Shut up and take my money | O consumismo do mundo nerd e as nossas crianças

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É bem comum ouvirmos críticas ao “consumismo desenfreado” do mundo nerd e geek. Realmente é um universo recheado de anúncios, marcas registradas, personagens patenteados, produtos caros, diferenciados, exclusivos. É o mundo dos licenciamentos, dos copyrights, das réplicas perfeitas, é o universo onde quem consegue algo antes de todos os outros é valorizado, e, consequentemente, é o mundo do dinheiro! Muito, muito, muito dinheiro.

Se de um lado estamos nós, pessoas completamente apaixonadas, quase obcecadas por seus temas favoritos, capazes de comprar qualquer tipo de produto relacionado com o assunto que tanto amamos, por outro lado temos elas, as grandes corporações, empresas dispostas a lucrar absurdamente em cima dessas paixões. Chovi no molhado, né? Porque tudo isso você já sabe, afinal, convive com o mundo capitalista desde que nasceu, certo?

OS PEQUENOS PADAWANS

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Mas é que eu vim aqui falar de outra coisa.  É que no meio dessa história toda, temos as crianças. Nossos filhos. Aqueles carinhas que todo dia presenciam nosso amor incondicional por um personagem de quadrinhos, um herói (ou vilão, why not?) de video game, um tipo de brinquedo, uma série de TV, um astro do rock, ou mesmo a nossa devoção por toda uma série de livros, uma franquia cinematográfica. Que tal por um pouquinho de cada uma dessas coisas?

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Calma, me abraça. Eu sei como é. Te juro. Eu também acho lindo quando o meu filho brinca de Harry Potter. Sim, ele gosta, entende, divide a paixão pela série comigo. Ele também fica gato demais quando veste uma camiseta do Ramones. Sério. Ele conhece duas músicas da banda, mas fica lindo naquela blusa.

Estamos todos mais ou menos no mesmo barco. Eu te desafio a encontrar uma mochila escolar que não tenha um personagem qualquer estampado nela E que não custe um absurdo. (oi? Cobrar os olhos da cara pela mochila sem personagem também não vale, seu explorador de mães Waldorf, mercenário da alternativice :p)

CHILIQUINHO NERD

Mas, voltando aos pequenos e em como eles se relacionam com os NOSSOS gostos: a gente sabe, elas estão sempre por ali, observando. Estão sempre aprendendo, estão sempre nos sacando. Aprendem principalmente com os nossos exemplos diários. Tendem, sim, principalmente na infância, a nos imitar e também  a gostar das mesmas coisas que nós gostamos. Como lidar com as crianças que circulam junto com a gente nesse mundo delicioso da cultura pop?

Sim, é meio difícil evitar que seu filho deseje os objetos oferecidos diariamente nos intervalos comerciais quando você mesmo tem um chilique diante da prateleira da loja ao descobrir um novo jogo de video game.  Vamos começar com essa dica? Exemplos, ok? Que tal deixar pra fazer um escândalo sozinho, mais tarde, no chuveiro? 🙂

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Exemplos, minha gente!

FILTRO MATERNO/PATERNO

Primeiro, há uma coisa extremamente importante: as crianças tendem a conhecer um pouco mais do mundo pelos nossos olhos. Somos nós quem “traduzimos” o mundo para elas. No meu humilde ponto de vista não adianta nada simplesmente desligar a televisão, fingir que a sociedade de consumo não existe e não nos afeta diariamente e simplesmente blindar as crianças diante da realidade.

Em minha experiência, de mãe de um garotinho que hoje tem 7 anos, o que mais funciona é dialogar e explicar. Explicar o que é uma propaganda e para que ela serve. Mostrar que nem sempre o que é vendido como incrível e essencial é assim tão necessário. Dizer que não é porque uma coisa está passando na televisão que ela é verdade absoluta. Isso é primordial. É desenvolver senso crítico, é estimular questionamento.  Esse é o nosso lado, como pais.

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SEGURA ESSE CONTROLE REMOTO

A gente regula a quantidade de tempo diante da TV e do computador. A gente escolhe, ou ajuda a escolher, o que a criança assiste, dando preferência a formatos que dificultem a enxurrada descontrolada de anunciantes: DVD, streaming, cinema. A gente oferece novas possibilidades de entretenimento, a gente brinca junto, compartilha, estimula a ler, ou mesmo a gente simplesmente conta que as melhores coisas da vida geralmente são de graça. A gente explica que dá pra trocar brinquedos ao invés de comprar novos. A gente TENTA. 

Sim, eu sei que por mais inteligente que uma criança seja, ela ainda não tem o desenvolvimento necessário para interpretar sozinha certas coisas. Eu sei que a publicidade muitas vezes vem mascarada, e eu sei perfeitamente que nem todo mundo pode estar 100% do tempo ao lado do filho. E muitas vezes nem é porque não quer, é porque não pode mesmo. Eu sei que com as crianças novinhas, muitas vezes nem é possível se alongar demais nas explicações. Eu sei. Me abraça, de novo. 🙂

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E AS INFLUÊNCIAS EXTERNAS?

Mas pensa que acabou? Que nada, ainda tem a escola, recheada de amiguinhos que trazem as últimas novidades em brinquedos. Tem aquele tio que não acha nada de mal se a criança vê um pedaço daquela inocente novelinha infantil (pois é, o Carrossel de hoje em dia não tem mais nada a ver com as questões Cirilo/Maria Joaquina, sabia?). Tem os vizinhos que aparecem com o brinquedinho que ganharam no fast food, os parentes que enchem a criança de presentes desnecessários, tem o jornal que entregam no trânsito, as revistas, os outdoors. Tem as lojas nas ruas, os shoppings, tem os supermercados, temos o mundo a nossa volta.

E há aquele outro lado, lembra? As empresas que detêm os direitos de nossos amados personagens, franquias, ou seja lá o que for que nos mobiliza, e para quem destinamos nosso rico dinheirinho. A gente pode, sim, orientar as nossas crianças. Mas são esses caras que precisam respeitar normas, principalmente as relacionadas à publicidade voltada ao público infantil.

PORCARIAS FOFINHAS

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A gente está cansado de ver personagens fofos relacionados a campanhas publicitárias que vendem comida nem um pouco saudável. Estamos esgotados de tanto encontrar por aí propagandas sexistas, ou que promovem uma “adultização” precoce.

Eu sei, eu também amo de paixão a Turma da Mônica. Amo mesmo. Mas é o nome da turminha que está lá escrito naquelas porcarias que vendem pras nossas crianças no mercado, não é? E eu não tô falando da maçãzinha, nem da melancia. Eu seeeeeeei, tem vezes que eu tenho vontade de comprar PRA MIM os brindes da lanchonete do palhaço mal. Esses malditos sabem escolher direitinho o alvo. Eles SABEM.

Sabemos como funcionam os canais infantis, completamente saturados de comerciais que se aproveitam exatamente dessa falta de “filtro” das crianças para tentar empurrar garganta abaixo (delas e nossa) todo o tipo de porcaria. É exatamente assim no rádio, no cinema, em qualquer lugar. É parar de refletir por um segundo e estaremos ali cantarolando um jingle qualquer. Ou compartilhando em redes sociais aquele comercial “tocante”. Eles sabem o que fazem.

REGULAMENTAÇÃO DA PUBLICIDADE INFANTIL

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Há um Projeto de Lei no Brasil (PL 5921/01), que traz a proposta de uma regulamentação nova para a publicidade que tem como alvo as crianças.  Quando fui pesquisar o assunto para esse post, caí direto no site lindo de nossas “parças” do Infância Livre do Consumismo (site de onde peguei quase todas as imagens desse post).

Achei um trecho muito interessante, que explica as motivações do movimento: “para cumprir nossa responsabilidade de educar nossos filhos para a cidadania e a sustentabilidade, precisamos do apoio efetivo do Estado e da responsabilização efetiva das empresas privadas, dos veículos de comunicação e das agências de publicidade. Diante do excesso de propagandas e do conteúdo manipulatório que se apresenta diariamente na mídia direcionada às crianças, nós pais e mães não aceitamos assumir esta responsabilidade sozinhos (…) Somos pais e mães conscientes e presentes e não aceitamos que atribuam a nós a responsabilidade pela forte influência da publicidade na formação de nossas crianças.”

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Acho que além dessa conscientização e da nossa presença como responsáveis, essa é realmente a melhor saída, pois é dessa forma que protegemos as crianças de um modo geral, todas elas. Afinal, não são todos os pais que conseguem explicar aos pequenos algo que eles mesmos pouco compreendem.

Com multas, obrigatoriedade de retratação, de publicidade contrária (promover um produto saudável quando se faz um comercial para uma guloseima, por exemplo) e mesmo proibição da propaganda direcionada diretamente às crianças, as empresas serão obrigadas a se adequar.

Quer ouvir a parte triste? O Projeto completará 12 anos de tramitação agora em dezembro de 2013. Lamentável. Nesse link do site Publicidade Infantil Não é possível enviar um e-mail para os Deputado Décio Lima (PT-SC), presidente da Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJC), que recebeu o PL no último dia 19 de setembro e até agora não indicou um relator, e para o Deputado Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), Presidente da Câmara dos Deputados.

O QUE É QUE VOCÊ ESTÁ COMPRANDO?

Pra terminar esse post gigante, uma reflexão linda que pesquei também lá do site do “Infância Livre do Consumismo”: “Do que é mais fácil dispor? Tempo ou dinheiro? Todo o marketing, todos os editoriais e todas as colunas de comportamento repetem que não temos tempo. E, acreditando que estamos sem tempo à nossa disposição, nos parece mais “fácil” trabalhar ainda mais para conseguir o dinheiro para comprar o objeto-brinquedo e satisfazer o suposto desejo da criança. E assim temos a tranquilidade de estar fazendo o melhor. Estamos mesmo?”

Kathy

Kathy

Jornalista, sonserina, lannister, malkaviana, dobradora do reino da Terra, distrito 3. Transmito o legado nerd ao meu rebento, Samuel, que, pobrezinho, já reclama que ninguém da escola sabe quem é Sauron e nem fazem ideia do que significa conjurar um patrono.
Kathy

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  • Nossa, excelente esse post! Ótima reflexão!
    Realmente é difícil explicar para o filho que nem tudo que vemos temos que comprar sendo que vc mesma entra na loja de brinquedos para comprar coisas para vc xD

    Acho que uma coisa que está muito em evidência nesse mundo geek atualmente são itens customizados ou totalmente feitos por fãs! Podemos nos aproveitar disso e ao invés de sair comprando de tudo e incentivar as crianças a produzirem os próprios brinquedos! Eu fazia muito isso com a minha irmã e primos quando era criança =)
    Assim ensinamos a importância da reciclagem e trabalhamos a criatividade, mesmo que seja com algum tema ou personagem já existente hehe

    • kathy

      hahahaha Daniela a parte da loja de brinquedos é REAL… só quem é nerd entende, né?! 🙂

      Tem toda razão, tem muita gente legal customizando! Além de ser divertido (toda a construção do objeto), ainda é sustentável. Ótima dica! beijos!

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