Literatura | Você conhece os Contos de Mullá Nasrudin?

Sempre tive uma baita curiosidade sobre o Oriente Médio. Acho que isso se deve a leitura recontada  dos livros”As viagens de Marco Polo”  e “As mil e uma noites” da editora Scipione. Quando fiquei mais velha comecei a me apaixonar por filmes Iranianos, são belos e sensíveis. Meus preferidos são: Filhos do paraíso, A cor do Paraíso, Tempo de embebedar cavalos,  A maçã, O jarro e O quadro negro. Por essas e por outras eu acabei conhecendo a HQ e o filme Persépolis e depois a HQ Bordados.

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Não sou uma expert no assunto, acho até que assisti poucos filmes e li poucas coisas! Mas foram ótimos para conhecer um pouco mais sobre aquela região tão mal retratada pela mídia. o Irã dos filmes é bem diferente do senso comum: Não  há camelos, mulheres de burcas e as pessoas não falam Árabe, aliás li um texto bem legal sobre isso. Assim como coreanos, japoneses e chineses são bem diferentes, árabes, iranianos, libaneses, turcos e sírios são povos bem distintos.

Um dia conheci uma moça muito legal chamada Mirelli  num curso que fiz, mas tive mais contato com ela pelo Facebook após o término do curso, suas postagens sempre foram interessantes e poéticas, ano passado ela começou a compartilhar sobre sua viagem ao Irã! Eu e todos os amigos dela ficamos babando e encantados sobre tudo que ela retratou, depois que ela voltou resolveu fazer um documentário sobre aquele belíssimo lugar. Esses dias eu pedi a Mirelli para escrever um pouco sobre algum tema relacionado a infância no Irã, ela gentilmente se prontificou e escreveu esse belo texto sobre os Contos de Nasrudin.

MULLÁ NASRUDIN: MANTO DE LETRAS E CONTAÇÃO DE HISTÓRIAS

O Credo do Narrador Oral, de Garzón Céspedes, em sua irretocável boniteza, diz: “Creio no contador, concebido nos espelhos da água, nascido humilde, tantas vezes negado, tantas vezes crucificado, porém nunca morto, nunca sepultado, porque sempre ressuscitou dos vivos congregando-os a ser: xamã, fabulista, contador de histórias.”.

Afinal, como defenderíamos a sabedoria da ingenuidade, não fosse pelos contadores e seu imaginário que transita pelo chão de estrelas, pendura-se em cordas e cordéis, zomba de si mesmo e dos pesares humanos, transformando-os em ensinamentos lúdicos e, invariavelmente, de natureza pedagógica?

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Mullá Nasrudin, filósofo, sábio populista e de humor intrinsecamente espirituoso, é um clássico personagem supostamente nascido na Ásia, mais especificamente em Akshehir, na atual Turquia, no século XIII.

Sua existência sempre foi colocada em xeque, não se sabe ao certo se é parte do folclore popular ou personagem real; sabe-se apenas, e tão apenas é o que importa, que seu nome desagua entre gerações.

Sua literatura escorre através dos tempos, abarcada de significâncias. Não há casa ou rodas de chá ou conversas entre amigos imunes a ele. De caráter simplista e potencialmente místico, uma vez que compreende a literatura sufi –a mística islâmica –, embora seus ditos soem como anedotas, quando superficialmente lidos/escutados, exigem uma interpretação para além do risível.

Nasrudin é o personagem central de todos os seus contos: seria uma autobiografia, se estivéssemos certos de sua existência física. Suas palavras exalam uma inocência quase pueril e, deve ser por isso, dialoga tão facilmente com todas as esferas do entendimento humano.

Seus ensinamentos, por vezes travestidos de piadas, conversam magistralmente bem com o imaginário perceptivo infantil.

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Essa que vos escreve foi apresentada ao Mullá há uns bons anos, ao tomar contato a cultura persa. O Irã, lugar onde residi durante seis meses, preserva as memórias de Nasrudin em suas “morais” cotidianas – e torna leve o ato de rir de si mesmo, tal qual o Mullá.

Mais de 95% da população da República Islâmica do Irã é declarada muçulmana. Xiita, em sua esmagadora maioria. O esoterismo advindo do Sufismo, tem suas raízes plantadas nas teorias Xi’ahs.

De acordo com o erudito islâmico Ibn Khaldun, “os sufis se imbuíram das teorias da Xi’ah. Tais teorias penetraram tão profundamente em suas ideias religiosas que basearam sua própria prática de usar o manto no fato de que Ali vestiu a Hasan Al Basri com essa peça  quando este aderiu solenemente a senda mística. A tradição (assim instaurada por Ali) teve continuidade, segundo os sufis por Al Junaid, um dos mestres sufis”.

Se você se interessou por essa figura excêntrica e facilmente adorável, sugiro que se aventure pelas páginas de Nasrudin – 99 Contos (2009). Se quiser mais curiosidades sobre a cultura persa e afins, acesse  e conheça o projeto Azizam.

Beijos – ou, como diríamos em farsi, miboosamet.

“Eu vejo no escuro
Como os pássaros da noite”,
Elogiava-se Nasrudin.
“Se assim é, como afirmas,
Porque é que pelas ruas
Por vezes te vejo
Transportando lamparina?”
“Tento evitar
Que outros em mim esbarrem.”

Nasrudin entrou na casa de chá.
Olhou os presentes e exclamou:
“A Lua é de maior utilidade que o Sol.”
Interrogaram-se os ouvintes.
Seria verdade tal asseveração?
Até que o questionaram:
“Porquê, Mullá?”
“Ora, necessitamos de mais luz
À noite que de dia.”

Disse um homem:
“Que a vontade de Alá seja feita.”
“Sempre se faz
Em todo o momento,
Em qualquer situação”,
respondeu Nasrudin.
“Como podes provar tal afirmação?”
“Simples e conveniente.
Se a vontade de Alá se não fizesse sempre,
Seguramente que a minha
Uma ou outra vez se faria.”

Meia-noite.
Nasrudin passeava-se pelas ruas
Sem direção ou destino.
Um polícia questionou-o:
“Que fazes tu a esta hora?
É perigo vaguear só.”
“Perdi o sono e busco-o“, respondeu.

“Quantos anos tem, Mullá?”
“Quarenta.”
“Mas há dois anos
Quando lhe perguntei
Você também tinha quarenta.”
“Tem razão.
Sustento sempre o que digo,
Nunca me contradigo.”

Um filósofo caseiro
Especulava no salão de chá:
“Estranha esta humanidade.
Insatisfeita e volúvel.
Quando está frio reclama.
Reclama do Verão e do Inverno.”
Enquanto todos aquiesciam,
Disse Nasrudin absorto e abstraído:
“Ninguém reclama da Primavera.”

Gostou?

Quer saber mais sobre o Irã, por meio de uma visão feminina?

Conheça  o Projeto Azizam.

Azizam

Azizam

Um Irã que você nunca viu, retratado através das memórias e olhares de quatro mulheres.

O FILME

O filme documentário de longa-metragem Azizam retratará o país Irã sob o ponto de vista de quatro mulheres: duas brasileiras (Andrea Mendonça e Mirelli Fernandes Rosa) e duas iranianas (Roya Fallahi e Sara Najar), a partir de suas histórias, memórias, sonhos e vivências cotidianas.

O documentário Azizam pretende mostrar o Irã sob uma ótica poética e bem-humorada, desmitificando a imagem que a mídia cria do Oriente Médio.

POR QUE DAR VOZ ÀS MULHERES?

As diretoras e personagens do filme, Andrea Mendonça e Mirelli Fernandes Rosa, não apresentam um olhar totalmente estrangeiro do país, devido há anos de pesquisas, visitas ao país, ou amizades iranianas. E como mulheres reconhecem a necessidade de dar voz às mulheres iranianas, respeitando a forma como estas enxergam o mundo.

O filme tem a intenção de desmitificar a imagem da mulher iraniana que é divulgada na mídia ocidental, por onde é comum associá-las ao uso da burca e a submissão aos maridos. Porém, no Irã as mulheres são maioria nas universidades. Elas estudam, trabalham, votam e conquistam suas independências. Ressaltando que não se trata de uma ótica deslumbrada do país, e sim de um viés poético-crítico.

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AS 4 MULHERES PERSONAGENS DO FILME

Andrea Mendonça é diretora, produtora e editora de cinema. Pesquisadora da cultura iraniana desde 1999. Ela já dirigiu e produziu o curta metragem Artistas Reunidos (2007); dirigiu e editou os curtas-metragens O Meu Olhar (2007), ½ kg (2014) e Habitar (2015 – em finalização); dirigiu e editou o média-metragem documentário Ocupação Hotel Cambridge (2014). Co-dirigiu e editou com o cineasta britânico Rahim Moledina o longa-metragem documentário I do know my way home (2015) – atualmente em exibição nos festivais de cinema. Trabalhou como produtora e editora em diversas emissoras de TV e empresas produtoras.

Mirelli Fernandes Rosa é Especialista em Linguagens da Arte, Artes Visuais, Intermeios e Educação. Foi assistente de direção nas montagens O concílio do amor (2004) e Quixote, Dom (2011), ambas no Teatro Escola Macunaíma, e assistente de produção no documentário Sarzamine Football Brazil (2006), de Ali Maddahi. Atua com Novas Mídias e Intermeios, no Coletivo OUI2b. Pesquisadora da cultura iraniana desde 2002, foi co-idealizadora e proprietária de uma casa de chá iraniana em São Paulo, o Palácio do Shah. Viveu no Irã durante seis meses.

Roya Fallahi é formada em artes cênicas pela Art University of Tehran e trabalha atualmente como atriz de rádio novela no Irã. Mora na capital Teerã com seu filho e marido.

Sara Najar é enfermeira chefe do Shohadaye Tajrish Hospital,no Irã. Uma mulher independente e é a filha caçula de uma família de Teerã.

[vimeo 123196414 w=500 h=281] <p><a href=”https://vimeo.com/123196414″>Azizam Filme – crowdfunding video</a> from <a href=”https://vimeo.com/miguelpixies”>MIGUEL PIXIES</a> on <a href=”https://vimeo.com”>Vimeo</a>.</p>

Para Saber mais e contribuir  para que esse projeto vire realidade acesse: https://www.catarse.me/pt/azizam

Joyce Recco

Sou uma professora feliz da Rede Pública, mãe da Alice (3) e do Arthur (3 meses). Adoro fazer listas, organizar e criar coisas. Sou apaixonada por literatura infantil, culinária, DIY e fotografia. Curto ficção Científica, gosto que aprendi com a minha Pac Mãe. Adoro Star Wars, Star Trek e fico muito chateada com a competição que o pessoal faz entre as duas franquias, coração de mãe é grande e tem espaço para todo mundo!

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