Blog | O machismo no mundo nerd e o que você tem a ver com isso

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(Esse texto surgiu a partir de uma conversa  com a querida Nanda Café e, por isso, é uma construção “a quatro mãos”.)

O universo nerd é predominantemente masculino. Isso você já sabe, né? Mas você sabia também que esse mundo nerd também é extremamente machista? Triste ter que admitir, mas é verdade. As mulheres que circulam por esse meio são uma minoria e constantemente, para serem respeitadas, precisam provar que são nerds verdadeiras e não “posers” ou as chamadas “attwhore” – como é chamado quem faz algo somente para chamar a atenção, não porque gosta verdadeiramente daquilo. Acha exagero? A gente prova que não. Você acredita, ou será que nós vamos precisar mostrar a carteirinha de nerd para sermos levadas a sério?

Parece até brincadeira, mas é exatamente assim que nos sentimos. Em muitas situações, para que sejamos aceitas como parte do grupo, e para que nossas opiniões sejam levadas em consideração, parece que precisamos provar que conhecemos mesmo um personagem, sabemos as regras do jogo, lemos mesmo aquela série de livros, ou que gostamos verdadeiramente de uma saga ou de um game e não estamos ali somente porque “está na moda” ou ainda para procurar (ou acompanhar) um namorado ou um marido.

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Nós não estamos falando aqui de um comportamento sempre escancarado, ou extremamente evidente. É de algo que no geral acontece de forma  um pouco mais velada, muitas vezes disfarçado de brincadeira.  Qualquer tipo de reclamação ou observação a respeito desse preconceito é quase sempre vista como “um exagero”, e assim como em outras situações de machismo, a mulher que não admite esse tipo de tratamento injusto e desigual acaba sendo vista como “mal amada”, “mal humorada”.

O Clube do Bolinha Geek não surgiu por acaso. Muitos dos produtos voltados para o público nerd, como alguns vídeo games e algumas revistas em quadrinhos, por exemplo, são mesmo direcionados ao público masculino. Sim, nós sabemos que existem muitas mulheres que jogam vídeo games, que amam HQs e que produzem quadrinhos e jogos, e sabemos também que há quadrinhos e games onde as mulheres são o público alvo (como os mangás shouju por exemplo), e outras HQs incríveis e jogos que tentam fugir do mainstream, mas também achamos que não há um interesse maior das mulheres  simplesmente porque: nós não nos identificamos com os personagens retratados.

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Qualquer um que já folheou uma HQ de super heróis ou que jogou os vídeo games mais vendidos sabe do que estamos falando: a objetificação e erotização das mulheres é a fórmula básica. Nudez feminina, repetição de um mesmo padrão de corpo: a “gostosa”, semi-nua, com lábios grossos, seios grandes e com uma aparência praticamente inatingível para as mulheres de verdade. O clichê e  os esteriótipos completos. Mas peraí, eu não estou dizendo que só dá pra gostar de algo com o qual a gente se identifique totalmente, mas que para cativar um leitor, para conseguir a atenção de um novo jogador, é necessária essa conexão, é preciso dar um “clique”.

A maioria dos sites especializados em cultura nerd/geek tem como público-alvo os homens. Nos poucos veículos direcionados às mulheres e blogs nerds femininos vemos reproduzidos o comportamento machista que a cultura carrega, e vejam vocês que isso acontece muitas vezes por medo de não ser aceita, de parecer “mimimizenta”. Outro dia mesmo em um desses blogs femininos, uma mulher escrevia algo como “sem querer reclamar ou parecer feminista” e então expôs sua opinião sobre a extrema objetificação do corpo feminino. Oi? Será mesmo que temos que nos justificar de antemão pra poder expressar uma opinião num meio machista? Precisa mostrar a carteirinha de nerd e, principalmente, de não feminista?

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Ah, claro, não são só os homens os machistas que encontramos no mundo nerd. As mulheres também acabam repetindo esse tipo de comportamento. Nós mesmas, enquanto conversávamos sobre esse texto, identificamos comportamentos machistas em nossas atitudes diante de outras mulheres nerds. Debatendo juntas, chegamos à conclusão que, em um meio opressor e competitivo, sentimos a necessidade de se igualar aos homems, temos vontades de ser aceitas, e passar o preconceito adiante se assemelha a “trocar de lado”, pra não ter mais que sofrer com isso. Recriminar outras mulheres e diminuí-las por serem novatas, por conhecerem menos (as famosas noobs) é uma forma de dizer aos rapazes: ei, me aceitem, sou igual a vocês.

Estamos no Dia Internacional da Mulher. A gente nem liga muito pra esse dia, mas já que ele está aí, queremos aproveitá-lo para estimular a reflexão. O Pac Mãe é um blog sobre cultura nerd escrito por quatro mulheres. Nós somos mães e estamos aqui para falar diretamente com vocês, pais e mães que assim como nós estão criando pequenos nerds. A gente quer fazer diferente. Quer mostrar pra eles que o mundo não se divide entre coisa de menino ou de menina, e que a gente pode fazer o que a gente gosta, simplesmente. Temos a esperança de que nossos filhos no futuro, sejam eles nerds ou não, não reproduzam esse comportamento que tanto prejudica as mulheres, e que sejam capazes de se expressar livremente, sem precisar provar nada pra ninguém. E aí, você também está nessa?

Kathy

Kathy

Jornalista, sonserina, lannister, malkaviana, dobradora do reino da Terra, distrito 3. Transmito o legado nerd ao meu rebento, Samuel, que, pobrezinho, já reclama que ninguém da escola sabe quem é Sauron e nem fazem ideia do que significa conjurar um patrono.
Kathy

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