Blog | Quando um concurso de Miss dá visibilidade às mudanças de uma sociedade

No dia 12 de março desse ano, Ariana Miyamoto, 20 anos, foi escolhida como a Miss Universo Japão (2015) e desde então surgiu muita polêmica à respeito de sua escolha como representante japonesa nesse concurso.

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Acontece que Ariana é japonesa com afro-descendência e foi a primeira com suas características a ser escolhida para representar o país, o que gerou muitos comentários positivos e negativos, mas acima de tudo, vem evidenciando uma mudança, ainda lenta, na composição da sociedade japonesa, sempre vista como muito homogênea. Muitos parecem não estar preparados para essa mudança.

Os comentários positivos à escolha de Ariana dão muito apoio e desejam sorte no concurso e acham ótimo que finalmente uma moça hafu (adaptação da palavra inglesa half, metade, termo usado no Japão para denominar as pessoas com descendência japonesa e estrangeira) foi eleita, afinal ela é realmente uma moça linda. Já os negativos dizem que por ser hafu, ela não seria “japonesa o suficiente” para representar o país.

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Para quem vê de fora pode parecer uma situação um tanto confusa, pois Ariana nasceu e cresceu no Japão, é fluente em língua japonesa, se porta como japonesa  que de fato é – tendo apenas como “diferença” o fato de ter um pai estrangeiro e passado uma parte da sua formação escolar nos Estados Unidos. Porém, por sua aparência física não condizer com a de uma japonesa “padrão”, muitos não a considerariam como “japonesa de verdade” o que é absurdo. Mas a situação é tão triste que, pelo que pesquisei, comentários negativos sobre a escolha de Miyamoto vieram até de estrangeiros amantes de cultura japonesa.

O fato de não ter a aparência considerada tradicional não deveria gerar esse sentimento de que é “menos japonesa” do que os demais. A própria Ariana já declarou que nunca achou que seria escolhida por sua aparência de estrangeira. Felizmente os juízes do concurso não se deixaram influenciar por essa questão étnica. Mas essa “aparência tradicional japonesa” está tão enraizada nas pessoas que muitos mestiços nascidos no Japão, ou fora dele, sofrem com preconceito, o que acaba gerando boas iniciativas inclusivas como o Hafu Project, um documentário feito por descendentes japoneses que relatam suas experiências relacionadas com suas origens.

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“Eu sou eu”, diz a placa.

Mas e o que nós brasileiros temos à ver com tudo isso?? Somos considerados como um povo livre de preconceitos por termos origem diversificada, mas na prática a história muda. Quantas vezes já não tratamos ou vimos alguém tratar uma pessoa nascida no Brasil, porém com origem asiática, como “o japa”, “o china”, usando termos pejorativos como “pastel de flango”, dizendo que “são tudo a mesma coisa”, etc? É preciso refletir quanto ao tratamento dispensado aos descendentes asiáticos no Brasil e como isso os exclui como cidadãos brasileiros – que são – assim como os japoneses acabam fazendo com os chamados de hafu. Isso sem comentar o racismo que persiste contra a população descendente africana no Brasil e no mundo.

Graças à minha formação acadêmica (Língua e Literatura Japonesa), tive um contato maior com descendentes japoneses e pude visualizar com mais facilidade essa diferenciação que muitas vezes é feita sem pensar pelas pessoas em geral. Por isso quis trazer o relato da minha amiga de curso, Naomi Sato Breyer, descendente japonesa:

“Honestamente, não sei se realmente é uma forma de demonstração de possíveis mudanças e/ou avanços no que tange à imagem estereotipada que os ocidentais (em geral) possuem do Japão. Assim, como a atual Miss Japão, sou hafu – em outras palavras, sou “mestiça”. Mas no meu caso, sou “metade” japonesa e “metade” brasileira, se é que seja possível delimitar minha herança genética dessa forma.

Gostaria muito de ter uma visão mais otimista e acreditar que a vitória da Ariana Miyamoto é um bom exemplo de que estão ocorrendo mudanças. Porém, infelizmente minha própria história de vida não contribui em nada para que isso aconteça. Até hoje, pelo menos no Brasil, acredita-se que todos os japoneses (sem exceção) possuem os cabelos pretos e lisos, mas na realidade nem todos seguem esse “padrão”. E justamente por não ter os cabelos pretos e/ou olhos pequeninos, já fui vítima do que hoje é conhecido como bullying.

Ao meu ver, quebrar esse paradigma será uma tarefa árdua e que levará uns bons anos. Uma prova concreta disso, são os comentários negativos, maldosos, racistas e desrespeitosos sobre essa grande notícia que li na internet.” – Naomi Sato Breyer

É possível encontrar na internet muitos relatos semelhantes ao dela (como esse, e esse, entre outros). Muitos esperançosos da mudança por vir. Mas se nem no Brasil as parcelas da população com origem africana, asiática, ou outras minorias, não conseguem espaço para uma boa representatividade na mídia, ou na política, ou em outros campos, como deveria ser, como esperar que um país tão homogêneo como o Japão isso aconteça da noite para o dia?

Felizmente, a cada dia que passa, cada vez mais descendentes japoneses tem surgido na mídia e na publicidade no Japão. Ao mesmo tempo que existe uma diferenciação exclusiva (no sentido de excluir), existe um fascínio dos japoneses pelos descendentes e sua beleza “exótica”. Tem surgido muitos modelos e artistas de origem diversificada como Yuna Ito, Jero, Crystal Kay, Anna Tsuchiya, e tantos outros, para preencher essa lacuna na representatividade dos descendentes no Japão. Que eles conquistem ainda mais espaços em outros campos além da mídia!

Como nós já sabemos, representatividade importa sim (aqui, aqui) portanto a escolha da Ariana Miyamoto como Miss Universo Japão carrega um significado muito maior que apenas um concurso de beleza. Estou na torcida para que esse conflito traga bons frutos e quebre mais esse estereótipo de gênero dentro e fora do Japão.

Daniela Bandeira

Daniela Bandeira

Mãe do Lucas (5), amante da cultura japonesa, literatura, cinema, animações, séries, games, música e tudo que envolve Disney. Formada em Língua e Literatura Japonesa, porém não atuante na área. Tem a fotografia, a culinária e a costura como hobbies e sonha dar a volta ao mundo.
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