Peabody & Sherman | WTF, Dreamworks?!

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Apesar de estar praticamente toda semana no cinema com o Pac Filho, eu não costumo fazer muitas reviews de filmes. Geralmente a minha opinião não costuma bater com a dele, e eu fico confusa: falo o que eu achei? falo o que ele achou? Encontro um meio termo?

Eis que pela primeira vez, nossas opiniões se convergem. Estamos ambos confusos sobre o que achar de As Aventuras de Peabody & Sherman, animação de inverno da Dreamworks, que parece que colocou a equipe toda pra trabalhar em Como Treinar Seu Dragão 2 e deixou esse filme nas mãos dos estagiários.

Se você assiste a qualquer canal infantil, vai saber do que se trata Peabody & Sherman, filme que estreou no Brasil no dia 28 de fevereiro: uma criança humana adotada por um cachorro gênio, que preocupado com a sua educação, constrói uma máquina do tempo para levá-lo a eventos e personagens históricos. Você pensaria o mesmo que eu: melhor. homeschooling. ever. Mas o filme começa quando Sherman tem que enfrentar uma aventura no presente: seu primeiro dia de aula. E a partir de agora, começam os spoilers.

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Vou começar pelo fator que mais me incomodou: Penny. Claro que a mean girl vai praticar bullying com Sherman, afinal, uma menina que usa aquela quantidade de maquiagem aos sete anos de idade não poderia fazer outra coisa da vida. Tirando o fato da incrível erotização daquela garotinha (sete anos, gente!), ela passa de um estereótipo pra outro sem nenhum aviso prévio. De antagonista ela pula para manic pixie, se transformando na garota maluquinha que surge na vida do herói para que ele se arrisque e perceba o seu verdadeiro potencial.

Agora eu te pergunto: onde estava a Dreamworks quando a Disney fez Brave e Frozen? Não vou nem entrar no mérito de que Peabody & Sherman não passa no teste de Bechdel, mas de que as personagens femininas são absolutamente ridículas e estereotipadas. A mãe de Penny é uma cabeça-de-vento sem nenhuma representatividade no casamento, e a Sra. Grunion é uma vilã de livro-texto. Claro, pode-se argumentar que o filme é uma história de pai e filho, vamos chegar nesse ponto em breve, mas isso não significa que mulheres não possam estar bem representadas, não é?

Aliás, falando em representação, uma coisa me deixou extasiada com esse filme. Corrijam-me se eu estiver errada, mas ele trata de uma adoção incomum, considerada imoral por alguns membros do serviço público e passível de ridicularização entre os colegas da escola. Soa familiar? Peabody é um gênio, mora em uma cobertura enorme em NY, ganhou um Prêmio Nobel, é conselheiro da ONU, tem um histórico impecável, porém não poderia adotar uma criança porque é gay um cachorro.

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Não, ele não é gay. Mas poderia ser. Acredito que muitos pais e mães adotivos de casais do mesmo sexo podem se identificar com o preconceito sofrido pelo Sr. Peabody quando a assistente social diz que sua família é uma aberração; e muitos filhos de casais do mesmo sexo se identificam com Sherman quando Penny diz que se ele é filho de um gay cão, só pode ser um gayzinho cãozinho.

Aliás, a cena em que Peabody lembra-se de todas as aventuras que já viveu com Sherman, desde a forma como o encontrou, tudo isso ao som de “Beautiful Boy” do John Lennon me levou às lágrimas. Não é muito difícil me levar às lágrimas, então não espere uma montagem particularmente emocionante: como todo o resto do filme, ela não consegue fugir do clichê.

E esse, na verdade, é o principal problema de Peabody & Sherman. Apesar da campanha massiva de publicidade em cima do filme (também pudera: a estreia foi em pleno Carnaval), que incluiu além dos comerciais em canais infantis, um trailer especial lançado nos 50 anos de Doctor Who, o filme não tem um diferencial. Aquilo que foi prometido nos trailers: as cenas de ação, aventura, interação com personagens históricos, acontecem muito rapidamente e não conseguem prender a atenção. Claro, a relação entre pai e filho é linda, mas Rob Minkoff já nos mostrou isso em O Rei Leão. E a inadequação de uma família interespécies também já foi explorada por ele em Stuart Little. Será que não sobrou nadinha pra Peabody & Sherman?

É um filme divertido, que não precisa ser assistido em 3D, mas que deixou tanto a mim quanto ao meu filho com a sensação de que não precisávamos nem ter ido ao cinema. O jeito é esperar ansiosamente até junho por Como Treinar seu Dragão 2.

Nanda Café

Nanda Café

Feminista que faz ballet e adora cor-de-rosa. Gosta de RPG, fantasia medieval, anime água-com-açúcar e é #teammarvel apesar de Sandman ser da Vertigo. Começou a estudar Quenya, mas como não dava pra fazer isso enquanto comia, desistiu de ser elfa e admitiu para si sua natureza hobitesca.
Nanda Café

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