Cinema | Será o fim de filmes como “Os Goonies”?

Outro dia, batendo um papo com minha vizinha, ela fez um comentário:

– Acho tão interessante como você manda seu filho levar o lixo na lixeira. Eu não tenho coragem.

Fiquei ruminando isso por muito tempo. Primeiro, por não saber se era um elogio ou uma crítica velada, interessante é um termo dúbio. Segundo, por não entender qual é a coragem necessária para permitir que uma criança de seis anos incompletos leve uma sacola pequena até a lixeira que fica no muro do prédio.

Moro em um condomínio relativamente grande. São 5 blocos com cerca de 160 apartamentos no total. Uma placa no portão de entrada avisa: 20 km/h é a velocidade máxima permitida. Tem bastante verde ao redor do condomínio e à tarde é possível ver miquinhos andando pelos muros.

Com esse cenário bucólico em mente, talvez você consiga entender por que eu permito que meu filho leve o lixo para fora. Eu poderia dizer também que, como somos um família monoparental com um adulto que trabalha em casa, eu não tenho muita escolha a não ser permitir que ele assuma pequenas tarefas para ajudar na rotina, o que não seria uma mentira. Mas não seria inteiramente verdade.

O fato é que eu não vejo motivo algum para prendê-lo em casa – não que ele não ficasse perfeitamente contente com videogame e Netflix. Um dos motivos para nos mudarmos para cá foi um condomínio absurdamente amigável para famílias com crianças, o que explica a enorme quantidade delas por aqui. Mas você não saberia isso apenas ao observar um dos parquinhos em um fim de tarde qualquer: meu filho seria a única criança que você veria por lá.

O comentário da minha vizinha explica bastante coisa: as pessoas acreditam que é preciso coragem para deixar que as crianças sejam livres e explorem o pequeno mundo ao seu redor. Vivemos na cultura do medo: medo de sequestros, de abusos, de atropelamentos. Medo de não participar da infância da criança, por isso brincadeiras reguladas, sempre com a presença dos pais ou adultos responsáveis. Eu tenho medo disso tudo. Mas também tenho medo de que meu filho não tenha liberdade.

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Cresci assistindo a filmes de aventura. Os Goonies, E.T., Meu Primeiro Amor e um dos meus favoritos da infância, Agora e Sempre. Mais do que serem figurinhas carimbadas na Sessão da Tarde, o que todos esses filmes têm em comum, em termos de roteiro, é que são sobre o processo de amadurecimento de crianças através de interações desassistidas.

O que seria dos Goonies se Mikey ou Chunk tivessem rastreamento por GPS? E se Elliot fosse YouTuber, será que E.T. teria voltado para casa ou estaria gerando views e likes? Se Vada tivesse um celular, teria Thomas sobrevivido? Pode ser que sim. Mas não haveria filme, também.

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Até os filmes de aventura lançados recentemente são ambientados em anos onde crianças eram mais livres. Super 8 por exemplo é, ao meu ver, uma tentativa de recriar a atmosfera mágica dos filmes dos anos 1980-90 – e se passa em 1979. Terá a era de filmes de aventura encontrado seu fim junto com o fim da infância como conhecíamos?

Escrevo isso e me questiono enquanto ouço meu filho conversando com o jardineiro do prédio. Sei exatamente onde ele está: em um lugar que ele chama de “Floresta das Farpas”. É um corredor onde caem galhos de uma árvore no terreno ao lado – que ele jura que é mal-assombrado. Escuto-o contando exatamente isso ao novo amigo.

Não sei por quanto tempo ele sentirá um arrepio ao ver um dos galhos mal-assombrados caindo em sua direção. Temo que não por muito tempo. Talvez minha coragem ou irresponsabilidade (chame como quiser) tenha comprado alguns anos a mais de magia para ele. Mas será que servirá de algo?

Está na hora de nos acostumarmos que filmes para crianças serão animações? Que as crianças do bairro não poderão salvar a cidade de bandidos perigosos? Que não há um tesouro escondido em algum lugar naquela mata – que mata? Não sei. O que vocês acham?

Nanda Café

Nanda Café

Feminista que faz ballet e adora cor-de-rosa. Gosta de RPG, fantasia medieval, anime água-com-açúcar e é #teammarvel apesar de Sandman ser da Vertigo. Começou a estudar Quenya, mas como não dava pra fazer isso enquanto comia, desistiu de ser elfa e admitiu para si sua natureza hobitesca.
Nanda Café

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  • Eu acho que toda mãe acaba tendo que lidar com essas questões mais cedo ou mais tarde. Moro numa cidade que foi muito segura na época da minha infância (e tive uma infância bem livre e feliz) mas que hoje em dia não é mais segura, mas pra minha sorte vivo em um condomínio fechado que dá uma certa sensação de segurança. Fico feliz em saber que aqui também moram muitos casais jovens e com filhos bebês e que quando a Catarina crescer um pouquinho mais ela vai ter um monte de crianças pra brincar. Pelo menos eu espero que os pais deixem elas saírem pra brincar, né.
    Adorei sua descrição de si mesma, me identifiquei, haha. Também adoro RPG e fantasia medieval mas só descobri o gosto pelos personagens da Marvel por causa do meu marido que é um aficcionado por filmes, HQs e cultura pop em geral. E aqui em casa a gente brinca que somos hobbits também (pois somos dois baixinhos) mas eu sou Tûk e ele é Pé-soberbo. rsrsrsrs

    Beijos!
    http://www.baudabijou.com.br

  • …E olha, adorei a descrição de todas as pacmães! Finalmente achei outras mães nerds pra tricotar! \o/