o que eu assistia em previews me fazia vibrar com o filme. Escócia, arco e flecha, uma princesa com cabelos rebeldes, que não quer se casar por obrigação, se revoltando contra as tradições, aquela coisa toda, uau, uau, mas… Infelizmente a Merida não me conquistou. O filme é ótimo, divertido, ela é incrível, não me entendam mal, mas não fui fisgada. Acho que Merida é tão segura de si, que eu não consigo me identificar com ela! Ela já está pronta, sua ousadia não precisou ser aprendida, pelo contrário, o aprendizado dela é o da maturidade, ela só precisa de equilíbrio em sua vida, e desse aprendizado eu já não precisava mais. Que a linda Merida seja um grande modelo para nossas crianças, mas pra mim não rolou!

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Elsa e Anna – Frozen

E aí chegamos em Frozen – Uma Aventura Congelante (Frozen, 2013). Dessa vez escolhi ir ao cinema sem saber quase nada sobre elas, apenas deixei me levar. E BANG! Ah que sensação boa! A lagriminha, mais uma vez.

(OBS: Você não viu Frozen ainda? Ah, faça-me o favor! De qualquer forma, a partir daqui, texto com spoilers)

Como se não bastasse uma princesa presa, entediada com a vida, aqui temos duas. Uma presa do lado de dentro, a outra presa do lado de fora. Do quarto, do castelo e da vida. Anna cresce brincando sozinha, sendo rejeitada pela irmã. Prestou atenção em mais essa música? “Nós éramos amigas, de coração, mas isso acabou também… Só temos uma a outra… O que vamos fazer? Você quer brincar na neve?” – a pergunta que quase sempre era respondida com uma porta batendo. 

Elsa cresce  presa em seu quarto, isolada, acreditando que sua maior qualidade – o poder de criar gelo, e de transformar as coisas em gelo – é um defeito perigoso, que deve ser contido, escondido, como ela mesma diz na música: “Não sentir, não tocar, ser sempre uma boa menina…não deixar ninguém saber…”.

Elsa é a  a primeira a se libertar. A cena musical de Let it Go (Livre Estou) é uma lavada de alma. Não tem quem não se emocione. É lindo de ver, arrepia mesmo. Acompanhar aquela menininha se transformando em mulher, sozinha, se bancando, se assumindo, sem a necessidade de ter ninguém ao seu lado, sem “muletas”, sem nada, é de encher os olhos. Essa sim é a princesa que eu esperava ver! Não é a toa que está rolando na internet uma brincadeirinha sobre isso: Elsa não é uma Princesa Disney. Ela é uma Rainha.

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Anna demonstra ser mais frágil do que a irmã. Precisa de mais tropeços para descobrir sua força. Assim como a maioria de nós, ela cresce a partir de suas vivências e aprendizados. Descobre na prática que as pessoas não são sempre todas boas e bem intencionadas, precisa passar por uma bela desilusão amorosa para entender que não dá pra confiar em quem a gente acredita que conhece muito bem e, de quebra, precisa ainda encarar algumas questões familiares.

O que importa é que ela se dá muito bem no processo. Se a Disney é o lugar-comum, se esses são os filmes que a maioria das crianças do mundo assistem, se essas são as princesas que essas meninas que estão por aí vão levar como modelo de referência, poxa, legal, até que não está tão mal assim! Sério.

O filme é lindo e não é a toa que trouxe para a Disney seu primeiro Oscar em filme de animação desde a criação dessa categoria, em 2001, além do Oscar para a canção Let it Go, muito merecido.

Do príncipe Fera à ausência de príncipe

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Falando especificamente da relação das princesas com seus inevitáveis (será?) príncipes encantados, meu maior deleite em A Bela e a Fera, além de reforçar para mim mesma a ideia de que é possível amar alguém pela sua beleza interior, foi ver que o cara lindo, mas vazio de princípios e de inteligência, é quem se dá mal no final.

Isso é tudo o que uma menina que não se acha lá a mais bela do mundo quer descobrir. A vingança dos nerds não teria feito melhor pela minha auto estima!

Tudo bem, tudo bem, eu sei que no final a Fera acaba se transformando em um príncipe bonitão (além de rico, e dono – vejam vocês – de uma impressionante biblioteca – suspiros!). Mas eu sempre penso naquele velho ditado do “quem ama o feio, bonito lhe parece”, e acho que essa é realmente a mensagem do filme, com a “transformação” da Fera. Ela pode sim ser encarada como uma transformação metafórica. Acho sim que essa também é a mensagem que fica para as crianças – ele foi transformado, real ou metaforicamente, pelo amor.

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Em Enrolados, a gente fica feliz de ver que o tal príncipe encantado pode até ser um cara não muito certinho, mas com bom papo, divertido e bem humorado, why not? Que delícia, ele pode ser pobretão, ele pode ser assim meio malandro, e daí, ele me faz bem, é isso que Rapunzel descobre. Que o amor pode estar ali onde a gente não está esperando, que dá pra rasgar o roteiro pronto e de repente ver o que vai dar!

E como não se apaixonar por Flynn Ryder? (eu até aceito a dublagem do Luciano Huck – sério, arrisco dizer que gosto – mas José Bezerra é difícil de aturar como nome de príncipe Disney, né?). Ele é todo galante, é esperto e malandro, uma importante desconstrução do príncipe clássico da Disney.  Fora isso, uma coisa que aparece também em A Bela e a Fera e em Frozen: Eles não se apaixonam assim, do nada. Há uma construção desse relacionamento, um período de convivência, de se conhecer, não é aquela coisa passiva das fofas Branca de Neve, Cinderela e Aurora, com seus príncipes mais-do-mesmo (até a mesma cara os coitados tem).

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Em Frozen mais uma vez o bonitão (Hans) é o vilão (oba!).  E dessa vez ele é um vilão príncipe, mesmo. Tudo bem que o coitado tem 150 irmãos e nunca vai virar rei, mas ele tem uma nobreza qualquer ali em seu ser. E até que o cara finge bem por algum tempo, mas termina mostrando o lado uó para a inocente Anna.

Já o Kristoff é um cara bem legal, parceiro, embora meio mal humorado,  diferentão, (quase esquisito – oba! Adoro um cara estranhão!) e que tenta a todo custo abrir os olhinhos de Anna, demonstrando que acha muito estranha essa história de se casar tão rápido com quem a gente mal conhece. Mais uma vez temos aqui um casal convivendo durante a história, e não um amor a primeira vista. Há também uma crítica declarada – a la Encantada, outro filme Disney de princesas que eu gosto muito – ao absurdo que é essa paixão a primeira vista.

Porém, Frozen tem um diferencial importantíssimo – apesar do Kristoff  ser um pretendente interessante, as nossas princesas descobrem que: surpresa !- elas não precisam necessariamente de um homem para viver o tão falado felizes para sempre! Poxa, que legal!

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Mais do que isso: elas aprendem também que se quiserem encontrar um cara legal pra dar uns beijinhos e aproveitar a vida um pouco, tá liberado! Ninguém casa com quem que acaba de conhecer, já dizia a sábia Elsa. (mas o que a gente fala agora pra Branca, Cinderela, Aurora, Ariel, e Tiana agora, héim? Tadinhas!)

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Kathy

Kathy

Jornalista, sonserina, lannister, malkaviana, dobradora do reino da Terra, distrito 3. Transmito o legado nerd ao meu rebento, Samuel, que, pobrezinho, já reclama que ninguém da escola sabe quem é Sauron e nem fazem ideia do que significa conjurar um patrono.
Kathy

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  • Eu tb amo A Bela e a Fera. Sei todas as músicas inteirinhas! Fui ver o musical e assim que saiu o DVD comprei para mim, ops, para a Helena. Tb adoro Enrolados, mas num guento mesmo o Luciano. Engraçado é que prefiro ver animações na versão dublada, mas Enrolados tem que ser em inglês mesmo (Adoro a voz do Selton Mello em A roupa nova do imperador!). Amo a Rapunzel de cabelo curto e castanho. Tão gente como a gente…

    • kathy

      Eu acostumei com o Luciano! E eu também compro os DVDs todos pra mim! ahahaha… A Rapunzel fica ótima de cabelo castanho, outras princesas deveriam tentar!

  • ADOREI o texto e a reflexão!! É legal perceber essa “atualização” de valores que a Disney fez com as Princesas ao longo dos anos. Eu também fiquei encantada pelo poder do amor de irmãs de Frozen! O filme todo é uma desconstrução de padrões criados pela própria Disney ♥
    Se as Princesas são tão importantes para a formação das crianças, como se prega por aí, então podemos considerar que as coisas estão melhorando, né??

    Achei bem interessante essa parte do Oscar! Não tinha notado que a Disney nunca tinha ganhado nessa categoria, acho que por não desassociar tanto a Pixar da Disney ^^”
    Ah! Acho que só trocaria a Tiana pela amiga dela, a Charlotte, da lista de princesas que se casam com quem acabam de conhecer! Afinal, ela foi conhecendo o príncipe Naveen enquanto eles eram sapos =)

    • kathy

      Siiiim, estão melhorando, Dani! Pois é, a Disney precisou se atualizar pra ganhar um Oscar de animação. Eles sabem que o mundo está mudando! Sobre a Tiana, ela tem ares de mudança mesmo, sabe? Eu gosto do jeito dela com o príncipe, ela é guerreira, batalhadora, coloca aquele playboy na linha! Só não foi para mim um filme que deu aquele Tcham!, sabe? Mas ela é uma queridinha, junto da Merida. Mulheres fortes!

  • Pingback: Frozen é muito amor | That's what she said()

  • mARISAAA

    AMEI SUPER CONCORDO

  • Stephanie

    Gente como estou encantada com seu texto! Tenho 19 anos, e a Bela e a Fera foi também minha primeira paixão da Disney. Mulan também me marcou muito; Rapunzel foi a princesa que menos esperava gostar, e amei aquela garotinha logo de cara! E por último Frozen, que além de tudo, me conquistou pela mensagem de amor das irmãs. .
    Adorei ver que alguém se identifica com meus filmes infantis favoritos! ! Abraços, Stephanie ♡

  • Mayara Duque

    Deste texto a unica parte que eu não concordo é colocar a Tiana com as princesas mimimis, Tiana é uma personagem batalhadora e que acaba se apaixonando por um cara a principio cheio de defeitos assim como em Enrolados, mas que devido a convivência com uma pessoa integra acaba mudando seu modo de ver a vida… Tenho uma filha de 4 anos que adora A princesa e o sapo, Frozen, Enrolados, algumas das princesas mimimis e agora estamos em um momento Festa no Céu (que por sinal recomendo)… Gosto muito de valente, mas assim como vc não é uma das preferidas da minha filha. Parabéns pelo texto!

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